Leonardo Tristão, do Airbnb, fala sobre viagens na pandemia: “Nosso modelo continuará tendo apelo”

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Segundo o country manager do marketplace de acomodação e experiências, as pessoas viajarão para mais perto de casa

O tempo em que o Airbnb oferecia vagas em colchões infláveis a pessoas que iam a eventos e não encontravam quartos em hotéis próximos parece bem distante. Desde sua fundação em 2008, o marketplace cresceu exponencialmente: mais de 7 milhões de anfitriões oferecem acomodações através da plataforma, além de experiências que vão desde passeios com cães de Chernobyl até colheita de trufas na Toscana.

Mas a hibernação do mercado de viagens imposta pela pandemia foi severa com a empresa, que não conseguiu se esquivar da instabilidade global e, no mês passado, precisou demitir 1.900 funcionários. O processo, atualmente considerado por muitos fundadores de startups uma referência de como agir em momentos difíceis, envolveu a doação de computadores Apple aos ex-colaboradores, bem como uma carta do fundador Brian Chesky aos demitidos, que viralizou.

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As coisas nem sempre foram prósperas ou mesmo fáceis para o Airbnb – afinal, a empresa nasceu na crise do subprime. Depois de mais de uma década desde a sua fundação, o novo coronavírus testa novamente a resiliência do unicórnio norte-americano, que busca se reinventar para atender às novas demandas de seus clientes e apoiar a recuperação da indústria do turismo.

Apesar do impacto recente, o Airbnb não se deu por vencido e logo se reuniu com sua comunidade de anfitriões para entender possibilidades de geração de receita nas novas circunstâncias. Isso é especialmente importante no Brasil, dada a porcentagem de usuários que usam a renda extra do site para se manter – 50% em 2019, segundo a empresa.

“Buscamos maneiras de adequar a estratégia para atravessar a tempestade, que não sabemos quanto tempo vai durar. Conseguimos nos adaptar rapidamente”, diz Leonardo Tristão, country manager do Airbnb no Brasil, em entrevista à Forbes.

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Entre os resultados do brainstorming, surgiu um novo produto, de experiências online, que estreou em abril e deve ser lançado no Brasil em breve. Segundo Tristão, uma equipe de curadoria foi criada para selecionar e treinar anfitriões brasileiros, cujas experiências serão digitalizadas e oferecidas via Zoom.

“Os anfitriões são nossos parceiros de negócio e eles acreditam que conseguem fazer a monetização [das experiências digitais] durante o período de isolamento social e, portanto, precisamos capacitá-los e dar ferramentas a eles para que possam promover suas paixões online”, diz Tristão sobre as experiências na internet. Ainda não há uma data de lançamento definida para a oferta em português.

Nos 30 países em que o serviço já está disponível, as mais de 300 de experiências digitais contam com a presença de medalhistas olímpicos e até ganhadores do Grammy, porém, Tristão diz que a oferta não está restrita a este tipo de perfil: “[Influenciadores] são muito bem-vindos, mas as experiências são oferecidas em sua maioria por pessoas ‘normais’, que têm um dom ou hobby e conseguem transmitir isso de forma autêntica”, aponta.

NOVAS DEMANDAS

No business de acomodação, carro-chefe da empresa, novas tendências foram observadas e o Airbnb buscou mostrar a oportunidade a usuários que alugam espaços através do site com base nestes dados. Um dos movimentos imediatos da crise é o aumento significativo no número de usuários que alugam na mesma cidade em que vivem, particularmente em grandes centros urbanos, para fazer o isolamento social.

“[O nível de reservas dentro da mesma cidade] foi muito forte em São Paulo, no Rio de Janeiro e em grandes centros urbanos. Isso continua, pois o Brasil ainda está em quarentena, e agimos muito rapidamente para mostrar à nossa comunidade de anfitriões que esta demanda existia”, diz Tristão.

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Em abril, o Airbnb registrou um crescimento de 34% de reservas na mesma cidade em que o usuário reside, por períodos que muitas vezes ultrapassam um mês. Em maio, este tipo de estadia teve um aumento de 42% em relação ao mesmo mês no ano passado. A demanda durante a pandemia tem vindo predominantemente de idosos e famílias com crianças em busca de mais espaço para trabalhar, bem como estudantes universitários, que buscam casas com três quartos ou mais.

Além de se ajustar ao novo padrão de consumo que emergiu com a crise do novo coronavírus, o Airbnb também implementou um protocolo global de limpeza, que entrou e vigor no Brasil hoje (18) e inclui um treinamento online com exigências como intervalos de 24 a 72 horas entre reservas para que anfitriões possam higienizar as instalações que alugam.

A procura por espaços temporários no período de quarentena é algo que a Housi, startup da Vitacon, buscou responder com um produto com foco em períodos mais curtos para quem precisa “dar um tempo” do ambiente domiciliar. Segundo Tristão, o Airbnb não pretende alterar seu modelo de negócio ou lançar ofertas específicas para atender a estas novas necessidades:

“As tendências que vemos nos dão confiança de que nosso modelo vai continuar tendo apelo, pois nosso consumidor muda e temos muita flexibilidade e capilaridade para prover o que eles precisam”, diz Tristão, sobre as 250 mil opções de acomodação disponíveis no Brasil.

TURISMO HIPERLOCAL

Passada esta primeira fase da crise, a empresa prevê uma mudança radical no perfil do viajante até que haja mais confiança para viagens internacionais, principalmente de lazer. A tendência que desponta em mercados como os Estados Unidos, a maioria dos países europeus e que deve se repetir no Brasil, será de turismo doméstico hiperlocal, ou seja, para cidades menores num raio de até 300 km para as quais é possível ir de carro. O Airbnb já nota um interesse – em buscas e não reservas, dadas as restrições ainda vigentes em diversas localidades – do brasileiro em programar viagens futuras.

A análise de comportamento dos usuários brasileiros revela que há interesse por férias em destinos como, por exemplo, cidades próximas a São Paulo, como Atibaia e Sorocaba, para as quais as buscas no site triplicaram. Outros destinos em São Paulo, como São José dos Campos e Campinas, também tiveram um salto em popularidade nas buscas, bem como localidades como Uberlândia (MG), Capão da Canoa (RS) e cidades próximas a Florianópolis, como Imbituba e Criciúma.

Brasileiros também têm demonstrado interesse em planejar viagens curtas para o final do ano – as buscas mostram que as pesquisas para dezembro deste ano já estão no mesmo nível do mesmo período de 2019. Isso será importante na retomada da economia, particularmente em nível local: a empresa, que estima ter gerado um impacto econômico de R$ 10,5 bilhões no Brasil em 2019 através de toda a cadeia que envolve o turismo, posiciona-se como um aliado de governos no novo cenário de retomada das viagens.

“As pessoas irão aprender que podem fazer turismo em cidades menores e que não são necessariamente ícones turísticos. Esta será uma forma de promover o turismo doméstico, descentralizar riqueza e o Airbnb está diretamente inserido na oferta para fazer isso acontecer”, diz Tristão.

Uma parceria neste sentido, que envolve o fornecimento de dados sobre tendências ao poder público para revigorar o turismo local, foi fechada com o governo estadual de São Paulo e a empresa se diz aberta a colaborar com o poder público. “Nosso grande objetivo é ser um protagonista da recuperação do turismo. Podemos ter um impacto muito grande na recuperação de receita das cidades: o Brasil tem todo o potencial para superar esta crise, mesmo depois da pandemia”.

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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