João Vitor Menin assiste aos concorrentes discutindo a relação em rede nacional

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João Vitor Menin, o jovem cérebro por trás da rápida evolução de um dos maiores bancos digitais do país

Ele não está no camarote do Mineirão, nem do Estádio Independência, tampouco no da Arena MRV torcendo por seu time do coração, o Galo – até porque tal prazer está suspenso em razão da pandemia e a arena que leva o nome da construtora de sua família está no início das obras, em Belo Horizonte. Mas assiste de ângulo igualmente privilegiado a uma peleja que se tornou pública na última semana de junho entre dois gigantes de sua área de atuação, o Itaú e a XP Investimentos, curiosamente duas empresas que se tornaram “irmãs” desde que o maior banco do país anunciou a aquisição de 49,9% das ações da XP por cerca de R$ 6 bilhões em 2017.

Falo de João Vitor Menin, CEO do Banco Inter, fundado na capital mineira por sua família em 1994 como Intermedium Financeira e que inicialmente emprestava dinheiro para quem precisasse financiar um imóvel. “Enquanto eles brigam, nós vamos crescendo”, brinca ele durante nossa conversa via Zoom em meados de julho.

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Canelada

No dia 24 de junho, para espanto geral, o Itaú lançou uma campanha publicitária em horário nobre na TV criticando o modelo de atendimento baseado em agentes autônomos, justamente aquele que levou a XP de um capital inicial de R$ 15 mil ao valor de mercado de mais de R$ 130 bilhões. Quando o Itaú fez o negócio, três anos atrás, o valuation da XP era de R$ 12 bi; teoricamente, portanto, não teria do que reclamar diante de tamanha valorização.

Mas o formato calcado em AAIs (agentes autônomos de investimento), segundo o comercial criado pela DPZ&T, prioriza a comissão do agente (também chamado de assessor) em detrimento dos interesses do cliente, o que não ocorreria no Itaú Personnalité, que atende o público de renda mais alta da instituição.

O contra-ataque veio no dia seguinte. “Se o Itaú não está confortável com o nosso modelo, deveria repensar sua participação na empresa”, disse Gabriel Leal, sócio e diretor-executivo da XP. Falando em “desespero” e “incapacidade de se reinventar”, Leal afirmou ainda que “todos os dias, R$ 150 milhões em investimentos no Itaú migram para a XP; se projetarmos esses dados para o futuro, em três anos o Personnalité estará acabado”. Guilherme Benchimol, fundador e CEO da XP, ironizou: “Se tem algo que o banco não é, nem nunca foi, é ser feito para você”, referindo-se ao slogan do Itaú. A Associação Brasileira dos Agentes Autônomos de Investimentos (Abaai) publicou nota de repúdio contra o teor do anúncio.

No Linkedin, o diretor-executivo de Wealth Management Services do Itaú Unibanco, Carlos Constantini, afirmou que, por se tratar de um mercado muito disputado, “era de se esperar” uma forte reação à campanha. “Não há nenhum problema em sermos criticados, pois entendemos que o diálogo é fundamental, sobretudo em uma sociedade aberta e plural como a que vivemos hoje. Em momento algum nossa campanha questiona ou desmerece os agentes autônomos de corretoras independentes.”

Dependendo do desenrolar dessa disputa, o Itaú poderá aumentar sua participação na XP a partir de 2022, quando até o “juiz” poderá colocar mais emoção em campo – a decisão ficará nas mãos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

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Olho no lance

O resultado desse jogo e o desgaste que ele provocou e ainda pode provocar nos dois lados interessam diretamente a João Vitor.

“Em 2012, eu já pensava em lançar um banco de varejo. Mas como competir com os gigantes? Eles tinham milhares de agências, era muito caro montar uma, imagine mil. O jeito era criar uma estratégia alternativa: a digitalização”, disse João Vitor Menin, CEO do Banco Inter

Engenheiro civil “sem querer”, no embalo do negócio que, no fim dos anos 70, marcou o início empreendedor da família – a MRV, hoje considerada a maior construtora do país –, João logo descobriu que seus objetos de desejo não eram tijolos e cimento, mas sim números e dinheiro. Há 16 anos (ele tem 37) começou como estagiário na Intermedium. Seu talento ficou sensivelmente mais visível a partir de 2015, quando foi promovido a CEO. “Em 2012, eu já pensava em lançar um banco de varejo. Mas como competir com os gigantes? Eles tinham milhares de agências, era muito caro montar uma, imagine mil. O jeito era criar uma estratégia alternativa: a digitalização”, conta ele.

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João Vitor com o pai, Rubens Menin (à esq.): o Banco Inter foi a primeira fintech a abrir capital na bolsa brasileira

No fim de 2016, uma “ajudinha” do Banco Central facilitou as coisas. “O BC permitiu a abertura de contas pelo telefone. De lá para cá, o negócio explodiu, crescendo três dígitos ano a ano.” Em 2017, o banco teve o nome encurtado e, no ano seguinte, levantou R$ 772 milhões em seu IPO.

O mundo digital e tudo o que “cabe” nele viraram uma espécie de obsessão. “Começamos a montar um marketplace de serviços não financeiros: tênis, geladeira, televisão, estamos lançando nossa telefonia celular… Essa tese de um superapp [diferentes serviços numa só plataforma] nos levou a um follow-on superbem-sucedido 13 meses depois do IPO, que atraiu o Softbank [que investiu R$ 1 bilhão e ficou com 10% do capital]. Já somos muito mais que um banco”, vibra João Vitor.

Em 2019, entrou de sola na área de investimentos de pessoas físicas: lançou a plataforma PAI (Plataforma Aberta Inter), com home broker (sistema que permite a negociação de ações e ativos financeiros pela internet) gratuito para correntistas. O número de pessoas que usam a plataforma para investir em poupança, LCI, CDB, Previdência e ações (“sem intermediários”) cresceu 180% em um ano, e caminha para chegar a 1 milhão. O número de correntistas era de 6 milhões no dia de nossa conversa. “A meta é chegar ao fim deste ano com 8 milhões, mas, a julgar pelos últimos 45 dias, com uma média de 16 mil contas abertas por dia, vamos passar disso.” Com receitas totais de R$ 1 bilhão, o Inter é um dos maiores bancos digitais do Brasil (“presente em 99% das cidades brasileiras e 100% gratuito”).

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Até a pandemia é motivo para enaltecer o “pioneirismo digital” do negócio: “Fomos o primeiro banco a ir para a nuvem. Nosso pitch já dizia que éramos mais evoluídos que os bancos de rede de agências, e a pandemia corroborou essa tese de modernidade. Demos carência, como os outros, e fizemos uma coisa única, bem legal: no cartão de crédito, não só postergamos o pagamento como também não cobramos juros desse período”.

Placar conhecido

Todas essas estratégias e números dão o devido conforto ao empresário e a seus 1.700 funcionários diante de lances mais truculentos do mercado, como os vistos entre Itaú e XP. “Nós temos o que eles têm e muito mais: conta corrente, crédito, seguros, consórcios, câmbio, marketplace, meio de pagamentos, investimentos…”, reforça. João aproveita para fazer seu próprio comercial: “O futuro do investimento não envolve nem agente, nem gerente. Um tem conflitos de interesse, outro tem metas. No que nós chamamos de investimento 3.0 (digital), pegamos o que seria apenas a taxa de administração. E ainda devolvemos metade ao cliente.”

Pelas contas do atleticano João, o placar está assim: Nós 7 x 1 Eles.

Reportagem publicada na edição 79, lançada em agosto de 2020

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