EXCLUSIVO: Movile, dona da iFood, vai às compras e reinventa modelos de negócio

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O CEO da empresa, Patrick Hruby: grandes aquisições no horizonte

Passada a fase inicial de impacto do novo coronavírus, o conglomerado digital Movile volta a acelerar com modelos de negócio redefinidos e grandes aquisições planejadas para os próximos meses.

O momento de “incerteza absurda” com proteção de caixa e redução de investimentos ficou para trás. A empresa buscou tratar o impacto socioeconômico da crise, em particular com ações voltadas ao iFood, e agora o objetivo é crescer, segundo o CEO do grupo, Patrick Hruby.

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“O oxigênio de empresas de tecnologia é o crescimento e é o que dá energia para seguir investindo e contratando: esse é o pilar número um da nossa estratégia. O segundo é trazer novos negócios e vamos voltar às compras, adicionando empresas de novas verticais ou que somem ao que já temos hoje”, diz o executivo, em entrevista exclusiva à Forbes.

A estratégia, já demonstrada em movimentos como a fusão do iFood com a Domicilios.com na Colômbia, que aguarda aprovação regulatória, é reiterada no investimento na também colombiana Mensajeros Urbanos, adiantado a esta coluna.

Este é o segundo aporte da Movile na empresa de logística, que pretende usar o capital para crescer em seu mercado natal e na expansão no México.

Segundo Hruby, as apostas recentes podem ser entendidas como dois movimentos separados: um é reforçar o business de entrega de comida nestes mercados latinos e outro é ganhar músculo na guerra contra a Rappi, unicórnio colombiano que é líder no mercado de entregas.

O executivo explica o modelo da Mensajeros para ilustrar seu ponto: “A rede deles é multimodal, com motos, bicicletas, carros, caminhões e centros de distribuição”, detalha. Com a ajuda de inteligência artificial para otimização de rotas, a empresa atende demandas como entregas de e-commerce no mesmo dia, e é parceira de grandes empresas de bens de consumo na re-estocagem de lojas de bairro, onde o consumo aumentou durante a pandemia.

Essa última compra, de valor não revelado, responde às tendências globais de consumo e faz a Movile avançar mais uma casa no tabuleiro de xadrez do ecossistema latino-americano de startups. A empresa foi uma das consultadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) como parte de um processo que antecipa a avaliação de fusões e aquisições entre gigantes da economia digital.

O modelo de negócios da Mensajeros é similar ao da Loggi, empresa brasileira de logística que se tornou unicórnio em junho do ano passado, quando recebeu uma rodada de US$ 150 milhões liderada pelo fundo japonês SoftBank. Hruby nega que existam tratativas em andamento para uma possível fusão ou aquisição envolvendo a Loggi, mas não deixa de demonstrar sua admiração pela empresa de Fabien Mendez.

“Acho a Loggi uma ótima empresa, que está fazendo um belíssimo trabalho e tem um desafio muito grande, pois o Brasil é um país continental”, diz Hruby. “Se lá na frente algo acontecer e algum tipo de junção fizer sentido para ambas as empresas, vamos avaliar, mas hoje nosso foco está em ajudar a Mensajeros Urbanos a expandir na Colômbia e crescer no México.”

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A Movile também vai reforçar sua atuação em serviços financeiros, uma frente que inclui a Movile Pay, braço que atua principalmente na iFood com ofertas como crédito para restaurantes, e se expandiu em 2018, com o investimento feito na Zoop. Segundo o CEO, negociações estão em andamento para a compra de fintechs que apoiam a tese de crescimento do grupo, com foco em pequenas e médias empresas.

“Já oferecemos crédito para restaurantes através de um modelo de marketplace em parceria outras empresas, mas uma evolução natural desse modelo é que nós mesmos ofereçamos o crédito”, revela.

E continua: “A oferta de crédito apoiará essa nossa ambição de crescer para expandir a oferta de serviços financeiros, com restaurantes como início para eventualmente expandir [para outros segmentos]. Entendemos que crédito para ajudar a atravessar este momento será uma necessidade muito grande do mercado”.

O executivo antecipa que até o inverno de 2021, a operação em serviços financeiros da Movile será bem diferente do arranjo atual da empresa nesse setor. “Será possível ver algo bem mais estabelecido e maior: hoje nós temos apostas, daqui um ano nós teremos realidades”, adianta.

Hruby, que passou os últimos 15 anos em gigantes de tecnologia como a Google e Facebook, conheceu o fundador da Movile, Fabricio Bloisi, há uma década. Os executivos falaram sobre uma possível oportunidade por anos, até que Hruby aceitou retornar ao Brasil para liderar a Movile, no fim do ano passado.

Segundo o executivo, a principal diferença entre as empresas do Vale do Silício e as grandes empresas de tecnologia brasileiras, além do acesso a capital, é a infraestrutura local: “O Brasil não é para amadores: as diferenças legais e reguladoras são muito complexas, portanto inovar e empreender com tecnologia aqui tem uma complexidade muito maior do que nos Estados Unidos”, ressalta.

Apesar de todos os percalços, o fundador da Movile costuma dizer que empresas brasileiras têm todas as condições de se tornarem Big Techs. Com a experiência de quem atuou na liderança em ambos os mundos, Hruby compartilha da visão de Bloisi: “A Movile será esta empresa de tecnologia global do Brasil, e eu comprei este sonho em sua integridade”, afirma.

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A Mensajeros Urbanos é a mais nova aquisição da Movile na Colômbia

AMORTECENDO E ACELERANDO

As reações à crise do novo coronavírus no ecossistema de empresas do grupo Movile variam e, segundo Hruby, uma das vantagens desta diversidade é a habilidade de amortecer o impacto mais severo que algumas tiveram que administrar.

