Motor: Automobilismo adere à corrida ambiental

Cada vez mais inseridos na tendência ESG, campeonatos movidos a combustão investem em créditos de carbono.

Letícia Datena
Compartilhe esta publicação:
Mark Thompson/Getty Images
Mark Thompson/Getty Images

Max Verstappen participa de testes no circuito do Bahrein; a Fórmula 1 pretende zerar emissões até 2030

Acessibilidade


Reduzir o impacto ambiental já foi uma opção das empresas. Nos dias de hoje, no entanto, a sobrevivência a longo prazo no mercado depende de demonstrar um constante esforço para diminuir o dano ao meio ambiente causado pelas operações.

Dessa maneira, desde pequenos negócios até grandes corporações têm aderido a mecanismos de compensação de emissão de gases de efeito estufa como forma de manifestar seu compromisso com as causas ambientais. Por exemplo, quem nunca pediu comida por um aplicativo e recebeu uma mensagem de que a entrega será “carbono neutro”? É cada vez mais comum isso acontecer.

LEIA TAMBÉM: Motor: no país do futebol, investir em automobilismo é um golaço

Por outro lado, no automobilismo, algumas organizações de eventos, muitos deles baseados em corridas de veículos a combustão, também têm encarado o desafio de fazer a sua parte na preservação do meio ambiente. “No automobilismo, a compensação de emissões é muito pouco feita até hoje. O que a gente mais viu até o momento são empresas que se preocupam em compensar as emissões das equipes ou equipes que compensam sua própria emissão, mas é muito pouco comum”, diz Fernando Mallmann, CEO e founder da Orma Carbon, empresa especializada em economia de baixo carbono.

Ainda assim, competições importantes mundo afora têm aderido a projetos de preservação ambiental. A Nascar, por exemplo, investe no plantio de árvores através do “NASCAR Tree Planting Program”, projeto que já plantou mais de meio milhão de árvores nos Estados Unidos. A Fórmula 1, por sua vez, anunciou em 2019 o plano ambicioso de zerar as suas emissões até 2030, através do desenvolvimento de diversas tecnologias. No Brasil, grandes campeonatos aderiram, entre 2020 e 2021, à compensação de carbono de seus eventos.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

“Qualquer evento, seja de automobilismo ou de entretenimento, ou ainda se tratando de emissões corporativas, são projetos que geram crédito de carbono, que hoje é a forma mais eficiente, mais utilizada para a compensação de gases de efeito estufa para neutralizar carbono”, explica Mallmann, que é também um dos responsáveis pelo projeto de compensação de carbono da Stock Car, desde de 2021.

O processo para que essa compensação seja realizada, segundo Mallmann, consiste em três etapas básicas. “A identificação das fontes de emissão, no caso da Stock Car a organização, logística e os carros de corrida; o cálculo de emissões, chamado de inventário de emissões de gases de efeito estufa, o somatório total e a compensação”, especifica o CEO, acrescentando também que a compensação pode ser feita tanto pelo plantio de árvores, mecanismo mais caro e complexo, quanto através de créditos de carbono. “E na compensação hoje, o projeto com mais apelo de mercado são os RIDD+, que são os projetos de desmatamento evitados, ou seja, a manutenção, conservação e preservação de florestas em pé”, arremata.

Do asfalto para a poeira, a maior competição off road do Brasil, historicamente envolvida com causas ambientais, também optou pela compensação de carbono. Assim como a Stock Car, o Sertões se tornou um evento carbono neutro em 2021. “Desde a primeira edição, o evento sempre teve uma preocupação ambiental e a gente entende que tem que estar em constante evolução, sempre antenado com as novas tecnologias, com o mercado, até porque o pano de fundo da nossa prova é o meio ambiente”, conta Leonora Guedes, COO do Sertões.

A maior prova de rali das Américas, com aproximadamente cinco mil quilômetros de trajeto, passou a compensar as emissões decorrentes de toda sua infraestrutura. São cinco aeronaves, veículos de apoio, geradores, resíduos gerados pelos participantes, além das emissões dos veículos de competição. “Eles (participantes) recebem um certificado da neutralização do carbono, o que é importante até para os seus parceiros comerciais. Todos os apoiadores e patrocinadores viram isso com bons olhos”, completa.

A neutralização de carbono, em resumo, é um investimento financeiro feito pela organização em créditos de carbono para serem alocados a projetos socioambientais diversos e confiáveis, por intermédio de uma empresa especializada. No caso do Sertões, quem faz este papel é a Moss Carbon.

“Agrega valor para a marca, do ponto de vista comercial principalmente. Porque, acho que nenhuma empresa hoje quer se vincular a qualquer ação, a qualquer evento, que esteja desalinhado com o meio ambiente. Que não tenha isso como premissa”, diz Leonora, que revela ainda que o investimento em compensação de carbono foi de aproximadamente R$ 100 mil na temporada de 2021. Este cálculo varia de acordo com a quilometragem da prova.

O ponto que todos os campeonatos citados anteriormente têm em comum é o objetivo de efetuar mudanças para que o show do automobilismo reduza seu impacto ambiental. Dessa maneira, além da compensação, as organizações estão em busca de novas tecnologias para que tanto os veículos quanto a infraestrutura do evento sejam menos nocivos ao meio ambiente. Até isso acontecer, a compensação de carbono será uma das formas mais eficientes de selar o compromisso das empresas envolvidas no esporte a motor com a causa ambiental.

Letícia Datena é jornalista de esportes há oito anos, e atua no setor do automobilismo desde 2016. Já foi correspondente internacional dos canais Fox Sports e cobriu alguns dos campeonatos mais importantes do mundo, como o Rally Dakar, Rally dos Sertões, o WRC (World Rally Championship), Fórmula E e hoje é uma das responsáveis pelo departamento de criação de conteúdo da Stock Car.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: