Mary Poupe: “Meu sonho é levar educação financeira para o máximo de mulheres”

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Com Instagram e o canal Youtube Mary Poupe, a catarinense Francine Mendes investe no viés psicanalítico para se diferenciar da concorrência

Catarinense de Criciúma, economista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina – com mestrado em psicanálise de consumo na Universidade Kennedy (Argentina), Francine Mendes, de 34 anos, é quem está por trás do perfil de Instagram Mary Poupe. Lançado em abril deste ano, já reuniu cerca de 6.700 seguidores ávidos por dicas de investimento. Com o foco principal no público feminino, o perfil se desdobra em um canal de Youtube com mais de 4.600 inscritos. Francine visitou a redação de Forbes e concedeu a entrevista abaixo.

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Já pensava em atuar nessa área desde cedo?
Já. Na verdade, sempre gostei muito de exatas, ao contrário do que acontece nas famílias brasileiras em que menina é treinada para gostar de humanas; e menino, de exatas. Na minha casa, no entanto, sempre foi muito livre. Resolvi fazer economia porque eu queria muito trabalhar no Banco Central. Sempre achei isso maravilhoso.

Um sonho bem diferente…
Bem diferente. Eu lembro que foi um susto na minha casa quando falei para a minha mãe que ia fazer economia. Ela sonhava em ter uma filha advogada, médica, psicóloga. Aí, falou: ‘Economia? Tem certeza? Nossa, vai morrer de fome.’ Respondi: ‘Não, mãe, é meu sonho. Vou fazer.’ Assim, comecei na Universidade Federal. Estudava à noite. Turma com 90% de homens. Comecei a gostar muito do mercado – ainda mais da parte de mercado de capitais. Eu via muita carência nesse sentido para as mulheres: ‘mulher não sabe investir’, ‘mulher não aprende a cuidar do dinheiro’, ‘mulher sempre delega para alguém que sabe cuidar’. Resolvi fazer um projeto com mulheres, criei o primeiro clube de investimentos só para mulheres em Santa Catarina, em 2007: Ela investe. Em uma semana, a gente conseguiu 150 mulheres, o limite do clube. Depois, fomos criando outros. Comecei a fazer eventos de finanças só voltados para o público feminino, e percebi o interesse imenso das mulheres em adquirir liberdade financeira.

Qual foi seu diferencial quando decidiu seguir por esse caminho?
Meu diferencial foi encontrar uma linguagem para falar de economia de uma forma simples, acessível, não com aquela sopa de letrinhas sem sentido. Desmistifiquei o que é uma LCI, um CDB… Falo com mulheres que vão fazer seu primeiro investimento. Dou passo a passo, faço atendimentos individuais, mas isso está cada vez mais difícil, pois a adesão tem sido muito alta. Ensino a mulher a ensinar educação financeira para os filhos também. Como tenho filhos [Lara, 9 anos, e Luca,7], acabo falando da diferença entre preço e valor das coisas. O mestrado em psicanálise me ajudou a ensinar as mulheres a eleger prioridades: deixar consumo por coisas inúteis para consumir produtos financeiros que a longo prazo podem ser responsáveis por uma liberdade financeira, o que garante a independência dela. A mulher é muito cobrada na sociedade: tem que ser boa mãe, boa esposa, trabalhar fora – ela não faz o principal que é cuidar do futuro dela.

Como você lidou com a carreira quando teve seus filhos?
Fiz uma pausa de cinco anos no mercado financeiro – não no mercado de trabalho, porque, nesse período, abri quatro franquias do setor de moda em Santa Catarina. Quando meu filho fez 5 anos, resolvi ingressar em um mestrado em psicanálise para chegar diferenciada ao mercado financeiro. Acabei em janeiro deste ano.

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Qual foi o grande motivo para você começar com a Mary Poupe no Instagram e no Youtube?
No meio do mestrado, já decidi que voltaria ao meu trabalho com mulheres, mas agora com uma vertente mais psicanalítica. Em dezembro de 2018, fiz uma parceria com a corretora Genial Investimentos para começar, de fato, a criar uma plataforma. Afinal, não adianta eu querer ensinar as mulheres a cuidar do dinheiro delas dizendo para elas delegarem para o gerente de banco, que querem passar produtos que sejam interessantes para o banco; não para o cliente. Quando você assume as rédeas de sua vida financeira, você acaba entrando em uma plataforma de investimentos.

Reprodução/Mary Poupe/YouTube
“O Mary Poupe é um canal de finanças que fala a linguagem da mulher”, diz

E como aconteceu a aproximação com a Genial?
Eu estava montando lá em Santa Catarina um escritório de investimentos só para mulheres. Falei para a Genial dos meus projetos e eles estavam pensando em fazer algo voltado para mulheres. Comecei a fazer as gravações, os programas, produção de roteiro. Assim que a gente botou no ar, a rede Record de Santa Catarina viu os programas, achou muito bom e me chamou para fazer um quadro sobre educação financeira na televisão. No início, era pouco tempo; agora, a gente já está com 10 minutos ao vivo. Criamos uma rede de contatos muito fortalecida, mulheres que estão conseguindo mudar a vida delas. Eu sempre falo: você precisa ter sua independência financeira, não depender do marido. Os escritórios de advocacia dizem que os homens se preparam, em média, dois anos para se separar; a mulher fica em uma situação vulnerável. Muitas dizem que não sabem por onde começar a sair dessa situação. Aí, faço um trabalho psicanalítico para ela descobrir a sua habilidade.

Você ficou casada por quanto tempo?
Por 17 anos. Me separei em fevereiro deste ano.

Pouco depois, em 23 de abril, você subiu sua primeira postagem no Mary Poupe. Atualmente, está com quase 6.700 seguidores. Planejava crescer assim?
Não. A gente planejava crescer menos. Tínhamos uma meta bem conservadora, de crescer de forma sólida. Mas está tomando uma proporção grande por conta da televisão. Temos tido uma demanda muito grande. No Instagram, são mais de 6 mil mulheres ativas, muito ativas. Acredito que em dois ou três meses a gente esteja com 10 mil seguidores.

Como Mary Poupe se diferencia de outros canais que têm atuação semelhante nas redes?
O Mary Poupe é um canal de finanças que fala a linguagem da mulher. Existem mulheres na rede que eu admiro muito o trabalho, mas elas falam para homens também. Mary Poupe tem uma linguagem específica para o universo feminino mesmo. A mulher tem vergonha inclusive dos próprios sonhos, já percebi isso. ‘Fran, desculpa, mas meu sonho é uma bolsa grifada…’. Elas pedem ‘desculpa’ pelos sonhos. E eu falo, olha, a gente não leva nada dessa vida, vamos realizar sonhos, sejam eles quais forem. Tenho uma equipe que faz a carteira de investimentos. Outras mulheres me perguntam como aplicar dinheiro para fazer uma prótese de silicone… Primeiro digo que não pode deixar o dinheiro na poupança hoje: uma das piores modalidades de investimento que existem. Existem outros investimentos semelhantes, e tão seguros quanto, que pagam em média 30, 40% a mais. Sem contar as mulheres que estão casadas, e não querem mais; e as que querem se casar e querem informação sobre o regime ideal. Criamos uma conexão muito forte. Isso nos diferencia de outros canais.

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Qual o seu sonho hoje?
Hoje o meu sonho é levar educação financeira para o máximo de mulheres que eu puder. Ensinar que a mulher cuidar do dinheiro dela é o maior caminho para ter liberdade e independência.

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Francine Mendes, de 34 anos, é quem está por trás do perfil de Instagram Mary Poupe

Onde entra a criptomoeda nessa cena?
A criptomoeda não é um investimento: é uma reserva de valor. Quando aparecem mulheres querendo investir em criptomoedas, aconselho que invistam em fundos de criptomoedas – porque quando você investe em criptomoeda puramente, corre o risco, de um dia para o outro, você dormir sem nada do seu recurso. Quando você investe através de fundos, os fundos são muito mais preocupados com isso: têm alarmes, então, não vai derreter seu patrimônio. Aconselho investir, no máximo, 3% por ser uma reserva de valor.

Com a aprovação de reformas em Brasília, a expectativa é de uma curva ascendente da economia. Qual sua dica para as mulheres nesse momento?
Acho que se você esperar a hora certa, esse momento nunca vai chegar. Então, nesse momento, temos a Selic em queda: 6%. Comparado com outros países, como os EUA, que reduziu de 2,5 para 2% a taxa básica de juros da economia… Ainda temos, no Brasil, patamares elevados para investimentos conservadores em renda fixa. Vejo que é um momento espetacular para entrar no mercado financeiro, sobretudo em renda variável. Nós temos empresas maravilhosas no Brasil, muito sólidas. Penso em uma diversificação de carteira hoje – em renda fixa e renda variável –, mas aumentando um pouco o percentual em renda variável. Gosto muito de fundos imobiliários porque você não paga imposto de renda. Investindo através de ETFs, por exemplo, você pode comprar diretamente do home broker, uma ETF do PIBB11, que são as principais empresas listadas em bolsa, não precisa ficar controlando o que está acontecendo, e você ainda participa desse bolo de investimentos.

Qual a diferença entre dar dicas de finança para um homem e para uma mulher?
Mulher é mais humilde. Sabe que não sabe. Homem acha que sabe, e não sabe. Estatísticas mostram que, quando a mulher decide cuidar, ela pode cuidar melhor por conta de aspectos psicológicos. Por questões hormonais, o homem toma decisões mais irracionais em relação ao processo de investimento, mas não é dizer que mulher investe melhor do que homem.

Uma mulher bonita empoderada assusta?
Muito. O homem fica assustado.

Onde mora atualmente?
Moro em Florianópolis e trabalho em São Paulo. Faço essa ponte semanalmente. Venho para São Paulo, fico dois dias por aqui, dois dias em Florianópolis, às vezes fico mais tempo aqui, dependendo das demandas, dos eventos. Corro o estado também com palestras. Quando dá tempo, são quatro, cinco palestras. Preciso me dividir entre o Mary Poupe, a televisão, os filhos e ainda tenho franquias.

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Qual sua rotina de informação? Quais são suas fontes de informação de mercado financeiro?
Primeiramente, os jornais. A primeira coisa que faço ao acordar às 5h30 da manhã é ler todos os jornais do campo econômico. Aí, a Genial me proporciona informação por todos os lados, e não perco a oportunidade de ir a palestras de informe econômico, recebo muitos e-mails também de empresas de investimento em que estou cadastrada.

Que horas você vai dormir?
Quando estou em casa, vou dormir junto com as crianças, 21h30, 22h, no máximo. Em São Paulo, a rotina fica um pouco mais apertada, gravação de programas, relacionamentos com o mundo dos investimentos, palestras. Mas já estou acostumada.

Tem alguma rotina esportiva?
Sim, tenho. Não funciono se não faço alguma atividade física. Faço atividade física três vezes por semana. Acordo 5h30, leio até as 7h, depois gasto 1h30 respondendo mensagens. Na academia, corro, faço alongamento, não sou de musculação pesada, mas tenho uma vida bem saudável. Também cuido bastante da alimentação.


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