Entenda as diferenças entre Plano Marshall e o New Deal

Keystone France/gettyimages
General Marshall (no centro) examina os últimos pontos de seu Plano de ajuda americana a países europeus atingidos pela Segunda Guerra Mundial em 1947, em Washington, nos Estados Unidos

Diante da preocupação latente sobre os impactos econômicos gerados pela pandemia de Covid-19, empresários brasileiros passaram a pedir à esfera federal a elaboração de um “novo Plano Marshall” para salvar a economia brasileira de um possível colapso.

O maior receio da classe, que se estende a grandes e pequenos negócios, é de que o momento de tensão obrigue as iniciativas privadas a fecharem as portas –o que representaria desemprego, diminuição do poder de compra e possível caos social.

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Gilberto Sarfati, professor da FGV-Eaesp, alerta que “estamos falando de um grande experimento em tempo real”, mas, como a história se repete (com novos elementos decisivos, é claro) e o momento exige medidas drásticas emergenciais e efetivas, conversamos com dois especialistas em economia e história para saber o que foi exatamente o Plano Marshall –a medida que tem sido tão falada nos últimos dias– e também o New Deal, outro plano de resgate econômico histórico.

Plano Marshall

Conhecido como Plano de Recuperação Europeia, a iniciativa chamada de Plano Marshall foi um conjunto de medidas formuladas pelos Estados Unidos para reconstruir nações europeias no período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial. O plano recebeu o nome do Secretário de Estado dos Estados Unidos, o general George Marshall. À época, no ano de 1948, o país ofereceu ajuda monetária de US$ 14 bilhões – o equivalente a US$ 152 bilhões com ajuste da inflação registrada nos EUA em fevereiro de 2020 – a 17 países da Europa e à antiga cidade-estado de Trieste.

Vinícius Müller, doutor em história econômica e professor do Insper, explica que a iniciativa visava estruturar um plano maior que os anteriormente implementados. “Era a junção objetiva de três pilares fundamentais. O primeiro era recuperar a infraestrutura, a produção agrícola e a capacidade produtiva e industrial da Europa”, diz. “Afirmar a hegemonia norte-americana expressa no Acordo de Bretton Woods [reunião entre 45 países aliados, em 1944, antes de terminar a Guerra, na qual os norte-americanos impuseram medidas e regras que davam aos EUA a liderança na reconstrução do mundo] por meio do padrão monetário dólar-ouro era o segundo”, afirma o especialista. Ou seja, instalar um modelo cambial monetário com o envio de dólares para os países beneficiados e, consequentemente, maior impressão e exportação da moeda norte-americana. Por fim, o plano queria “impedir que a União Soviética pudesse se posicionar fortemente nessa reestruturação, por conta do início da Guerra Fria, em 1947”.

Para o especialista, a iniciativa não caberia no momento atual por uma questão conceitual. “A estratégia tinha a ver com a liderança dos EUA no pós-Segunda Guerra. Não é isso que está em questão no momento. A não ser que estejamos discutindo a liderança chinesa e a junção de países para promover uma recuperação conjunta”, diz. “O Plano Marshall caberia nessa comparação se houvesse cooperação internacional, liderança de um país em melhor situação, regras para uso e distribuição de recursos e narrativas de seu uso determinadas pelo país líder e impedimento do posicionamento de uma possível liderança antagônica”, pontua.

New Deal

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Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945, assumiu a presidência durante a Grande Depressão e presidiu a recuperação econômica do país por meio do New Deal

Já o New Deal foi um plano coordenado pelo Estados Unidos sob o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt. “A ideia era que o Estado usasse do seu poder para acelerar a aprovação de medidas e de ferramentas de ampliação de gastos, para recuperar a economia norte-americana após a Grande Depressão dos anos 1930. O pico da crise aconteceu entre o final de 1932 e durante o ano de 1933 e está relacionado ao crash do mercado financeiro em 1929, que desequilibrou o setor econômico dos EUA”, explica Müller. No período que antecedeu a implementação do programa, os Estados Unidos chegaram a registrar desemprego de 27% e 28% da população economicamente ativa.

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Ou seja, tratava-se também de uma iniciativa de resgate, mas com premissa diferente do que aconteceu no pós-Segunda Guerra. Naquele momento, o objetivo prático era atribuir ao Estado responsabilidades entendidas como individuais. Dentre elas, garantia de empregabilidade por meio de iniciativas financiadas pelo governo, recuperação de setores e equilíbrio entre oferta e demanda e garantia de bem-estar social para conter insatisfação popular como desdobramento do cenário vivido. E, ainda, injeção de capital nos bancos para garantir liquidez, sob a condição de que facilitassem novos empréstimos e transferissem dinheiro para setores específicos e chaves, e recuperação e/ou equilíbrio da produção agrícola para evitar preços extremos e falta de alimento. Provocar uma verdadeira despressurização.

O New Deal englobava reformas econômicas e regulação de setores, implementação de medidas de emergência, mudanças culturais e nova relação política entre Estado e sociedade. Algo que, segundo ambos os especialistas, é semelhantes ao seria necessário hoje.

“Nosso cenário atual é de ressaca de uma crise que se reproduz desde o governo Dilma [Roussef], quando nossa situação já era relativamente ruim, com algumas melhoras nos últimos dois anos”, comenta Müller. “Agora temos a adição de uma pandemia de Covid-19, com consequências para todos os setores sociais, especialmente no que tange à economia e saúde da população, dado o alto grau de contágio da doença e fatalidade para determinados grupo.”

Para Sarfati, a ideia central hoje é de que a economia precisa ser estimulada. “O papel do governo é gerar uma ação anticíclica”, diz ele. “Todos os empresários se veem como liberais, eu me vejo assim. Entretanto, o liberalismo não é capaz de lidar com crises agudas deflacionárias. As pessoas não têm dinheiro para comprar e os negócios começam a fechar. Entra em um ciclo de depressão e não recessão”, comenta.

O especialista reforça que o setor empresarial, sozinho, não é capaz de sair dessa, visto que o pior da pandemia de Covid-19 ainda vai acontecer em solo brasileiro. Neste momento, o papel do governo seria gerar justamente a tal ação anticíclica. “O Banco Central e o Governo Federal anunciaram medidas que são tímidas quanto ao prejuízo potencial. Temos de ser criativos e o governo precisa imprimir moeda e transferir o título a longo prazo – transferir a conta para gerações futuras. O caminho é na ponta das pequenas empresas, eles são os maiores empregadores do país. Eu sugiro subsídio aos pequenos negócios, dinheiro na mão sem reembolso – não é empréstimo – sob a condição de manter as pessoas empregadas e o pagamento dos salários”, finaliza o professor.

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