Como filhotes podem reduzir a reincidência de presidiários

HelleM/Getty Images
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Filhotes de golden retriever são treinados pelas detentas de KCIW

É uma manhã de inverno cortante em Peewee Valley, Kentucky, nos arredores de Louisville. As pitorescas casas de tijolos ao longo da Ash Avenue escondem o que fica logo abaixo – o Instituto Correcional para Mulheres do Kentucky (KCIW), uma pequena prisão de segurança mista que mantém cerca de 721 mulheres encarceradas. Ao subir e entrar no instituto, fico impressionada com aquele barulho pesado e onipresente das portas da prisão quando se fecham e trancam automaticamente atrás de mim. Disseram para eu mostrar meu documento de identidade ao agente penitenciário na entrada e me fizeram algumas perguntas adicionais antes que eu assinasse um formulário confirmando minha data e hora de chegada. Eu tenho 45 minutos para a visita, não mais do que isso. Passo pela máquina de raio-x e sou escoltada por duas mulheres por uma série de corredores e portas acinzentados e verdes.

Conforme avanço, sinto-me simultaneamente próxima e completamente isolada dos becos sem saída e das pitorescas casas de tijolos a apenas um quilômetro de distância. Por fim, saímos por outra porta para um pátio misturado a vários prédios de tijolos e delineado com cercas reluzentes, cobertas por arame farpado. Várias mulheres de macacão marrom circulam pelos caminhos de concreto. Ninguém está quieto e logo entendo o porquê. Um comando de voz masculina avisa: “Continue andando”. Pelo que entendi, as internas não têm permissão para parar de se mover quando estão no pátio.

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Ao nos aproximarmos do canto de trás da prisão, começo a ver o motivo da minha visita: um pequeno número de mulheres andando com golden retrievers dourados em coletes azuis estampados “Patas com Propósito”. Outras presas fazem uma pausa e acariciam os cães, chamando-os pelos nomes.

Eu continuo em direção a um bloco na parte de trás do complexo. Ao entrarmos no edifício, fico intrigada com o quão alto e confuso o espaço é. Viramos à esquerda em uma sala separada das outras que se parece com um berçário. Há pequenos filhotes dourados dormindo em um recinto no meio da sala. O ambiente tem uma sensação diferente da que experimentei no resto da instalação. Está quieto e mais calmo. Jennifer Hatcher, uma mulher com longos cabelos castanhos, senta-se com alguns filhotes acordados e os ensina pacientemente a sentar e esperar, recompensando-os com guloseimas.

Um grande problema

O KCIW é um representante pequeno de um programa maior que vem sendo implementado nos Estados Unidos. O país tem a maior população carcerária do mundo, bem como a maior taxa per capita de prisões. No último século, essa população aumentou exponencialmente para 698 presos para cada 100 habitantes em 2018. Em 2016, foi registrado que havia, aproximadamente, 2,3 milhões de presidiários nos Estados Unidos, o que representa 24,7% das 9,8 milhões de pessoas encarceradas no mundo todo. As taxas de reincidência nos EUA não são muito melhores. Em 2011, o Pew Center constatou que 43% de todos os presos libertados voltaram para os centros de detenção.

Pode-se argumentar que as instalações correcionais do país têm sido alocadas para manter as pessoas afastadas, longe da vista do público em geral, e não em espaços propícios para a reabilitação. Com o aumento das prisões privadas, que ganham dinheiro com o encarceramento dos cidadãos, a questão da reincidência está ainda mais exacerbada. Em 2016, a In The Public Interest, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de políticas, publicou um relatório que constatou que “encarcerar uma pessoa em uma prisão privada aumenta as chances de que ela seja detida novamente em 13% e de ser condenada mais uma vem em 22%”. A partir de 2018, cerca de 8,41% dos prisioneiros estavam alojados em prisões particulares.

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O fato é que as prisões nos EUA são um dos lugares mais estressantes, desumanizados e, às vezes, traumáticos em que as pessoas podem estar, e os casos de doenças mentais entre os presidiários norte-americanos são consideravelmente mais altos do que no público em geral. Além disso, cerca de 45,2% dos presos foram condenados por crimes relacionados a drogas, de acordo com o Federal Bureau of Prisons. E o risco de doença mental é mais alto entre as pessoas que lidam com o vício. Cerca de metade daqueles que sofrem com alguma doença mental durante a vida também já experimentou transtornos pelo uso de substâncias e vice-versa, diz o Instituto Nacional de Abuso de Drogas. Há poucas dúvidas de que o índice de doenças mentais nas prisões não só permanecerá alto, como também aumentará. Algumas organizações, no entanto, estão trabalhando para reverter essa tendência.

Em 2003, um voluntário do Patas com Propósito, uma organização sem fins lucrativos que fornece cães de assistência altamente qualificados como parceiros para crianças e adultos com deficiências físicas ou outras necessidades especiais, pensou na parceria com o KCIW para o treinamento de cães de serviço. “As presas tinham comentado com um voluntário sobre programas com animais dos quais elas tinham ouvido falar em outras prisões nos Estados Unidos e manifestaram interesse”, explica Elaine Weisberg, membro do conselho da entidade. O voluntário e a organização foram então ao KCIW para desenvolver o Programa Puppy Prision.

“Quando cheguei na prisão, estava arrasada”, lembra Jennifer, com os olhos lacrimejantes. “Então, entrar neste programa e ver que eu poderia fazer algo positivo, foi realmente incrível.”

Os benefícios do programa fora da prisão são inegáveis. Os cães da entidade são treinados para atender a uma ampla gama de necessidades, de crianças com autismo a veteranos de guerra feridos ou traumatizados. Uma das contempladas pelo programa, a mãe de uma criança com autismo diz: “Eu queria que um cão de serviço ajudasse nos aspectos sociais e fosse uma ponte para Jonathan se envolver com as pessoas, já que ele tem dificuldade de estabelecer relacionamentos. O vínculo de Ian [o cão] com meu filho excedeu todos os meus sonhos e expectativas. Jonathan é capaz de ficar calmo pela primeira vez na vida quando passa a mão em seus pelos ou simplesmente deita ao lado dele. Além disso, ele acorda feliz com Ian pulando na cama e começando uma brincadeira, e não foge mais para a rua quando estamos em locais públicos. Ian nos devolveu a vida”.

Mike e Noble

Outro beneficiário do programa, um veterano de combate que sofre de transtorno pós-traumático, explica: “Noble [seu cão de serviço] me deu a garantia de que tudo está bem quando entro em lojas ou fico engarrafado no trânsito. Quando tenho pesadelos, ele é capaz de me acordar com calma. Devido aos ferimentos que sofri no Afeganistão e no Iraque, tenho problemas de equilíbrio. Noble me ajuda recuperando objetos e contribuindo para a estabilidade. Por causa do que ele é capaz de fazer, posso aproveitar a vida com minha família e participar ativamente do crescimento dos meus filhos”.

No entanto, é o benefício do programa dentro da prisão que o torna um farol de esperança para o problema da saúde mental e das altas taxas de reincidência nas prisões.

“Quando você está aqui, no KCIW, não tem permissão para tocar nas pessoas. Mesmo que tenha havido uma morte na família, ninguém pode abraçá-lo”, conta Anne Reardon, outra reclusa que participa do treinamento com seu companheiro canino Usher. “Já com eles, podemos conversar, abraçar. Fica mais fácil sobreviver aqui dentro.”

Reabilitação e amor

O programa do KCIW cumpre efetivamente três pilares de reabilitação nas prisões – saúde comportamental, habilidades e treinamento – e investe na comunidade externa. A UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, descobriu que a terapia assistida por animais pode ajudar em uma variedade de problemas de saúde mental:

– o simples ato de acariciar animais libera uma resposta automática de relaxamento;
– diminui a ansiedade e ajuda as pessoas a relaxarem;
– oferece conforto;
– reduz a solidão;
– aumenta a estimulação mental;
– pode proporcionar uma fuga ou uma distração feliz;
– pode atuar como catalisador no processo de terapia.

O programa em si não apenas oferece aos presos voluntários um companheiro de curto prazo, mas também o treinamento de habilidades que eles podem levar com eles após a conclusão da sentença, além da oportunidade de observar um crescimento positivo em seu trabalho com os animais, o que aumenta a autoestima e a responsabilidade e proporciona uma variedade de outros benefícios emocionais.

“Isso me deu uma perspectiva realmente positiva de vida que eu não tinha antes”, explica Jennifer, “me deu autoestima”. “Consigo pegar esse cachorrinho e treiná-lo para ser algo especial para alguém, para que ele realmente mude a vida de alguém.”

Programas como esse dão aos presos voluntários uma oportunidade de contribuir para a sociedade fora de suas instalações correcionais e, portanto, eles acabam tendo um interesse mais profundo em contribuir mesmo depois de concluírem a sentença. “Nós trabalhamos muito com esses cães para que eles possam estar por aí, ajudando alguém “, diz Anne. “Estamos devolvendo algo bom para tentar compensar o que quer que tenhamos feito para estar aqui.”

“Para mim, é amor”, diz Jennifer. “Nós amamos esses cães e depois eles amam outras pessoas. Não há muito disso no mundo hoje em dia. É um programa maravilhoso que realmente mudou totalmente minha vida. E sou muito grata por isso.”

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