Alto desempenho, exaustão e flow: como liderar as pessoas para serem felizes

Cerca de 40% dos colaboradores relataram que, provavelmente, deixarão o emprego nos próximos três a seis meses, aponta um estudo da McKinsey.

Camila Farani
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Mais de 20 mil brasileiros pedem afastamento médico no ano por doenças mentais relacionadas ao trabalho. As empresas, por sua vez, perdem cerca de US$ 2,5 trilhões em produtividade (Crédito: Getty Images)

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Incertezas quanto ao futuro, exigências de adaptação a uma nova realidade cada vez mais digital e altas cargas de trabalho adicionadas a uma rotina que já era desafiadora. Tudo isso no frenesi da instantaneidade do mundo atual, em que o senso de urgência nos invadiu. Precisamos estar sempre atentos, sempre disponíveis e sempre capazes de resolver temas complexos, que parecem surgir todos ao mesmo tempo. Quem também sente essa pressão na sua rotina?

Executivos, investidores, empreendedores e talentos atuando nos mais diferentes setores da economia. Todos estão sendo impactados por esse cenário, que cobra um preço alto da nossa saúde física e mental. A Síndrome de Burnout, ou esgotamento profissional, cresce rapidamente. Mais de 20 mil brasileiros pedem afastamento médico no ano por doenças mentais relacionadas ao trabalho. As empresas, por sua vez, perdem cerca de US$ 2,5 trilhões em produtividade, com faltas no trabalho e rotatividade, segundo dados apresentados recentemente no Fórum Econômico Mundial.

Cerca de 40% dos colaboradores relataram que, provavelmente, deixarão o emprego nos próximos três a seis meses, aponta um estudo da McKinsey. E quais os motivos para isso? As pessoas não estão se sentindo valorizadas e enfrentam dificuldades para equilibrar a vida pessoal e profissional. O levantamento destacou ainda a carga de trabalho incontrolável e falta de crescimento profissional como impulsionadores dessa necessidade de mudança de rumos. Algo que preocupa porque, no fim das contas, podem ser talentos fundamentais para o negócio, e que as empresas estão a ponto de perder.

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Para quem empreende, o desafio não é menor. Esqueça aquela visão do glamour que geralmente envolve as startups. Uma vida de liberdade, dinheiro e facilidades não corresponde à realidade da grande maioria dos empreendedores. A construção para se chegar a um negócio bem-sucedido tem um alto custo emocional. A pressão é constante por entregar um produto que conquiste os consumidores, gerar retorno aos investidores e motivar e reter talentos. Cerca de 30,13% dos empreendedores iniciaram acompanhamento psicológico durante a pandemia – 53,5% disseram ter sido diagnosticados com ansiedade e 11,22% com depressão por profissionais especializados. O levantamento foi feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFGM) e a Troposlab, empresa especializada em inovação. Quando comparado ao estudo realizado em 2020, o uso de ansiolíticos entre empreendedores saltou de 6% para 10%, e de antidepressivos de 3% para 8%.

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A pressão para as empresas performarem cada vez mais e, consequentemente, a corrida pelo alto desempenho se intensificou desde que nossa vida foi atropelada pela pandemia da Covid-19. Uma alta produtividade que está mascarando uma força de trabalho exausta, aponta estudo da Microsoft. Um em cada cinco entrevistados da pesquisa global realizada pela empresa disse que seu empregador não se preocupa com o equilíbrio entre vida pessoal e profissional – 54% se sentem sobrecarregados e 39% se sentem exaustos. Qual o limite? Como conduzir os talentos em uma jornada de produtividade na qual o alto desempenho acontece como resultado de um trabalho pensado e executado de forma prazerosa e equilibrada?

Alta performance sem autoconhecimento é um risco. Aliás, aqui entra um conceito que eu considero muito interessante, o Flow, termo cunhado por Mihaly Csikszentmihalyi, autor do livro Flow: a psicologia do alto desempenho e da felicidade. O Flow é um estado de profunda concentração e de satisfação com algo que estamos realizando. Algumas empresas, especialmente no exterior, já começam a introduzir práticas para induzir o Flow dos seus times.

Para atingir essa experiência ‘ótima’, como se refere o especialista, precisamos estar diante de uma atividade desafiadora, mas para a qual sabemos que temos as habilidades necessárias. Algo muito simples de ser resolvido ou um problema impossível não nos levará a essa fusão entre ação e consciência, e, portanto, não nos conduzirá ao Flow. Também é preciso ter metas claras e feedbacks rápidos.

Uma das principais características é que só atingimos o Flow se sentimos um grande prazer no que estamos fazendo. Um desafio real, clareza do que precisa ser feito e metas tangíveis podem levar a uma nova dimensão de produtividade e de extremo prazer. Quando você conclui um fluxo destes, vê que produziu algo de grande valor. É uma performance sem ansiedade, sem medo, sem sentimentos de baixa frequência. Quanto mais a gente está em estado de Flow no nosso cotidiano, mais felizes somos, defende Csikszentmihalyi.

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Por que isso é importante? Porque podemos ajudar as pessoas a serem mais produtivas de forma saudável. A própria forma como lideramos é decisiva para o bem-estar do time. Cada vez é mais importante mostrar os “porquês” de algo que precisa ser executado do que a forma que isso deve acontecer – pois isso será algo natural de ser construído por todos. As pessoas se engajam por propósitos, precisam se sentir desafiadas a construir e lutar por algo que elas entendem a razão de ser.

Traçar essa conexão compensa – as empresas que conectam sua estratégia ao trabalho de seus funcionários alcançaram um aumento de 63% no retorno total para os acionistas, mostra estudo da McKinsey. Aos líderes, uma missão urgente: exercitar a empatia. Ajudar a sua força de trabalho a ser mais saudável, fisicamente e mentalmente, passa por ter uma escuta ativa e atenta. Procure saber como os seus talentos estão se sentindo. Isso fará bem para o time, para você e para os negócios.

Camila Farani é um dos “tubarões” do “Shark Tank Brasil”. É Top Voice no LinkedIn Brasil e a única mulher bicampeã premiada como Melhor Investidora-Anjo no Startup Awards 2016 e 2018. Sócia-fundadora da G2 Capital, uma butique de investimentos em empresas de tecnologia, as startups.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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