A luta pela vinha

Peter Berglund/Getty Images
Peter Berglund/Getty Images

Países da Europa estão sofrendo com a antecipação do período das geadas e a morte das vinhas pela inversão térmica radical

Quantos de nos viemos a valorizar, na pandemia, tantas coisas que nos eram tão comuns, simples, fluidas, ali de graça até pra esnobar se quisesse?

O que é o valor de algo?

É quanto custa, é quanto tempo foi gasto, quanto da sua vida foi preciso adquirir conhecimento para aplicar, quanto se renunciou para, quanto suor e noites batalhadas? E muito mais, certo?

É por isso que às vezes não entendemos como uma garrafa de vinho pode ser tão cara, pois não temos toda a informação sobre ela e não damos o devido valor. Mas quem disse que devemos saber sobre todas as histórias e todas as garrafas? Ninguém!

Inclusive Platão citou: “Eu só sei que nada sei” na profundidade de um alto conhecimento para explicitar que, quanto mais humildes e abertos, mais aprenderemos. Aprendizado é infinito e o mundo do vinho é prazer, confraternização, é alimento do corpo e da alma e qualquer um de nos é apto para este mundo. Qualquer pessoa que use conhecimento sobre vinho para diminuir outras, não entendeu ainda o propósito.

Falando de valor, entendamos a luta pelas vinhas na Europa neste momento e que acontecem também em outros lugares como Canadá e Nova Zelândia. A luta contra as geadas! Bastam alguns minutos com temperaturas extremas para queimar os brotos. Uma natureza perfeita na sua imperfeição, que aquece para brotar e que esfria para matar. O calor da primavera que floresce, decora, enche de cor, de sons de pássaros e as vinhas que despertam do inverno com seus brotinhos promissores, são avassalados pela inversão térmica radical.

Segundo Olivier Brun, especialista em proteção contra geadas, foi por volta de 1951 que a atenção foi voltada para esse problema quando atingiu épicas proporções, especialmente em Champagne. A Mumm investiu pesado nesta busca pela proteção das vinhas, com experimentos por duas décadas, chegando até a medir a temperatura dentro dos brotos.

Uma das técnicas adotadas foi a irrigação na hora certa para a água criar uma cápsula de proteção no broto, congelar e o proteger. Técnica que requer previsão do tempo precisas, timing excepcional e experiência para não molhar demais os vinhedos.

As chaufferettes, que são os aquecedores com queima de material orgânico, hoje em dia são os mais usados para esquentar os vinhedos. Eles conseguem aumentar a temperatura em dois a três graus. As vinhas aguentam por volta de zero, menos um, mas, abaixo disso elas já começam a sofrer e, eventualmente, queimar.

Em Champagne, a irrigação é a mais usada e no resto da Europa os aquecedores, na maioria. Em Chablis, acenderam milhares desses nestes últimos dias, assim como na Borgonha, Loire e Itália. Um estresse que já anuncia perdas preocupantes para os produtores.

Em 2017, aconteceu a maior e mais recente geada dos últimos tempos, arrasando a produção dos vinhos na França. Nos últimos 20 anos, elas têm se antecipado para abril, ao invés de maio. As frutas também têm sido afetadas na Itália. No Vêneto, de dia fez 27 ºC e de madrugada, -5 ºC! Pelo menos Prosecco não vai faltar, para quem gosta, pois Valdobbiadene não foi afetada. 10 mil hectares de beterrabas perdidos. Champagne utiliza o açúcar da beterraba para as suas dosagens! Uh lalá, que dominó.

Áustria e sul da Inglaterra, em Sussex, também lutaram contra as geadas. Na Nova Zelândia, eles usam helicópteros para misturar o ar quente do solo com o ar frio da noite, geralmente feito por volta de uma hora antes do pôr do sol.

2021 já está sendo brutal para os produtores, especialmente após um 2020 de pandemia. Já estamos falando de 30% a 60% de perda em alguns vinhedos e 100% em outros. Isso se confirmará nas próximas semanas, mas, Jean-Marie Barillère, presidente da CNIV, que reúne os profissionais das apelações AOP e IGP, diz que será uma colheita bem restrita. As seguradoras não cobrem esses danos e, apesar dos investimentos do governo pelo Ministro da Agricultura e da Alimentação, Julien Denormandier, não será suficiente para ajudar os produtores. O movimento é para que as seguradoras não sejam tão caras, como estão, e que cubram esses danos naturais ou os produtores não conseguirão se sustentar. O governo francês já anunciou calamidade agrícola.

Nada é fácil. A luta é constante e num piscar de olhos tudo pode mudar. A resiliência, entretanto, é imbatível!
Não é a primeira pandemia nem a última, não é a primeira geada e nem a última. Um brinde a todos que lutam.

Tchin tchin

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Siga Forbes Money no Telegram e tenha acesso a notícias do mercado financeiro em primeira mão

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).