Vale do Dendê potencializa inovação na periferia de Salvador

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O cofundador da holding de impacto social, Rosenildo Ferreira: apoiando a sobrevivência e crescimento de empreendedores em vulnerabilidade socioeconômica

A empresa de impacto social Vale do Dendê está reforçando suas atividades para combater o impacto da pandemia em novos negócios na periferia de Salvador e prepara o novo estágio de seu trabalho no desenvolvimento do ecossistema de inovação e empreendedorismo na capital baiana.

Em operação desde o final de 2016, a Vale do Dendê atua nas frentes de educação, consultoria e aceleração de ideias desenvolvidas por empreendedores em situação socioeconômica vulnerável. Mais de 90 negócios já passaram pela iniciativa, que em sua mais recente rodada contou com o suporte de organizações como Fundação Itaú Social, Financial For Good Brazil, British Council Brasil e FIIMP.

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Existem diferenças entre as dinâmicas de apoio a empreendedores na periferia soteropolitana e o que pode acontecer nos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro. A aceleradora, que conta com um braço na capital paulistana no centro de impacto social Civi.co para fazer a ponte entre os dois mundos, tenta preencher estas lacunas.

“A caixa de ferramentas de um empreendedor que transita na Avenida Faria Lima, ou que tem acesso ao Vale do Silício, não é a mesma de um jovem da periferia de Salvador e buscamos endereçar isso”, explica Rosenildo Ferreira, cofundador da Vale do Dendê, referindo-se a recursos além do capital financeiro, como contatos e acesso à comunidades, bem como exposição a novos conceitos e ideias.

Com essas necessidades em mente, a aceleradora inclui um processo de preparação dos jovens que buscam orientação para desenvolver suas ideias. Segundo Ferreira, o estágio de pré-aceleração envolve cerca de 40 horas de treinamento com diversos especialistas em temas como marketing digital, gestão e outros assuntos relacionados ao mundo das startups antes da aceleração propriamente dita.

“Entendemos a periferia como um grande gerador de inovação, mas precisamos colocar este pessoal na mesma página, pois poucos [empreendedores em estágio inicial] conhecem os detalhes deste ecossistema e sabem como se virar nesta história’, aponta Ferreira.

Dos mais de 100 inscritos na primeira chamada da aceleradora, 30 foram selecionados para o processo prévio e 10 projetos de economia criativa foram escolhidos por uma banca de jurados na Campus Party foram acelerados por três meses. O foco da Vale se distribui entre tecnologia, moda e gastronomia, com geração de ferramentas de alto impacto e baixo custo, como aplicativos.

O grupo acelerado no último ciclo inclui a desenvolvedora de games Aoca Game Lab e a healthtech AfroSaúde, que busca conectar profissionais negros da área de saúde a potenciais pacientes, tendo a filosofia do black money como fio condutor.

Segundo Ferreira, mais da metade das empresas aceleradas pela Vale do Dendê são comandadas por residentes negras da periferia, de até 29 anos de idade. O cofundador da aceleradora explica a importância deste recorte em particular.

“Mulheres, principalmente na comunidade afro-brasileira, têm a capacidade de multiplicar seus recursos, para a família e para as comunidades em que estão inseridas. Se a ideia é gerar impacto, desenvolver territórios e multiplicar dinheiro, é preciso investir nessas empreendedoras”, aponta.

PODER DA PERIFERIA

Planos da Vale do Dendê para o segundo semestre de 2020 incluem um novo ciclo de aceleração de startups de economia criativa. A empresa também quer continuar aplicando seu modelo de aceleração a setores específicos, e realizar a segunda rodada de um projeto focado em gastronomia, que no ano passado foi patrocinado pela rede atacadista Assaí e Instituto GPA, e atraiu inscrições de quase 60 foodtechs e empreendedores. As 10 startups aceleradas no final produziram, entre outros resultados, o guia gastronômico digital “Sabores de Salvador”.

Grandes empresas tem olhado para a capital baiana como um novo foco de desenvolvimento de propostas inovadoras, segundo Ferreira: “Estas organizações veem a cidade como uma praça onde podem desenvolver seus territórios junto a um grande público consumidor”, ressalta, acrescentando que a região tem passado por um forte processo de reinvenção com maior ênfase em novas empresas de base tecnológica.

“Queremos intensificar ainda mais a nossa presença como agentes desenvolvedores do ecossistema de inovação de Salvador, com o diferencial de que olhamos para onde normalmente ninguém olha, que é a periferia”, ressalta.

