Como o Brasil bateu recorde de exportações de carne bovina mesmo com embargo da China?

Agilidade de frigoríficos antes de suspensão foi um importante fator.

Lygia Pimentel
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Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Mesmo com suspensão vinda da China após caso de EEB, Brasil bateu recorde de exportações de carne bovina

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Com a suspensão das exportações de carne bovina brasileira para a China, como explicar que o Brasil bateu recorde de embarques ao longo de setembro, inclusive recorde histórico? Tem até gente falando que esse embargo é fake, mas não é e vou explicar como isso aconteceu.

O Brasil deixou habilitada a certificação de carne bovina a ser exportada para a China até o dia 3 de setembro. A partir do dia 4, essa certificação foi suspensa. O que ocorreu a partir do dia 4 foi o embarque de carnes que haviam sido certificadas antes disso. E houve um acúmulo de muita carne certificada antes dessa data limite. É isso que explica os embarques terem batido recorde. Então, os frigoríficos, sabendo do problema do caso de EEB (encefalopatia espongiforme bovina) não transmissível que acomete o animal geneticamente e não traz riscos à saúde humana, correram para abater muitos animais que estavam dentro do perfil de certificação e na sequência embarcaram o que já estava certificado.

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Não houve certificação depois do dia 4, o que houve foi embarque de carne certificada antes disso, por isso essa confusão. Como os frigoríficos já sabiam do que estava acontecendo antes, eles se apressaram para formar estoques de carne certificada e continuar os embarques para ter menos prejuízo.

Em que nível está essa negociação com a China? Bom, tem muita confusão, a carne bovina é apenas um produto dentro de tudo que o país importa. Então, tem muita confusão lá na aduana chinesa. Cada navio que está chegando lá, cada carga, está sendo tratada caso a caso — tem carga que foi desembarcada e está esperando despacho, tem carga que dizem que já está voltando para o Brasil (ainda não confirmei isso com fontes oficiais) e há cargas que já foram realocadas para outros mercados. Então, muito possivelmente, e a gente já vê isso nos números de embarque da primeira semana de outubro, a partir de agora vamos ver os número caírem, porque não temos mais carne certificada disponível. O país esvaziou essa carne certificada disponível ao longo de setembro.

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Vamos ver que confusão vai ter ainda pela frente. Algumas cargas embarcam de volta para o Brasil, outras vão para outros mercados e ainda há algumas que estão ainda na China aguardando para ver o que vai acontecer, esperando o despacho. O curto prazo é bem nebuloso, principalmente pelo que falei: cada carga está sendo tratada caso a caso, e a gente precisa ver para onde essa balança vai pender. Tecnicamente, não há motivo para que a China mantenha essas suspensões — a OIE já deu o caso como encerrado —, isso porque o risco do Brasil para a vaca louca é insignificante. O que houve foi um caso de EEB não transmissível, que aparece de modo espontâneo em animais mais velhos.

Acontece que até a gente explicar essa situação direitinho e levar as informações para a aduana ainda terá muita confusão. E, com certeza, o mercado brasileiro vai continuar pressionado, porque nós temos que colocar 15% da nossa produção de volta aqui no Brasil, que é o equivalente que a China leva de nossa produção.

Uma informação importante para complementar é que como o preço do boi caiu bastante, caiu do pico de 315/320 até os 270 atuais, o spread dos frigoríficos melhorou. O que é o spread dos frigoríficos? É a diferença entre o preço da carcaça bovina e o preço da arroba. Essa diferença voltou a ficar positiva, isso é bom para a composição de margem dos frigoríficos — obviamente que cada indústria tem a sua conta particular. E deve manter o apetite dos frigoríficos um pouco mais aguçado já que essa operação de mercado doméstico melhorou um pouco. Ela estava muito ruim desde abril do ano passado, agora ela deu uma melhorada e isso deve aumentar o interesse dos frigoríficos e manter as compras de gado.

Lygia Pimentel, CEO da AgriFatto, é médica veterinária, economista e consultora para o mercado de commodities. Desde 2007 atua no setor do agronegócio ocupando cargos como analista de mercado na Scot Consultoria, gerente de operação de commodities na XP Investimentos e chefe de análise de mercado de gado de corte na INTL FCStone.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

 

 

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