A traição perfumada

gettyimages-KutayTanir
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Cadê a nação unida em torno da chance concreta de reconstruir o país após a hecatombe petista?

Às portas da terceira década do século 21, o Brasil deveria decidir de uma vez o que quer ser: uma nação ou uma federação de panelas.

Considerando-se o que se passou nas duas oportunidades recentes de fazer o país andar para a frente, a opção mais forte ainda é a segunda. Quando precisa ser reconstruída e tem um bom plano para isso, uma nação se une em torno do plano. Já uma federação de panelas promove uma chuva de pedras contra os executores do plano – de forma que nada de consistente seja construído e o poder de executar permaneça acessível aos aventureiros de cada panela, democraticamente.

Foi o que se passou no Brasil entre 2016 e 2018 – na agenda reformista da equipe de Henrique Meirelles – e o que se passa agora, sob a agenda positiva de Paulo Guedes. Cadê a nação unida em torno da chance concreta de reconstruir o país após a hecatombe petista?

“Cadê a nação unida em torno da chance concreta de reconstruir o país após a hecatombe petista?”

Quem está chamando isso aqui de nação não ligou o nome à pessoa. Consumado o impeachment de Dilma Rousseff, o Brasil retomava sua agenda virtuosa enxotando da máquina a militância parasitária e devolvendo a gestão aos que sabem fazer conta. A maior empresa do país, jogada na lona pelo assalto petista, voltava a ser confiável em menos de um ano. O risco país voltava a cair com o novo ajuste fiscal. Depois da reforma trabalhista, viria a reforma da Previdência – mas veio a sabotagem.

A delação armada de Joesley Batista, operada pelo procurador-geral Rodrigo Janot e homologada instantânea e irresponsavelmente pelo STF, parou o país. Importantes veículos de imprensa propagaram a tese fajuta e criminosa de que aquela gestão reformista era a ascensão da “quadrilha mais perigosa do país” (conforme a literatura de Janot & Joesley) ao poder central. Personagens relevantes como Fernando Henrique Cardoso aderiram a esse escárnio pedindo a renúncia do presidente da República. Contando, ninguém acredita.

A armação foi desmoralizada, Joesley foi preso e o núcleo da reconstrução nacional resistiu (Ilan Goldfajn terminou 2018 eleito o melhor central banker do mundo), mas o país perdeu o tempo precioso que não podia perder após década e meia de rapinagem. As panelas da federação tentaram lucrar com a estigmatização de Temer, assim como tentam hoje faturar com a estigmatização de Bolsonaro. Danem-se as reformas de Meirelles e Guedes, a politicagem é mais embaixo.

Onde estavam os grandes nomes da responsabilidade fiscal para apoiar ostensivamente a agenda de Meirelles e agora a de Guedes? Sumiram. Foram cuidar de seus partidos e ONGs, apostando na demonização de Temer e Bolsonaro. João Doria se abraça com Alexandre Frota contra o fascismo imaginário; Armínio Fraga vira ecologista para dizer que a democracia está em chamas na Amazônia; e João Amoêdo panfleta contra o óleo no Nordeste para tentar pichar a parede do Palácio do Planalto. Eles só pensam naquilo.

Você percebeu: não estamos falando de Ciro Gomes, Rodrigo Maia e figuras do folclore político nacional. Falamos de gente que sabe o que é gestão. Sabe, mas não quer saber. No momento em que o país faz a reforma crucial da Previdência e inicia um choque de modernização do Estado, estão todos esses bem-pensantes com uma carranca de nojo para tudo que venha do governo federal, fermentando as falsas crises e apostando desvairadamente na lenda do obscurantismo para se oferecerem como solução “progressista”.

Apesar desse vexame limpinho e de boa aparência, o sentimento de nação voltou a ser forte no Brasil. Personagens como Sergio Moro ressuscitaram a esperança no verdadeiro espírito público – que os corneteiros tentam confundir com ufanismo reacionário. Decide aí, Brasil, o que você quer ser, afinal. Está na hora.

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