Por dentro da ideia bilionária para eliminar os cartões de crédito

Max Levchin, da Affirm, deu nova roupagem ao método compre agora e pague depois.

Jeff Kauflin
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John Lamparski/Getty Images
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O cofundador e CEO do Affirm Holdings, Max Levchin, em visita ao evento “Countdown To The Closing Bell” em Nova York, novembro de 2019

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Em 26 de abril de 1986, Max Levchin, de 10 anos, e sua família moravam em Kiev, Ucrânia – 145 quilômetros ao sul da usina nuclear de Chernobyl. Enquanto o governo soviético lutava para encobrir a escala do desastre, a mãe de Levchin, uma física, entendeu o risco da radiação e imediatamente despachou Max e seu irmão para viver com sua avó na Crimeia, a centenas de quilômetros de distância. Cinco anos depois, a família chegou a Chicago como refugiada judia com apenas US$ 700; o rublo havia entrado em colapso e o governo havia limitado a quantidade de dinheiro que as pessoas poderiam tirar do país.

“Parte da experiência de vir para os EUA de um país socialista é que eu simplesmente não estava preparado para muitas das coisas que existiam aqui, boas e ruins”, diz Levchin. “Tive meu primeiro cartão de crédito alguns anos depois de vir para a América e imediatamente destruí meu crédito, porque não tinha ideia de como usar essa ferramenta.” Ele falou no dia 13 de janeiro, quando a Affirm Holdings –a fintech do tipo compre agora e pague depois que Levchin cofundou e dirige como CEO – se tornou pública. As ações dobraram naquele dia para US$ 96, fazendo com que a empresa chegasse a uma avaliação de US$ 24 bilhões, e sua participação valesse US$ 2,5 bilhões.

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Ele conversou com a Forbes do Havaí, onde está com sua esposa e dois filhos desde as férias de dezembro. Ele está descalço, usando shorts de ginástica e uma camiseta preta da Affirm. O guarda-roupa é a única coisa remotamente descontraída nesse empreendedor em série. Um prodígio da matemática com ímpeto de imigrante, ele cofundou o PayPal, que revolucionou os pagamentos online, aos 23 anos. Seus empreendimentos incluem o Yelp, que presidiu até 2015; o Slide, um serviço de compartilhamento de mídia que ele vendeu ao Google por US$ 182 milhões em 2010; e o Glow, um aplicativo de rastreamento de fertilidade. Seu regime obsessivo de condicionamento físico e ciclismo –muito diferente do que ele descreve como uma infância doentia– foi o assunto de um artigo de 2014 na revista “Men’s Fitness”.

Ainda assim, aos 45 anos, Levchin é indiscutivelmente um bilionário que começou tarde. Outros fundadores do PayPal (também conhecidos como a máfia do PayPal) há muito tempo alcançaram o status de dez dígitos; Elon Musk, Peter Thiel e Reid Hoffman valem hoje US$ 190 bilhões juntos.

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Agora Levchin finalmente conseguiu, graças ao aumento do comércio online durante a pandemia e uma visão que teve há quase uma década. Baseando-se em suas próprias desventuras iniciais com crédito, Levchin concluiu que o senso comum – ou seja, que millennials endividados na Grande Recessão eram alérgicos a cartões de crédito e débito– estava errado. Não foi a dívida ou mesmo, notavelmente, as altas taxas de juros que os fizeram fugir. Eles odiavam certos aspectos dos cartões de crédito: multas por atraso, grandes bancos (lembram do Occupy Wall Street?) e o fato de que era enganosamente fácil acumular muitas dívidas –especialmente para aqueles que não entendiam como os juros se acumulam em cartões.

As taxas de juros da Affirm não são baixas, necessariamente –variam de 0% a 30% ao ano, dependendo da qualidade de crédito do mutuário e se um comerciante está subsidiando pagamentos sem juros. Mas a empresa nunca cobra multas e mostra aos compradores antecipadamente os juros totais que eles pagarão por uma compra específica, com pagamentos fixos que duram normalmente de três a 12 meses –ou, para grandes compras, até quatro anos. Os consumidores podem financiar instantaneamente um item caro por meio da Affirm, ao mesmo tempo em que pagam integralmente as cobranças de cartão de crédito de rotina todos os meses.

O financiamento no ponto de venda se mostrou tão atraente para os compradores mais jovens que marcas famosas, incluindo Peloton, Mirror e West Elm, agora subsidiam empréstimos em prestações sem juros por meio da Affirm. Os pagamentos de varejistas representaram metade da receita de US$ 596 milhões da Affirm nos 12 meses encerrados em 30 de setembro. A empresa ainda não registrou lucro, perdendo US$ 97 milhões nesses 12 meses.

Por enquanto, porém, os investidores estão comprando crescimento e, os pagamentos do tipo compre agora pague depois serão o método com maior alta no comércio eletrônico no mundo até 2025, prevê a Worldpay. A Affirm e seus concorrentes, a sueca Klarna e a australiana Afterpay, financiaram mais de US$ 10 bilhões em transações nos EUA em 2020, contra cerca de US$ 100 milhões cinco anos atrás. Enquanto isso, os saldos dos cartões de crédito dos EUA estão caindo e os volumes de cobrança dinda estão abaixo dos níveis anteriores à Covid. Cada uma das empresas imaginou o negócio de forma um pouco diferente. Por exemplo, o Afterpay não executa verificações de crédito de clientes ou cobra juros, mas obtém 14% de sua receita de taxas atrasadas, o que Levchin abomina.