Alguns dos negócios da Movile que têm crescido na crise incluem o caso da PlayKids: segundo Hruby, a Leiturinha, assinatura de livros da startup, tem tido um aumento em interesse durante a quarentena. Porém, o real destaque foi a divisão de jogos, que teve um crescimento expressivo: só o jogo PKXD tem uma base de 20 milhões de usuários.

A situação foi diferente para a Sympla, que viu sua receita desaparecer da noite para o dia com as medidas de distanciamento social que frearam o mercado de eventos. A empresa que nasceu como uma plataforma de ingressos agora foca em eventos online com streaming.

“Criamos uma nova empresa [dentro da Sympla]. Com isso, conseguimos absorver parte do impacto [da pandemia] e atravessar esse período sem demissões, usando os recursos do grupo para inovar e encontrar um novo caminho”, explica Hruby.

A rota de sobrevivência da Sympla, atualmente alimentada principalmente por empresas que fazem seus eventos e treinamentos na plataforma, ainda não se compara ao negócio pré-Covid. Porém, o executivo aponta que a receita online tem crescido de forma consistente e pode até mesmo superar o business de eventos tradicionais.

Por outro lado, Hruby diz que eventos “off-line” começam a dar sinais de vida, com formatos como drive-ins e espetáculos de teatro com distanciamento de assentos. Neste cenário, a Movile espera que a Sympla volte mais forte para responder a esta realidade reinventada. “Voltaremos a ter festas, shows, teatro. A diferença é que esse business voltará com a opção do online, com streaming”, aponta o executivo.

A Wavy, empresa de mensageria que deu origem ao grupo Movile e tem entre seus clientes a Avon e Ingresso Rápido, tem atravessado a tormenta da crise e, segundo Hruby, “tem se reinventado e não esperado que isso aconteça com ela”.

“Muitos afirmam que [o business de mensageria] já encontrou seu pico e vai reduzir, mas ele teima em continuar crescendo e tem tido a beleza de se reinventar, não só com o WhatsApp, mas com o Apple Business Chat, Google e outras plataformas”, afirma.

Para dosar os recursos do grupo e balancear o pico de atividade de certas empresas e o trabalho em novos modelos de negócio em outras, o conglomerado também adotou o modelo de secondment. Este empréstimo de funcionários, principalmente de áreas técnicas, reforçaram as equipes que precisavam reagir às novas demandas apresentadas pela crise e a Wavy foi uma das beneficiadas

“Pensamos: porque não pegar parte do talento de engenharia de produto e operações que está hoje na Sympla e adicioná-las num projeto na Wavy? Fizemos isso, pois o crescimento em mensageria, com funcionalidades como robôs no WhatsApp, está realmente pegando fogo”, conta Hruby.

“Buscamos temporariamente alocar pessoas de uma empresa para a outra, respeitando a estrutura de todas as organizações independentes. Assim, mantemos as pessoas empregadas em projetos interessantes, temporários, para depois retorná-las [aos seus empregadores originais],” explica.

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim como os outros líderes do grupo em que trabalha, Hruby não se esquiva da complexidade que envolve as relações entre as empresas do grupo e colaboradores em diversos tipos de vínculo. A empresa tem buscado priorizar o tratamento de questões de diversidade, principalmente em sua startup mais vistosa, a iFood.

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“Estamos priorizando [a diversidade] e vamos fazer mais para termos uma empresa que representa a sociedade em que estamos inseridos. Fizemos progresso com respeito a mulheres em cargos de gestão, mas também precisamos progredir rápido em relação a raça”, diz o executivo.

Sobre o espinhoso tema das relações com motofretistas que operam através da iFood, Hruby vê as demandas destes trabalhadores por mais garantias como válidas em sua maioria. O executivo elenca as medidas já tomadas pela empresa, em áreas como R$ 25 milhões em fundos para apoiar entregadores, receita mínima por entrega e seguro para acidentes, e diz que o trabalho nessa frente tem sido “muito forte e proativo”.

Ao comentar sobre como é possível equacionar a desigualdade social que aumenta com o agravamento da crise com as imperativas do negócio, Hruby diz que a iFood está atendendo todas as demandas da categoria e entregando mais do que o governo pede: “O mínimo estabelecido pelo governo para um trabalho é o salário mínimo. Quando olhamos para a hora trabalhada e a média dos entregadores que se dedicam mais a este tipo de função, nós entregamos mais do que isso”, ressalta. A média da hora trabalhada dos entregadores da iFood está atualmente em R$ 9,50.

Tratar estes temas não era uma tarefa simples antes da pandemia e a crise aumenta a pressão para que a empresa mostre mais resultados em sua atuação social. Porém, Hruby diz que a Movile não está se escondendo em relação a estas pautas e quer endereçar questões críticas relacionadas ao futuro do trabalho, considerando os cenários específicos do Brasil.

“Não queremos simplesmente importar soluções que tenham ou não funcionado no Chile ou nos Estados Unidos. Sabemos que a nossa legislação é diferente do que esses mercados e queremos soluções que funcionem no Brasil”, argumenta.

Mesmo com os vários anos de estrada em empresas de tecnologia de alto crescimento, os últimos meses têm colocado à prova as habilidades de liderança de Hruby, que tem buscado administrar a velocidade de mudanças do segmento acelerada pela pandemia.

“Brinco que [precisamos tomar] 100% das decisões com 50% das informações. Depois, quando tivermos 100% das informações, vão nos cobrar porque tomamos aquelas decisões lá atrás. E faz sentido, não é? Temos que honrar o que fizemos e corrigir o percurso quando for necessário. Tem sido uma aula de resiliência e de ambiguidade. Mas é uma experiência fantástica.”

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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