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Em seu pitch para atrair novos patrocinadores, o cofundador da Vale do Dendê procura se posicionar como um grande aliado para chegar na comunidade negra, que representa quase 60% da população brasileira, e aproveitar este potencial de consumo no pós-crise: “Queremos ser o veículo que vai dar suporte para que estas empresas cresçam e se desenvolvam com soluções inovadoras criadas em Salvador”.

Segundo Ferreira, a crise torna o trabalho da empresa ainda mais crucial: “Se nosso trabalho já era relevante [antes da crise] agora será duplamente importante: o desenvolvimento de competências usando as ferramentas de inovação como ponto de partida significa não só a sobrevivência destes negócios como o crescimento deles”, aponta.

Outro objetivo da Vale do Dendê é de estancar a fuga de cérebros, segundo Ferreira. “Queremos que jovens empreendedores vejam em Salvador um lugar possível para crescer, ganhar dinheiro, se desenvolver tecnologicamente”, diz ele, acrescentando que a intenção é também fazer com que a diáspora soteropolitana atualmente baseada em São Paulo e no Rio se interesse em tocar projetos inovadores na cidade.

A terceira edição do festival de afrofuturismo que seria organizado pela empresa este ano com debates e apresentações audiovisuais, precisou ser adiado para 2021. Segundo Ferreira, razões incluem as medidas de distanciamento social, bem como a importância do espaço físico em um evento como este, que inviabiliza a realização online: “A sociedade brasileira não identifica o negro como produtor de inovação tecnológica, como cientista, e a ideia do evento é trazer estas pessoas negras que atuam nestas áreas para o centro do palco. A nossa grande força está na ocupação”.

AÇÕES PARA A PANDEMIA

Cinco projetos do grupo de startups aceleradas pela Vale do Dendê em seu último ciclo, que tinha conclusão prevista para 2020, receberam R$ 10 mil em capital semente cada. Todas vão usar o capital para a largada em arrecadações no match crowdfunding Enfrente, que está apoiando ações ligadas ao enfrentamento à Covid-19.

Entre os que já entraram (e bateram a meta) estão negócios que têm propostas diretamente relevantes à resposta para a crise. Entre eles está a AfroSaúde, que vai implantar um serviço de telemedicina na periferia de Salvador, e a Iyá Omg Cosmética Natural, que fabrica cosméticos com insumos que resgatam as conexões com as tradições de matriz africana como plantas cultivadas em terreiros, e que está distribuindo kits de higiene pessoal em Camaçari, cidade próxima à Salvador.

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A grife de vestuário sem gênero Dendezeiro está empregando mulheres em situação vulnerável para produzir milhares de máscaras também está neste grupo. A Aoca Game Lab e a Ecociclo, que emprega mulheres residentes na periferia para produzir absorventes biodegradáveis, também devem começar campanhas futuramente.

Outro projeto de impacto social em que a Vale do Dendê está inserida é a Coalizão Éditodos, uma aliança de organizações que busca combater o racismo estrutural e apoiar empreendedores negros que transformam sua cultura em inovação para produtos e serviços direcionados a negros e não-negros. “O grande drama para o empreendedor de periferia, principalmente jovens e mulheres negras, é o acesso a crédito, tecnologia, oportunidades e a coalizão atua neste sentido”, diz Ferreira.

A coalizão, que além da Vale é formada pelas organizações AfroBusiness, Agência Solano Trindade e Pretahub de São Paulo, além da FA.VELA, de Belo Horizonte, e do Instituto Afrolatinas, de Brasília, foi acelerada com novas prioridades por conta da pandemia e criou o Fundo de Emergências Econômicas. Até agora, patrocinadores institucionais do fundo incluem Fundação Arymax, Banco Itaú, Itaú Social, Instituto C&A, Assaí Atacadista, JP Morgan, Mercado Livre e ICE.

O Fundo Baobá vai atuar no repasse dos recursos arrecadados pela iniciativa, que está próxima de atingir a meta de R$ 1 milhão. Cerca de 560 empreendedores em áreas vulneráveis em todo o Brasil serão apoiados com até R$ 2 mil por pessoa. Segundo Ferreira, a demanda é bem superior, mas pragmatismo se faz necessário: “Estamos focando em grupos mais fragilizados, os nano-empreendedores para os quais esse dinheiro faz muita diferença, além de uma série de treinamentos para ajudá-los a se manterem de pé, quando a crise acabar.”

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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