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“Provavelmente estou mais em sintonia com a ingenuidade do consumidor”, diz ele. Em uma carta aos investidores no pedido de IPO da Affirm, ele prometeu advogar contra  empresas que “vendem produtos financeiros tóxicos e obtêm lucro com os erros dos consumidores” –citando em particular o modelo de cartão de crédito que financia grandes compras sem juros, mas atinge o cliente com juros adiados se a conta não for paga a tempo.

Ao longo dos anos, Levchin deu muita importância à sua própria história de imigrante infeliz. Conforme conta, ele acabou no programa de ciência da computação da Universidade de Illinois porque seu conselheiro de escola pública nunca tinha ouvido falar de “MTI”, a escola que ele queria frequentar. (Ele embaralhou “MIT” ao traduzir de um programa russo que viu quando era criança.)

Levchin lançou várias startups fracassadas durante e após a faculdade antes de ir para o Vale do Silício, onde atraiu o interesse de Thiel por seu trabalho de criptografia. No PayPal, criou uma maneira de transferir dinheiro com segurança de um dispositivo para outro (começando com o PalmPilot) e mais tarde ajudou a projetar um sistema crucial para detectar fraudadores. Levchin era CTO quando o PayPal abriu capital em 2002. Nessa época, ele havia levantado várias rodadas de financiamento e se fundido com a startup de Musk, a X.com. Quando o eBay adquiriu o PayPal por US$ 1,5 bilhão alguns meses depois, Levchin saiu com US$ 33 milhões por sua participação de 2,2%. Ele supostamente ganhou uma quantia semelhante com o Slide, que o Google fechou em 2011, um ano depois de comprá-lo.

Em 2012, Levchin estava debatendo ideias de startups com amigos quando Alex Rampell, então CEO da empresa de pagamentos TrialPay, sugeriu um serviço que poderia tornar mais fácil o financiamento de compras online avaliando o risco com base em perfis do Facebook. Rampell, Levchin, o cofundador da Palantir Nathan Gettings e o empresário em série Jeff Kaditz – que Levchin conheceu através do ciclismo– se tornaram os cofundadores da Affirm e começaram a trabalhar em algoritmos de empréstimo.

Quando a equipe decidiu em 2014 oferecer seus próprios empréstimos –e, finalmente, outros produtos bancários também – Levchin tornou-se CEO. “Se você quer construir um banco, precisa ser capaz de levantar muito dinheiro, e Max é basicamente um empresário famoso”, diz Kaditz. Em meados de 2015, a Affirm levantou US$ 325 milhões em dívidas e ações de investidores, incluindo Thiel e a Lightspeed Venture Partners.

O crescimento anterior à Covid veio aos trancos e barrancos, pois a Affirm contratou novos comerciantes importantes. Emitiu US$ 2 bilhões em empréstimos em 2018, mas estava queimando dinheiro. Em 2019, havia levantado U$ 1,1 bilhão em dívidas e ações, e sua avaliação era de US$ 2,9 bilhões, de acordo com o PitchBook. “Qualquer outra empresa teria lutado desde o início para continuar levantando dinheiro”, disse um capitalista de risco que rejeitou a Affirm. “Max montou uma máquina com uma estrutura de custos que precisava de muito volume para funcionar.”

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A pandemia entregou o volume, mas ainda não os lucros. Entre novembro de 2019 e julho de 2020, os clientes americanos da Affirm quase dobraram, para 5,6 milhões. O volume de empréstimos nos 12 meses encerrados em 30 de setembro atingiu US$ 5,3 bilhões – com uma grande assistência do Peloton. O vendedor de bicicletas de exercício para uso doméstico com mais de US$ 2.000 viu as vendas quase triplicarem no verão passado em relação ao ano anterior. No terceiro trimestre, a Peloton foi responsável por 30% da receita da Affirm. Sem ele, o crescimento da Affirm naquele trimestre teria sido de 61% em vez de 98%, calcula Bill Ryan, diretor administrativo da Compass Point.

Claramente, a Affirm será desafiada a corresponder às expectativas de sua avaliação (oito dias após a abertura do capital) de US$ 26 bilhões –atualmente a empresa é rotulada como fintech não credora. Para manter o crescimento, Levchin fez algumas mudanças grandes e caras. Em julho, em um acordo para se tornar o serviço de financiamento parcelado exclusivo para comerciantes da plataforma de e-commerce Shopify nos EUA, a Affirm concedeu à Shopify garantias de 5% de seu patrimônio –títulos agora no valor de US$ 2 bilhões. Em dezembro, a Affirm comprou a canadense PayBright por US$ 264 milhões.

Enquanto isso, a concorrência pode pressionar as taxas da Affirm – ela fica com cerca de 6% das vendas financiadas dos varejistas, em comparação com 4% a 5% da Afterpay e 3% a 4% da Klarna. E as empresas de cartão de crédito estão reagindo: JPMorgan Chase, Citi e outros começaram a convidar alguns clientes a converter grandes compras em empréstimos parcelados separados – na verdade, permitindo que esses itens sejam financiados sem sujeitar outros encargos de cartão a juros. Então, o ambiente de empréstimos também pode mudar, com as taxas de juros eventualmente subindo, e as taxas de inadimplência da Affirm (atualmente baixas, em cerca de 4%) possivelmente aumentando.

Em última análise, como outras fintechs que começaram com foco em um segmento, a Affirm tem como objetivo lucrar vendendo mais serviços financeiros para uma base de clientes fiéis que compram seu discurso de transparência de taxas. Em junho, ela começou a oferecer uma conta poupança de alto rendimento, sem mínimo e sem taxas. Agora que tem US$ 1,2 bilhão do IPO em caixa, o que vem a seguir? Pode ser apenas um cartão de crédito amigo da geração do milênio reimaginado.

 

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