Como saber se você está preparado para o mercado de trabalho pós-coronavírus

Yuchiro Chino/Getty Images
Autoconhecimento: a chave para sair melhor da crise

Já faz algum tempo que os departamentos de recursos humanos enfrentam problemas para contratar, com assertividade, profissionais para as posições em aberto de suas empresas. Existe até uma máxima no setor que diz que as contratações são feitas pelas capacidades técnicas dos candidatos, e as demissões, pelas capacidades emocionais, as chamadas soft skills. Ou seja: de nada adianta o profissional ser o mais competente no seu campo de atuação se não for capaz, por exemplo, de se comunicar adequadamente, colaborar com a equipe ou lidar com a pressão.

Para Henry Novaes, CEO da HProjekt, consultoria de recursos humanos focada em posições da área de tecnologia e que atende empresas como Cielo, SulAmérica, Itaú, Renner e PicPay, esse cenário ganhou, mais recentemente, um elemento novo: o fit cultural.

“Na área de TI, especificamente, é cada vez mais comum os profissionais serem contratados por projetos para trabalhar em times com missões específicas. Se a compatibilidade cultural e a identificação com a essência do negócio não existirem, esses profissionais não ficam, já que salário não é mais um diferencial”, explica. Novaes conta que o gap de vagas nessa área é muito grande e que a rotatividade tem sido cada vez maior. Segundo o CEO, há fábricas de software no Brasil cujo o “turn over” chega a 120% por ano, ou seja, em um período de 12 meses, todos os funcionários da empresa são trocados.

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Essa é uma realidade que vai ao encontro do perfil dos millenials, nascidos entre o início da década de 1980 e 1996. Segundo uma recente pesquisa da Catho com mais de 500 recrutadores, 74% avaliam que essa geração se desmotiva com facilidade no ambiente corporativo. Fosse o mercado brasileiro de trabalho menos instável e com mais oportunidades, a dança das cadeiras seria difícil de acompanhar.

Mas esse não é um problema apenas do RH. Os profissionais também podem (e devem) fazer a sua parte, principalmente em um momento como o que atravessamos. A pandemia de coronavírus já se tornou uma realidade no mundo todo, e tem impactado fortemente a economia. Segundo a Capital Economics, a propagação do vírus custará à economia mundial mais de US$ 280 bilhões nos primeiros três meses do ano, o que encerrará uma série de 43 trimestres de expansão global.

Para Susanne Anjos Andrade, especialista em desenvolvimento humano e autora do livro “O Segredo do Sucesso É Ser Humano”, entre outros, o grande segredo neste momento passa, justamente, pelas soft skills. “Em tempos de coronavírus, mais do que nunca, é hora de as pessoas se reinventarem. Para quem ainda não digitalizou seu negócio, por exemplo, chegou o momento de ser estratégico e lançar mão de ferramentas tecnológicas como Whatsapp, Zoom e Skype, entre outros”, conta.

E isso é só o começo. “Além da capacidade de se reinventar, é preciso aprimorar outras soft skills para enfrentar a crise e, mais do que isso, sair deste período difícil com um saldo positivo”, completa a especialista, que cita as quatro habilidades que, na sua opinião, são essenciais para enfrentar qualquer tipo de desafio: empatia, colaboração, flexibilidade e inteligência emocional.

Como identificar seus próprios gaps

Em tempos de pandemia, muitas empresas oferecem cursos e workshops online gratuitos dos mais variados temas. Isso é ótimo, afinal, conhecimento nunca é demais. Mas é o autoconhecimento que pode fazer toda a diferença para sairmos melhores de uma crise, profissional e pessoalmente.

“Neste momento tão delicado, usar o seu tempo na realização de testes de personalidade para conhecer melhor as suas soft skills pode lhe render bons resultados”, diz Kerullen Pimenta de Sa, gerente de serviço & qualidade da consultoria de recursos humanos Adecco.

“É necessário identificar os nossos pontos fortes e as limitações e também os dos nossos negócios para conseguirmos mudar comportamentos e explorarmos ao máximo todos os nossos potenciais, com a intuito de sermos mais assertivos e obtermos bons rendimentos”, explica o empreendedor Flávio Vinte, eleito Under 30 pela FORBES na edição 2018 e fundador da Vivaçúcar, empresa de trading de açúcar cristal que busca, por meio da tecnologia, reduzir os custos envolvidos na comercialização e distribuição do produto no Brasil.

