Você aceitaria trabalhar de graça?

Thomas Barwick/Getty Images
Thomas Barwick/Getty Images

Como transformar os dias de trabalho em momentos agradáveis e ideais, mesmo com os perrengues que fazem parte do cotidiano profissional?

Eu sei que todos temos boletos para pagar. Então vou resolver esse problema. Vou estalar os dedos e fazer de conta que você recebeu uma herança bilionária, suficiente para garantir um excelente padrão para você e sua família por toda a vida. Na prática, você não precisa mais se preocupar com dinheiro. Nunca mais.

Com um novo estalo, vou te dar cinco anos de presente para descansar, viajar, aproveitar e gastar um pouco dessa fortuna com coisas que você goste muito.

Pronto? Já aproveitou bastante?

Agora estamos em 2026, você já usou 60 meses fazendo coisas que queria. Conheceu lugares incríveis, realizou desejos de consumo, distribuiu ajudas generosas para conhecidos, viveu experiências inesquecíveis e comeu as melhores delícias do universo. E, depois dessa fase de vida boa, percebeu que ainda não gastou nem uma fração do seu imenso patrimônio e continua não tendo que se preocupar com a conta bancária.

E agora, o que você vai fazer? Toparia dedicar parte do seu tempo fazendo algo gratuitamente?

Se a sua resposta foi “sim” ou “depende”, é com você que eu quero conversar.

É claro que dinheiro é importante. É óbvio que uma proposta de emprego para ganhar “o dobro” balança as estruturas de qualquer um. Mas tenho certeza que há uma motivação maior que nos empurra todos os dias. E uma das formas de descobrir a sua é justamente se perguntando: nessa situação acima, em qual tipo de atividade você aceitaria trabalhar totalmente de graça?

Não estou prometendo uma rotina fácil. Nem um ambiente só com alegrias. Mas vai ser algo que você vai gostar tanto, que aceitaria fazer sem receber nada material em troca. O que seria?

Essa pergunta me intriga porque lembro da ideia de que “se você trabalhar com algo que ama, não vai mais precisar trabalhar”. Mas, honestamente, descobri que não concordo com ela. Quem vai nesse caminho, sonha em encontrar uma vaga onde não vai ter problemas, dificuldades, pressões ou incômodos. Um lugar onde as relações humanas são compreensivas, todos os dias são cheios de propósito e as atividades são sempre prazerosas. Desculpe, mas esse emprego não existe.

Eu acredito mais em você tentar gostar do que faz do que em procurar um trabalho perfeito. Explico: se você pensar bem, vai perceber que, mesmo em um emprego chato, você tem momentos positivos. Vamos fazer um exercício de reflexão: quais foram os dias em que você chegou em casa com uma sensação de que “hoje valeu a pena”? Quem trabalha há 10 anos, tem uma amostra de mais de dois mil dias para analisar. Quais desses dias foram muito bons? Em quais deles você sentiu que o que fez te trouxe um significado maior? Em que dias você produziu algo, tomou decisões ou fez ações que te deram uma satisfação tão grande a ponto de se sentir preenchido?

Vou chamar esses dias de “ideais” e ouso dizer que o que você fez neles seria algo que provavelmente você aceitaria fazer sem ser pago por isso.

A grande pergunta então não é “o que você gosta de fazer?” ou “como você vai conseguir um emprego perfeito?”. Trabalho vai continuar sendo “perrengue”. Pergunte a um líder de uma ONG, igreja ou projeto social se o trabalho deles é fácil. Pergunte a um influenciador digital, um artista ou um atleta se a rotina deles é tranquila ou se eles têm o trabalho dos sonhos. Mesmo quem se dedica integralmente a algo que parece mais humano, nobre, sagrado ou prazeroso vai te encher de reclamações.

Não há emprego perfeito. Mas há algo que você pode fazer para ter mais felicidade no ambiente profissional: descobrir como ter mais dias parecidos com os dias ideais que pensamos acima. A pergunta certa é: como você pode ajustar sua agenda, seu estilo de trabalho, suas relações e, principalmente, suas intenções, para que você se sinta bem, com mais frequência, no trabalho?

Muito possivelmente você não conseguirá ter todos os dias assim. Mas certamente você pode influenciar para que uma parte maior do seu calendário seja ocupada por momentos cheios de significado.

Vamos conversar mais sobre isso? Começo assim a minha coluna aqui na Forbes, justamente porque através dela estou colocando na minha rotina ainda mais coisas alinhadas com o que acho essencial. Está aqui uma coisa que eu escolhi fazer, independente de uma remuneração em troca. De propósito. E com muito propósito.

João Branco é o CMO do McDonald’s no Brasil e lidera o talentoso time que está batendo todos os recordes da história do Big Mac. Presença constante nos rankings dos profissionais de Marketing mais reconhecidos do Brasil, João estudou em algumas das melhores universidades do mundo, mas aprendeu no “Méqui” o que nenhuma aula teórica foi capaz de ensinar: que o resultado sempre vem quando o consumidor ama muito tudo isso. João já foi presidente da ABA e duas vezes palestrante TEDx. É um dos marketeiros brasileiros mais influentes – seus textos são lidos por mais de 1 milhão de pessoas todos os meses. Linkedin/Instagram: @falajoaobranco

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