O trabalho, as férias e a vida: tudo junto e misturado

Os tempos modernos tiraram o foco das viagens em si, nos acostumando à ansiedade do caminho e ao conforto da chegada

Ariane Abdallah
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Mulher deitada numa rede entre coqueiros em frente ao mar e mexendo no computador
Hans Neleman/Getty Images

O processo de sair de férias não é fácil, mas não é sacrifício fazer o que amo – muito menos, de frente para o mar

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Viajei de carro – e de férias – de São Paulo, capital, a Trancoso, na Bahia, e isso me fez refletir sobre dois temas que têm tudo a ver com a escolha que fiz de ser empreendedora. A viagem em si e o dilema das férias não absolutas, já que o negócio nunca para.

Começando pela viagem em si, fiquei pensando sobre a importância de respeitar, entender, vivenciar e curtir o processo. O caminho. A estrada – que ora está lisinha, convidativa, pouco movimentada; ora está esburacada, lenta, traz surpresas e inseguranças. Ter presença, atenção e cuidado são premissas básicas para evitar acidentes evitáveis (assim deixamos o incontrolável para o que realmente não está ao nosso alcance). Mas, além disso, saborear as surpresas do caminho é um privilégio que um avião não nos dá (a despeito de todas as vantagens que temos voando, claro, como a agilidade e a possibilidade de chegarmos a destinos mais distantes).

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Ir de carro faz a gente sentir cada quilômetro rodado, cada minuto conquistado, perceber as variações de temperatura – num trecho o sol está lindo, no outro, a chuva nos recebe, mais à frente, é preciso colocar a blusa de frio –, as mudanças na vegetação e a riqueza da diversidade que o Brasil carrega. 

Adoro parar numa cidadezinha, passar a noite numa vila de pescadores da qual nunca tinha ouvido falar, conhecer lugares do país que provavelmente não conheceria de outro modo. Parar sem pressa por lugares já conhecidos.

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Os tempos modernos tiraram o foco das viagens em si, nos acostumando à ansiedade do caminho e ao conforto da chegada. Mas o fato é que a viagem sempre acontece. O trajeto daqui até ali necessariamente é percorrido – por terra, céu ou mar. A gente é que nem sempre está ali pra ver, pra assimilar um passo por vez, para saborear a superação que a chegada ao destino pode significar a quem está de alma presente no corpo. 

O processo de sair de férias – e aqui entro no segundo tema sobre o qual refleti – também aconteceu aos poucos. Não foi tão simples quanto desligar o computador e colocar o pé na estrada. Na verdade, desde que criei minha empresa, nunca mais foi tão simples assim. Tem sempre um telefonema, um mail, um texto, coisas que não podem esperar ou que parecem tão simples de resolver que não tem por que adiar. Coisas que continuam surgindo durante os dias de descanso. E tudo bem. Afinal, é meu negócio. É também minha vida. Mas desta vez minha expectativa é que conseguiria desligar um pouco mais.

Isso porque estamos num momento mais estruturado, com mais gente assumindo frentes que antes ficavam comigo, com um posicionamento mais institucional. Mas as semanas que antecederam minha saída foram especialmente desafiadoras, com emergências das mais diversas naturezas. Desafios que nos fizeram repensar a forma como organizamos os times, as prioridades, os objetivos. E empreender é também isso. De repente, ter que voltar a fazer atividades que já não estavam mais na minha rotina para garantir a qualidade, já que a velocidade de crescimento nem sempre é a mesma com que a empresa amadurece.

Com os dias, fui relaxando – entrando mais de férias e, ao mesmo tempo, aceitando que tem coisas que simplesmente não vão parar. Porque eu não vou dormir em paz se não souber como está a saúde do meu negócio. Porque não é sacrifício fazer o que amo – muito menos, de frente para o mar. Porque fiz uma escolha de vida que a transformou para sempre.

Mais do que balanço e separação entre vidas profissional e pessoal, o que busco – e encontro cada vez mais – é o equilíbrio na integração, respeitando as prioridades de cada momento. Ora é o trabalho intenso; ora é a estrada incerta; ora é o descanso. E tudo pode mudar num segundo. Não de acordo com o calendário, mas com a realidade de cada momento. E prefiro viver intensamente o que cada um dos 365 dias tem para oferecer do que concentrar expectativas de felicidade em apenas 30.

Ariane Abdallah é jornalista, autora do livro “De um gole só – a história da Ambev e a criação da maior cervejaria do mundo”, co-organizadora do “Fora da Curva 3 – unicórnios e start-ups de sucesso” e fundadora do Atelier de Conteúdo, empresa especializada na produção de livros, artigos e estudos de cultura organizacional. Praticante de ashtanga vinyasa yoga, considera o autoconhecimento a base do empreendedorismo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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