Construir de novo, e melhor – com impacto

Não se trata de voltar à normalidade, já que o mundo tal como antes não existe mais. E sim, de unir os esforços para criar uma realidade mais justa para todos

Claudio Lottenberg
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Um bom início para essa transformação de impacto seria preparar o mundo profissional para lidar com a retomada do trabalho presencial ou em alguma das formas híbridas

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Uma expressão ganhou espaço em meio à pandemia de Covid-19, tanto na imprensa norte-americana quanto em canais institucionais e mesmo de governo: “build back better”. Em tradução livre, seria algo como “construa de novo, e melhor”. Uma busca rápida no Google mostra que o Banco Mundial tem propostas para “construir de novo, e melhor” após a crise deixada pelo novo coronavírus em inúmeras frentes. A Organização das Nações Unidas (ONU) também lança essa sugestão. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), idem. Mesmo a Casa Branca tem um “Build Back Better Framework”.

A proposta embutida na frase é simples em sua formulação: não se trata de voltar à normalidade, entendendo esta como “o mundo tal como era antes”. A expressão, no entanto, tem um sentido mais marcadamente econômico: diria respeito à restauração de cadeias produtivas abaladas pela crise sanitária e geração de empregos – o programa da Casa Branca pretende ser o plano para reconstruir a classe média.

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Mas, na velocidade com que as transformações ocorrem hoje, já existe uma variante dessa expressão – que em português diria: “construa de novo e melhor – com impacto”. “Com impacto”, aqui, seria aproveitar que o mundo precisa de reconstrução e já lidar com questões agravadas pela pandemia – como a retomada econômica em ritmo desigual em diferentes lugares, desigualdades raciais e de gênero e a inadiável questão ambiental – sustentabilidade, aquecimento global e outros aspectos. Trata-se de, quando essa nova construção estiver em curso, chegarmos a um mundo mais inclusivo e adaptado.

Um bom início para essa transformação de impacto seria preparar o mundo profissional para lidar com a retomada do trabalho presencial ou em alguma das formas híbridas, que hoje em dia se busca. Após 21 meses de pandemia (completados em dezembro), colaboradores de todas as categorias ainda estão abalados, irritados, muitos com impactos e sequelas deixadas pela Covid. Muitas dessas pessoas poderão precisar de apoio, não só das lideranças – que deverão ser capacitadas, com seminários ou workshops, por exemplo –, mas mesmo de profissionais de saúde. Transtornos mentais como depressão e ansiedade cresceram muito – 27,6% e 25,6% respectivamente, segundo pesquisa publicada na revista científica The Lancet.

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No Brasil não só há muito a reconstruir melhor e com impacto, mas também a construir. A infraestrutura de saneamento, de fornecimento de energia elétrica e de gás encanado, de saúde pública, são muitas as áreas em que iniciativas do poder público e da iniciativa privada poderiam avançar, com ganho não só de eficiência, mas com um enorme impacto positivo na vida de muitos. O novo marco do saneamento pode ser um início. Investir no SUS, como a pandemia deixou evidente, seria outra área em que construir o que é preciso para ampliar o acesso à saúde de qualidade – mais hospitais, melhores equipamentos e, sobretudo, qualificação de pessoal – e reconstruir aquilo que precisa de renovação muito contribuiriam para desfazer um quadro de desigualdade social há muito cristalizado no país.

Valorizar o capital humano teria um forte efeito, não só na autoestima do colaborador, mas mesmo nos resultados econômicos da empresa. Afinal, um trabalhador satisfeito se torna incrivelmente mais produtivo. Construir o mundo pós-Covid seria uma tarefa para muitas gerações à frente. Se esse esforço levar a uma realidade mais igualitária, justa e produtiva, os esforços empreendidos hoje terão sido largamente recompensados.

Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Hospital Albert Einstein e do Instituto Coalizão Saúde.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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