Carolina Centola: Harmonização: vinho e quarentena

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Dicas práticas para combinar a bebida em tempos de isolamento

A palavra harmonia vem do latim e do grego “ajuste, combinação, concordância de sons”. Literalmente, “meios de encaixar, de combinar”. O radical “harmos” significa “articulação do corpo, ombro”. No verbo, “encaixar, articular”.

Quando pensamos em harmonização de vinho com uma refeição, neste momento que estamos vivendo, não nos atentaríamos tanto a definição desta palavra. Meios de encaixar? Articular? Ajuste?

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Seria este um momento de harmonia, então? Pela definição, é o que parece: muitos ajustes! Muitos encaixes e muita articulação para com certeza chegar a um momento em que tudo se encaixa. Como vinho tinto e parmesão. Como champanhe e fritura, o ácido com o gorduroso. Pois a harmonia nada mais é que ying e yang. O equilíbrio entre os elementos, equilíbrio de nós mesmos e a harmonia da nossa casa, do nosso planeta. Nem que, para chegar a esta harmonia existam perdas, sofrimento e incertezas. Mortes. E vidas, muitas vidas novas dentro dos mesmos corpos que acordam e percebem uma outra realidade, um outro olhar. Para si mesmo e para o outro. Que período, que momento histórico em que, mesmo com perdas, o otimismo e oportunidades enchem os corações de força, esperança, amor, saudade, valores, vida, muita vida. E vinho, se possível.

Dentro das possibilidades de cada um, o vinho vem para harmonizar a quarentena. Ele vem, com seu papel de manter uma rotina mental saudável, de ritmos, de descanso, de missão cumprida. Sentei, depois do meu confinamento diário, depois de ter cumprido meus compromissos comigo e com todos, e agora harmonizo este momento, esta refeição.

Qual refeição? Qualquer uma! Afinal, nada de restaurante. Delivery? Talvez… Sabe cozinhar? Ótimo, pois use isso como terapia. Aliás, acredito que depois desse momento muitos aderirão a essa prática. Ou não, afinal cozinhar toma tempo! Mas o tempo talvez mude a sua relatividade. Uha!

Então, vamos partir do princípio de organização da quarentena pois, temos, sim, mais tempo.
Opa, mas olha aí uma oportunidade quando se queria ler aquele livro, aprender a cozinhar, entender sobre vinhos, ficar com a família, ligar para quem a gente não liga, meditar, fazer nada. Sim, pois mesmo que todos os mercados tenham despencado e muita gente esteja lidando com muitas complicações, o tempo chegou. E o que fazer com ele? O que fazer quando não se pode fazer nada?

Tudo!

Comecemos com harmonizar, que é o tema. Harmonizar vinhos com refeições tem, sim, uma parte técnica, um estudo, muita degustação.

Só um parênteses, mas que tem a ver com harmonia.

Escrevo direto de Napa Valley, na Califórnia. Enquanto me debruçava sobre o texto, entrou uma mosca gigante no cômodo. Abri a porta e fiquei tentando fazer com que ela saísse, barulho zum zum e seja livre. Quanto mais eu tentava, mais ela agitava e voava. Parei. Comecei a escrever e pensei, fica aí então. Resolvi falar sobre isso, pois, neste momento, ela está pousada aqui na mesa, ao meu lado. Perto, como se tivesse entendido. Harmonizou. Veja: fique no seu canto, neste momento, harmonizando-se, que tudo em volta vai funcionar, como se deve. Independentemente da sua luta contra a mosca. Se eu a tivesse matado, perderia a chance de harmonizar.

Um dia após o outro, com calma.

Voltando à harmonização gastronômica. Quem conseguir acesso aos ingredientes básicos, tenha sempre alho, cebola, salsinha, macarrão, arroz, tomate e/ou molho de tomate (de preferência orgânico, mas, se não houver, compre o que estiver disponível); algumas conservas (de preferência vidro; mas, de novo, na falta, vá de lata), como atum, milho, picles; condimentos (sal, pimenta e ervas secas caso as frescas acabem); limão é sempre bom; embutidos não tem como fugir nessas situações; queijos de maior duração, como parmesão, pecorino, manchego. Sejamos razoáveis no planejamento financeiro.

Enfim, como harmonizar se você tem vinho e comida? Simplifique:

Champanhe: com tudo. Se tem, beba.

Macarrão: com frutos do mar, branco; com carne, tinto; com legumes e queijo ralado, o vinho que tiver, muita coisa funciona. Uma receita fácil é com alho na manteiga ou azeite e brócolis. Vinho tinto acalma. Se tiver em um dia mais nervoso, sugiro um tinto leve.

Risoto: mesmo princípio da massa. A verdade, é que o segredo mora na simplicidade. Risoto é fácil, nutritivo, suja uma ou duas panelas, tem inúmeras possibilidades e harmonizações. Mas faça pouco, pois não dá pra requentar.

Carne vermelha: para quem come, geralmente tinto.

Carne branca: brancos ou tintos leves.

Peixes e frutos do mar: champanhe, vinho branco e rosé.

Coma saladas e sopas. Os ingredientes da salada podem virar sopa. Harmonizam muito bem com o que se tem.

Reutilize e reaproveite. Não tomou, guarde. Faça um drinque, acrescente o limão, invente, use a imaginação. Harmonizar é usar meios de encaixar. Lembre!

Muitas pessoas me perguntam meu champanhe favorito, por ser minha bebida preferida. Eu respondo: depende do dia. Depende com o que harmoniza!

Não tem vinho? Harmonize com o que tem. Não sobrou nada? Lembre daquele filme infantil, “Sing”. O personagem perde tudo mas diz: quando se chega ao fundo do poço, o único lugar é pra cima!

O vinho é o tema, mas o momento pede harmonia.

Tchin tchin!

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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