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Uma boa forma de identificar nossas soft skills e mapear nossas limitações são os testes de personalidade e de comportamento, cada vez mais adotados pelos RHs das empresas, mas que também podem ser feitos pelas pessoas físicas. “Eles ajudam a ter mais consciência de quem somos, de como nos relacionamos melhor, de como podemos nos posicionar de outra maneira, mais efetiva, na carreira. Quando trazemos essas informações para nossa consciência, nos conhecemos mais”, diz Susanne. “Os testes trazem o holofote para nós mesmos, fazem com que a gente entenda como somos, como funcionamos, como nos motivamos para fazer nossas escolhas. É um caminho para crescer como ser humano, como profissional, e para ter uma trajetória de sucesso e realização.”

Kerullen ressalta que não existe bom ou ruim, certo ou errado. “O que temos que deixar bem claro é que ‘há pessoas certas para os lugares certos’, seja no ambiente de trabalho ou fora dele”, diz.

Há serviços como o DISC (comportamental) e o MBTI (de personalidade), amplamente utilizados em todo o mundo. Só o MBTI gera cerca de 2 milhões de relatórios anualmente. Mas o problema está na amplitude e na escalabilidade. A principal crítica a esses testes é que eles são antigos, pois foram criados há cerca de 80 anos, numa época em que as pessoas ficavam a vida toda em uma mesma empresa. E esse cenário mudou radicalmente. A média atual de permanência é de três anos. Além disso, o número de perfis usados como base também é pequeno, entre 18 e 32.

Com o foco nesse novo perfil profissional, a Behavy, uma plataforma brasileira de análise de personalidade, estreia hoje (24) sua versão online, aberta ao público para uso pessoal. A ferramenta foi testada no último trimestre de 2019 como um MVP (produto viável mínimo) por empresas como Walmart (agora Big), Leroy Merlin e Cielo, o que possibilitou feedbacks que nortearam as melhorias necessárias.

O questionário pode ser feito por qualquer pessoa. É simples e leva, em média, oito minutos para ser completado. São 149 afirmações e a pessoa deve marcar apenas as respostas com as quais se identifica. Não há certo ou errado. No final, é gerado um relatório com as principais características pessoais e profissionais. Fábio Biondo, CEO da companhia de mesmo nome, conta que a plataforma é capaz de identificar três diferentes perfis: cerebral (pessoas mais analíticas), visceral (mais emocionais) e muscular (mais executivas). Tudo isso graças ao deep learning, tecnologia empregada para a interpretação de mais de 2.000 diferentes personalidades, testadas e convertidas em algoritmos.

Análise comportamental x análise de personalidade

Segundo especialistas, há uma grande diferença entre análise comportamental, que diz respeito a como a pessoa está no momento, algo que sofre influência do meio e dos outros indivíduos à volta; e a análise de personalidade, relacionada à natureza do ser humano. Quando o comportamento e a personalidade estão alinhados, normalmente, não há perda de performance. Quando não estão, há uma geração de estresse com significativa queda no desempenho.

Relatórios de personalidade trazem como resultados o nível de desenvolvimento de características como facilidade para se relacionar, capacidade de influenciar pessoas, habilidade para intermediação, ritmo de respostas às mudanças e autocontrole, entre muitas outras.

A especialista da Adecco alerta que é necessário, ainda, tomar cuidado para não fazer qualquer tipo teste, pois na internet tem uma grande variedade de conteúdos que, muitas vezes, não são tão bons e não usam nenhuma metodologia para avaliação, o que pode trazer resultados não muito próximos da realidade.

Aproveite o momento

Reinaldo Passadori, CEO da Passadori, escola de comunicação, liderança e negociação, lembra que a quarentena não é um período de férias. “Neste momento, é muito importante manter a calma. Sabemos que não é fácil, mas tentar incluir algumas doses de otimismo no nosso dia a dia ajuda a não sucumbirmos”, diz.

O executivo diz que esta é uma oportunidade para repensar a vida e a carreira. “Já que vamos economizar tempo no trânsito, podemos investi-lo em atualização, reciclagem e autoconhecimento. Ou até em aprender coisas totalmente novas”, completa.

Henry Novaes, da HProjekt, concorda e alerta que este pode ser o momento ideal para tomar determinadas decisões. “Existe um número muito grande de pessoas infelizes com seus empregos. E isso está diretamente relacionado à conexão entre a essência do profissional como ser humano e a empresa. Talvez seja hora de investir no autoconhecimento e na busca por algo que realmente faça sentido. Entenda quem você é e direcione suas buscas.”

Para Susanne, devemos aproveitar essa chance e fazermos um mergulho em nós mesmos. “A gente vive em um mundo tão corrido que as pessoas estão trabalhando por trabalhar, como se fossem maquininhas. E a quarentena pode ser uma oportunidade para nos conhecermos. Quando isso acontece, lidamos melhor com qualquer situação. Podemos sair dessa crise muito mais conscientes do nosso propósito.”

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