Bem-estar digital: você ainda vai ouvir falar muito deste termo

É interessante e paradoxal constatar que a tecnologia que mudou o mundo e as nossas vidas para melhor tem nos deixado doentes

Arthur Guerra
Compartilhe esta publicação:
 Andranik Hakobyan/Getty Images
Andranik Hakobyan/Getty Images

Quanto mais conectados estamos, maiores as chances de sentir fadiga, ansiedade, estresse

Acessibilidade


Em dezembro, um amigo meu me disse que iria jogar o celular dele no mar na virada do ano. Achei engraçado ele usar o termo “jogar no mar” para dizer que estava descontente por se sentir dependente do aparelho. Mas não é que ele foi literal, cumpriu o prometido e arremessou o celular na água, livrando-se de tudo o que havia ali?

É interessante e paradoxal constatar que a tecnologia que mudou o mundo e as nossas vidas para melhor tem nos deixado doentes. O tempo gasto online cresce tão rapidamente, impulsionado pela pandemia, que os brasileiros já são hoje os que mais passam tempo online em aplicativos, segundo uma pesquisa divulgada pela Forbes em 2021. São 5,4 horas por dia.

LEIA TAMBÉM: Maconha x álcool: qual faz mais mal à saúde?

Se considerarmos o dia útil – aquele pedaço do tempo que passamos acordados – como tendo, em média, 13 a 15 horas, os brasileiros já gastavam, em 2021, quase 1/3 do seu dia só em aplicativos. É muita coisa. Não por acaso, a moda agora é dizer que fulano está “on”.

Ano após ano, crescem as evidências de que quanto mais conectados estamos, maiores as chances de sentir fadiga, ansiedade, estresse. Quanto mais gastamos olhando o feed de outras pessoas que, via de regra, têm uma vida sem defeitos e cor de rosa, maior a probabilidade de ter baixa autoestima, depressão, solidão e outros problemas de saúde mental.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Ao lado da saúde financeira e da saúde mental, o maior valor daqui para a frente deverá ser o bem-estar digital, ou seja, é preciso mudar a relação que temos com as tecnologias disponíveis. Sabe aquela frase “é o cachorro que manda no rabo e não o rabo que manda no cachorro”? É exatamente isso. Temos de ter controle sobre a nossa presença e uso que fazemos do mundo digital e não o contrário, nos deixando escravizar pelas possibilidades que ele oferece.

A palavra-chave para conquistar esse bem tão valioso é moderação. Não é fácil, eu confesso. Mas é um exercício diário e necessário. Existem até aplicativos que podem ajudá-lo nisso, controlando o tempo que você gasta em cada app.

Desligue o celular quando for encontrar amigos e sugira que eles façam o mesmo. Se você está entre pessoas de que gosta, aproveite esse momento. Você vai se surpreender de como é prazeroso bater papo e rir sem precisar ver memes.

É possível ter presença digital com qualidade de vida. O desafio é grande, porque a internet é um palco que nos seduz o tempo todo para substituir os mecanismos de recompensa offline pelos online (likes, views, seguidores).

Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: