50 anos de Araquém Alcântara: “Fotografia é, para mim, como a respiração”

Juan Esteves

Araquém Alcântara, 50 anos de fotografia (foto: Juan Esteves)

Em 2020, o fotógrafo catarinense Araquém Alcântara, 69 anos, reconhecido por suas fotos estonteantes da natureza brasileira, comemora 50 anos de uma carreira feita de cliques incontáveis. Ainda muito jovem, aos 19 anos, em Santos, litoral sul do estado de São Paulo, descobriu a sua missão de retratar a realidade – nem sempre bela – do Brasil.

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“Nos anos 1970, eu fazia parte de um curso de história do cinema com o francês Maurice Legeard [expoente da cena cinematográfica da cidade], no velho Cine Iporanga. Numa noite, assisti ao filme japonês “A Ilha Nua”, do diretor Kaneto Shindô. Logo no começo percebi que estava diante de algo especial, pois até aquele momento o meu negócio era escrever. Ali fui capturado e seduzido pela beleza da arte visual. Aquela noite, ao sair do cinema, desisti de ir para uma festa e fui para a praia, onde tive uma epifania. A minha vida é regida por situações extraordinárias. No dia seguinte, acordei e pedi uma câmera emprestada para uma amiga, Marinilda Dias da Silva, e fui fotografar as prostitutas do cais da cidade portuária. Aquilo foi a minha primeira tomada. Na sequência vieram as fotos em Cubatão”, lembra o renomado fotógrafo falando de sua casa em Santos, onde atravessa a quarentena. Para ele, o isolamento social significa 160 dias sem cliques.

“Costumo dizer que sou uma usina, o meu trabalho é totalmente dedicado a revelar o Brasil. Eu assumi isso como uma missão, aproximando-me do povo e da natureza, que é gigantesca. Como fiz isso? Andando. Registrei todos os parques nacionais do país, algo que me demandou 15 anos de expedições”, conta.

Um dos grandes marcos da carreira de Araquém é uma foto produzida que tornou-se um ícone e foi reproduzida à exaustão. Ela esconde uma boa história. “Durante uma entrevista com um deputado, vi uma foto impactante da Usina de Hiroshima e pedi para reproduzi-la em tamanho maior. Então enquadrei-a em uma moldura bem rococó e fotografei o meu pai, Manoel, segurando o quadro. Então viajei até a praia da Juréia, litoral sul de São Paulo, onde o governo planejava construir duas centrais nucleares [projeto que não foi concretizado]. O meu pai representa a voz dos caiçaras contra a essa construção.”

Impedido de sair do Brasil por causa da pandemia, o artista está se dedicando aos livros sobre suas cinco décadas de olhares únicos. As comemorações serão estendidas pelos próximos dois anos. A primeira delas foi o lançamento do livro de retratos “Brasileiros”, que acabou se tornando um best-seller durante a pandemia (1.500 exemplares comercializados em quatro meses).

Daqui alguns meses, Araquém pretende partir numa expedição ao Pantanal com a companhia de uma emissora alemã. Em novembro, a ideia é finalizar o livro sobre a região e lançar a obra comemorativa dos 50 anos.

Em 2021, o fotógrafo parte para a Alemanha para o lançamento do “Amazonian”, um livro de 300 páginas que ganhará tradução para o português. Além de tudo isso, Araquém está produzindo uma obra sobre animais para o público infantil e um guia, previsto para 2022, que trará as anotações – são mais de 100 blocos acumulados – feitas durante as expedições.

O lado escritor e poeta citado no começo desta matéria se revela neste momento da entrevista. Araquém escolhe um caderninho de 1982 e lê uma de suas anotações – mais atemporal do que nunca: “Meu privilégio é conviver com o primitivo, o intocável. As coisas em estado puro, sem interferência humana, a vida pulsando em outra escala de tempo. Vivo situações de limite, de medo. Aviões bimotores nem sempre bem cuidados, mudanças tropicais, animais, insetos, sono, insônia e tempestades. Nada ofusca o privilégio de poder vivenciar as maiores maravilhas naturais deste país. Na mata, o tempo só existe em relação à eternidade. Lá está a beleza mais eloquente, o mistério de toda a criação. A vida de um fotógrafo viajante é uma surpresa permanente”. Pergunto, bem no final, se um dia ele já pensou em parar de fotografar. “Nunca. Fotografia é, para mim, como a respiração.”

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