O que um empresário aprendeu sobre liderança ao observar a educação na Índia rural

pixelfusion3d/Getty Images
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Inspirado pelos escritos de Gandhi sobre a importância da preservação do conhecimento cultural, o engenheiro começou a ver as aldeias sob uma nova perspectiva

Há mais de 30 anos, o empresário filantropo Pawan Gupta fundou a SIDH (Sociedade para o Desenvolvimento Integrado dos Himalaias). O objetivo da ONG era criar escolas de alto padrão nas remotas montanhas do Himalaia, na Índia. Seu plano inicial, entretanto, não saiu exatamente como ele queria. 

Como um engenheiro bem formado e graduado pelo Instituto Indiano de Tecnologia de Delhi, Gupta chegou com boas intenções. Por meio de sua educação, ele procurou passar conhecimento e recursos para os moradores locais. Como as aldeias eram extremamente remotas, poucas tinham acesso a uma escola decente.

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Presumindo que a boa educação era um valor único no mundo, Gupta e sua equipe inicialmente desenvolveram programas com base em sua própria bagagem educacional. Se aquela estrutura funcionava em outros locais, eles imaginavam que teriam o mesmo sucesso que qualquer outro.

Mas, com o passar do tempo, o grupo percebeu que os programas não foram adotados como eles esperavam. A escola  chegou a ser motivo de discussões entre os habitantes locais. Essas pessoas sentiram que o modelo da SIDH estava transformando as crianças e jovens – que eram membros orgulhosos de suas comunidades tradicionais – em imitações de moradores de centros urbanos e tecnológicos como Bangalore.

O dilema da comunidade foi resumido por uma moradora. “Essa mulher sábia me disse”, lembra Gupta, “sua educação está arruinando a nossa. Você deve ensiná-los a ser. E não como parecer ser”. 

Uma única abordagem não serve para todos

Aquele diálogo sacudiu o empresário. “Vindo de uma formação inglesa, carreguei essa questão”, admite. Tornando-se introspectivo, ele queria entender qual era o motivo por trás do desalinhamento entre a educação urbana e a rural.

Inspirado pelos escritos de Mahatma Gandhi sobre a importância da preservação do conhecimento cultural, o engenheiro começou a ver essas aldeias sob uma nova perspectiva. Elas não eram versões em miniatura de grandes cidades, mas comunidades únicas com várias necessidades, crenças e aspirações.

Olhando para trás, Gupta percebeu que ele e sua equipe estavam ensinando os alunos a olhar, falar e agir como seus colegas em uma metrópole de Mumbai ou Nova Delhi. A abordagem não era apenas ineficaz para a educação – ela estava destruindo a essência e o caráter daquela cultura. Isso tinha que mudar.

Em uma sociedade diversa, os educadores – assim como todos os líderes – devem fazer mais do que valorizar as diferenças. Eles precisam ajustar suas estratégias de liderança para que elas funcionem igualmente para todos. Eles também precisam ouvir pessoas de todas as origens. Caso contrário, é impossível entender as necessidades daqueles que eles devem atender.

Depois do episódio, o empresário ganhou uma nova visão dos fatos. Sua jornada para fornecer uma educação de qualidade foi revigorada – mesmo que o caminho original tenha divergido. “A visão é necessária. Depois de ter uma visão, você tem um sonho”, diz ele. “Isso lhe dá um senso de direção”. 

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Uma maneira melhor de educar

A visão de Gupta deixou claro o que precisava mudar naquele projeto, e assim, o empresário alterou completamente a estratégia educacional da SIDH. O novo sistema escolar baseava-se na cultura, demografia, feedback e desejos reais da comunidade. E dessa vez, ele funcionou. 

A SIDH continuou a ensinar às crianças e adultos disciplinas típicas como a alfabetização e a matemática. Mas eles também iniciaram programas que ensinavam os alunos a transformar as próprias tradições de sua aldeia – como costura, agricultura e artesanato – em mercadorias para geração de renda. A partir daí, as comunidades permaneceram mais educadas, autossuficientes e coesas do que nunca.

Três décadas depois, as escolas da SIDH atendem a mais de 40 aldeias na Índia e Gupta continua a prosperar como um testemunho vivo do poder da educação reinventada. Os alunos, atualmente, saem da sala de aula com habilidades que beneficiam a si mesmos e a sua comunidade.

Além de seu trabalho contínuo com o projeto, o empresário defende a implementação de sistemas educacionais e escolares alternativos. Depois de ver o sucesso do seu modelo, ele espera que outros líderes e comunidades tomem a mesma decisão e adotem conceitos semelhantes em todo o mundo.

Gupta também incentiva as pessoas a olharem além do seu ponto de vista. As maiores inovações vêm quando saímos das nossas zonas de conforto e encaramos experiências contrastantes. “É ótimo abraçar o que você sabe”, diz. “Mas é essencial aceitar o inesperado”, finaliza. 


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