A história da sorveteria de bairro em Minas que virou franquia milionária

Chiquinho Sorvetes, fundada por Isaias Bernardes nos anos 1980, rende atualmente mais de R$ 300 milhões por ano.

Beatriz Calais
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André Polvani.
André Polvani.

A sorveteria foi como um presente para Bernardes, que aos 18 largou a escola para se dedicar integralmente ao negócio e aprender a empreender na prática

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Nos anos 1980, em um pequeno espaço de 16 metros quadrados no centro da cidade de Frutal, em Minas Gerais, nasceu a primeira sorveteria Chiquinho. Se hoje a marca é reconhecida por todo o Brasil pela sua presença em grandes centros comerciais, naquela época o sucesso era através do boca a boca dos moradores da cidade, que indicavam os produtos da típica sorveteria de interior. “Era aquele tipo de estabelecimento bem tradicional, tinha sistema self-service para sorvete de massa e carrinho de picolé”, relembra Isaias Bernardes, fundador da rede.

Para o empreendedor, voltar no tempo para contar a história da Chiquinho Sorvetes é retomar suas memórias do início da vida adulta. Com apenas 18 anos, Bernardes trabalhava de “faz tudo” em um mercado da cidade. “Eu fazia desde reposição e atendimento até entrega em domicílio com minha bicicleta.” Embora o jovem gostasse de suas funções, o trabalho não tinha muito potencial para crescimento profissional, o que fez com que seu pai, Francisco Olímpio, mais conhecido como “Chiquinho”, decidisse abrir um comércio familiar.

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A sorveteria, que carregou o nome “Chiquinho” desde o primeiro dia de funcionamento, foi como um presente para Bernardes, 58 anos, que largou a escola para se dedicar integralmente ao negócio e aprender a empreender na prática. “Eu era um garoto de 18 anos que não tinha capital para investir e nem know-how sobre o mercado. Minha tática era abrir a sorveteria pela manhã e fechar quase meia-noite, todos os dias”, conta o empresário.

De forma quase instintiva, a estratégia acabou dando certo. Após seis anos de sorveteria local, a marca abriu sua primeira filial no interior de São Paulo, mais especificamente em Guaíra, onde ele morou por um tempo. “De lá começamos a fazer toda a expansão, abrindo unidades próprias nas cidades próximas. Criamos uma rede familiar. Quem detinha as filiais eram cunhados, primos, tios. Todos parentes.”

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A marca foi crescendo organicamente, mesmo sem um diferencial claro sobre as outras sorveterias da região. Até que, em 1998, Bernardes decidiu fazer cursos de desenvolvimento para produzir uma receita de sorvete que se destacasse. “Nós tínhamos uma produção própria, mas não era de tanta qualidade. Com o curso, eu aprendi a fazer balanceamento de açúcar, gordura e lácteos e pude desenvolver minha receita até considerá-la ideal”, diz orgulhoso. Para ele, esse foi um grande divisor de águas do seu negócio.

Apenas dois anos depois, a empresa comprou sua primeira leva de máquinas soft, o que, com as receitas próprias, propiciou a criação de novos produtos, como milk shake e sorvete de casquinha. “Mudamos nosso conceito de mercado”, destaca o empreendedor, revelando que a partir desse momento a rede cresceu cada vez mais, alcançando o marco de 80 lojas espalhadas pelo Brasil em 2010.

Na mira do mercado

Com quase 100 lojas, começou a ficar difícil explicar para curiosos e interessados que a Chiquinho não era uma franquia, mas uma rede familiar. “Surgiu uma demanda do próprio mercado. As pessoas nos procuravam querendo abrir uma franquia e, como essa busca começou a ficar muito acentuada, resolvemos criar a Chiquinho Gestão Empresarial e Franchising, batizada de CHQ.” A holding nasceu em 2015 e é responsável pela logística da rede e pela administração de outras sete empresas –de tecnologia e de comunicação, por exemplo– criadas para dar sustentabilidade à Chiquinho Sorvetes.

“Toda família migrou para o sistema de franquia e, após essa mudança, crescemos uma média de 30% a 35% nos primeiros meses”, pontua. No entanto, não foi tudo tão simples. A empresa não tinha identidade visual, layout, publicidade ou até mesmo produção estratégica para abastecer unidades franqueadas em todo o país. Foi nesse contexto que as primeiras empresas da holding CHQ começaram a surgir. “Abrimos uma companhia de arquitetura só para cuidar da nossa identidade visual. Precisávamos ter cara de franquia, padronização.”

Por trás da fachada, a marca também precisava de consistência nas receitas dos produtos e de uma logística adequada. “Uma grande dificuldade foi migrar para as escalas industriais e abrir mão do sorvete artesanal. Nossa receita não mudou, mas o processo, sim. Ainda assim, foi difícil abandonar algo de que gostávamos para crescer no mercado”. Hoje, com uma indústria fornecedora de bebida láctea e uma empresa de logística que percorre o Brasil com caminhões próprios, a Chiquinho tem 120 produtos fixos no cardápio e realiza entregas a cada 15 dias em todas as unidades do país.

De uma sorveteria típica de cidade pequena, a marca se tornou uma grande franquia com 520 unidades, incluindo três no exterior, mais especificamente no estado norte-americano da Flórida. Como resultado, em 2019, o faturamento anual foi de R$ 345 milhões. Neste ano, com as paralisações por conta da pandemia do novo coronavírus, Bernardes prevê faturamento de R$ 310 milhões. Em meio a toda crise, o saldo é positivo, e o empreendedor acredita que parte do sucesso tem relação com o sistema de delivery implementado no início do ano, quando pouco se sabia sobre a disseminação da Covid-19.

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“Veio a pandemia, e o sistema de entregas ajudou muito a sustentar as vendas. Eu diria que 70% da rede já esteja com delivery estruturado”. Esse apoio das vendas online em um momento de fechamento dos centros comerciais só ressaltou uma das maiores crenças de Bernardes: “Nossa inovação precisa ser contínua.” Seja na implementação de tecnologias ou na forma de fazer publicidade, a atenção nos movimentos de mercado são essenciais. “Temos lançamento de novos produtos duas vezes ao ano –campanhas de inverno e verão– e a cada cinco anos mudamos nosso layout”, explica o fundador.

Relembrando seus dias de trabalho incessante na primeira loja da Chiquinho, ainda em Frutal, o empresário também destaca a paciência para alcançar os objetivos. “Não é um processo rápido, temos 40 anos de história, então, é preciso ter resiliência e até teimosia para se dedicar e não desistir”, aconselha. Como se o esforço do início não fosse o bastante, Bernardes também passou por diversas crises econômicas ao longo das décadas. “Ousadia no empreendedorismo é tudo. Conservadorismo não combina com o assunto.”

Em Frutal, a lembrança de um início teimoso ainda está de portas abertas, embora passe por reforma. “Estamos fazendo uma repaginação da nossa primeira loja da Chiquinho, com inauguração que deve acontecer em breve.” Entre as 520 lojas, o pequeno estabelecimento mineiro parece ser o preferido de Bernardes, mas, sobre os sorvetes, ele deixa claro: “Meu favorito é o shake mix de ovomaltine com nutella”.

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