Como Biden planeja enfrentar a desigualdade de renda nos próximos anos

Mark Makela/Gettyimages
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Eleição no Senado norte-americano decidirá o trajeto que o futuro presidente terá que tomar para efetivar suas políticas econômicas

A menos de um mês da posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, os investidores concentram-se cada vez mais nas políticas econômicas do próximo governo e as chances de serem aprovadas em um Congresso dividido.

As prioridades da nova administração serão muito diferentes das do presidente Donald Trump. O objetivo principal do atual presidente norte-americano era restaurar a economia dos EUA, para um crescimento acima de 3% ao ano e diminuir a perda de empregos na indústria de tecnologia. Já para Biden, a meta é combater a crescente desigualdade de renda no país e o esvaziamento da classe média.

O desafio que Biden enfrenta é descobrir o que pode ser feito para corrigir a decrescente participação da mão-de-obra norte-americana no PIB nas últimas duas décadas. A globalização e a falta de competências educacionais necessárias para uma rápida mudança tecnológica contribuíram para a desigualdade, limitando os aumentos salariais, especialmente entre os trabalhadores menos qualificados. Biden precisa identificar as políticas que possam reduzir as disparidades de renda, ao mesmo tempo em que apoiem o crescimento econômico global.

O plano econômico que Biden apresentou durante a campanha eleitoral de 2020 é o oposto da pauta republicana, que defende que cortes fiscais para as empresas e para os mais ricos estimulam os investimentos e, consequentemente, o crescimento empresarial e da classe média ao longo do tempo. Biden trouxe uma proposta fiscal mais progressiva para os contribuintes individuais e um aumento dos tributos corporativos de 21% atuais, para 28% com o objetivo de financiar uma expansão de US$ 5,4 bilhões na despesa federal durante a próxima década.

A lista de aumentos de impostos propostos para os mais ricos inclui: (i) o aumento da taxa máxima de imposto de renda para 39,6%; (ii) a tributação de ganhos de capital e dividendos para aqueles com rendimentos superiores a US$ 1 milhão ao ano; (iii) a tributação de ganhos de capital não realizados e o encerramento do subsídio de base escalonada, além da (iv) aplicação de um imposto de seguridade social sobre os salários para os que ganham mais de US$ 400 mil por ano. Outras propostas incluíam a redução do peso da dívida estudantil e a simplificação dos processos de falências.

O plano de Biden também apelava ao aumento de direitos trabalhistas, elevando o salário mínimo para US$ 15 por hora e concedendo mais poder de negociação aos trabalhadores com as empresas. Além de incluir um plano de US$ 700 bilhões para impulsionar a atividade industrial nos EUA, que envolve US$ 400 bilhões para gastos governamentais em bens e serviços, e um investimento de US$ 300 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para veículos elétricos, 5G e inteligência artificial.

No início deste mês, Biden anunciou a equipe econômica que irá implementar suas políticas econômicas, incluindo Janet Yellen como Secretária do Tesouro e outros antigos membros das administrações Clinton e Obama.

Biden declarou que a recuperação econômica será a prioridade da administração durante os primeiros 100 dias do seu mandato. Na semana passada, a aprovação do projeto de lei de ajuda às famílias e pequenos negócios no Congresso norte-americano abordou algumas das necessidades mais urgentes, incluindo o prolongamento do subsídio do seguro desemprego até meados de março, a concessão de pagamentos direto aos cidadãos elegíveis e seus dependentes no valor de US$ 600 por pessoa e o aumento do Programa de Proteção à Folha de Pagamento (PPP, na sigla em inglês).

Biden já deixou claro que considera o pacote aprovado na última semana apenas uma amostra do necessário para a recuperação dos EUA. A implementação de novas políticas nesta direção, no entanto, depende do resultado das eleições para o Senado na Geórgia, em 5 de Janeiro. Caso os republicanos mantenham o controle do Senado, o programa fiscal da administração Biden será duramente pressionado.

Já se os democratas conseguirem o controle do Senado, Biden e a liderança democrata irão provavelmente exercer pressão no sentido de aumentar as despesas governamentais para reforçar a economia. Relatórios da imprensa indicam que os democratas vão lançar bases para uma lei de infraestrutura no início de 2021. A Casa Branca pode conseguir chegar a um acordo com os republicanos, mesmo se o governo estiver dividido: o Senador McConnell, líder republicano no Senado, deixará a porta aberta aos democratas para assegurar fundos adicionais aos governos estaduais e municipais, em troca de proteções de responsabilidade civil para as empresas afetadas pela pandemia.

Os planos para aumentar os impostos pessoais e empresariais podem ser adiados por duas razões. Em primeiro lugar, a iniciativa vai na contramão dos esforços para reforçar a economia. Segundo, é provável que encontrem forte resistência não só dos republicanos, mas também dos democratas moderados.

Por outro lado, há também incertezas quanto à eficácia na correção das desigualdades pelo aumento do salário mínimo e apoio a uma maior sindicalização dos trabalhadores para promoção do programa “Buy America” ou “Comprem da América”, em tradução livre. Para serem bem sucedidos, os programas devem contrariar as forças da globalização e as mudanças tecnológicas mencionadas anteriormente.

Os que argumentam em favor da necessidade de uma maior sindicalização para restaurar o poder de negociação que a mão-de-obra perdeu nas últimas duas décadas têm de reconhecer que o aumento da concorrência com a mão-de-obra do exterior, especialmente da China, é um fator chave. A administração Biden pode, portanto, estar disposta a manter as tarifas que o presidente Trump impôs às importações chinesas a fim de diminuir algumas das pressões competitivas que os trabalhadores dos EUA enfrentam.

O restabelecimento das relações com os parceiros comerciais tradicionais é também uma prioridade da nova administração. Em relação à política comercial de Trump, a principal diferença é que Biden vê o comércio internacional como uma forma de apoiar o crescimento global e não como um jogo de tabuleiro.

No fim das contas, os investidores provavelmente irão julgar as políticas da administração Biden pelo seu impacto na economia dos EUA, não pelo fato de reduzirem, ou não, as desigualdades de renda. Atingir este último objetivo, contudo, irá ressoar com o eleitorado norte-americano daqui a quatro anos.

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