Depois da falência, casal capixaba quer revolucionar o mercado de cafés e se tornar a Starbucks brasileira

Nanda Ferreira
Nanda Ferreira

Brunna Farizel e Lucas Moreira fundaram a Splash Bebidas Urbanas em 2018

Para os norte-americanos, há um Starbucks em cada esquina. Pelo menos é isso que as pessoas dizem quando brincam sobre a quantidade de unidades da cafeteria nos Estados Unidos. Atualmente, já são cerca de 14 mil lojas – talvez a piada tenha um fundo de verdade. No entanto, no restante do mundo, a presença da marca é bem mais modesta. No Brasil, são cerca de 115 unidades. E é exatamente essa meta que a Splash Bebidas Urbanas quer superar.

“Seremos a maior cafeteria do Brasil”, profetiza Lucas Moreira, que fundou a empresa em 2018 junto de sua esposa Brunna Farizel. “Já estamos com 65 unidades e planejamos terminar o ano com 100. Isso, por enquanto, apenas no Sul e no Sudeste. A ideia é expandir para o Norte e Nordeste e, quem sabe, chegar ao marco de 300 lojas no ano que vem. Ainda temos um oceano azul de oportunidades.”

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De certa forma, pode-se dizer que a maré realmente está boa para o casal capixaba nos últimos tempos. Em 2019, quando o negócio tinha pouco menos de um ano, Moreira e Brunna conquistaram o primeiro investimento, do grupo de empresas GMT. Já em 2020, em plena pandemia, Rogério Salume, fundador e sócio do e-commerce de vinhos Wine.com.br, decidiu embarcar no negócio e se tornar sócio-investidor. Coincidência ou não, após esses dois episódios, a rede cresceu 323% em unidades e 190% em faturamento – R$ 22 milhões em 2020, com o objetivo de aumentar essa receita em 200% em 2021. Além disso, os empreendedores revelam que estão em processo de captação de novos recursos para ajudar na expansão.

No entanto, não foi fácil chegar até este cenário de números positivos. Para o casal, o momento atual vai muito além de uma satisfação pura e simples: é hora de sentar e respirar com alívio após uma série de desventuras, como falência e muitas dívidas, ao longo do caminho. “No primeiro negócio que tivemos, pulamos de paraquedas sem conferir o equipamento”, brinca Brunna.

O primeiro negócio da empreendedora surgiu quando ainda era recém-formada em rádio e TV e vivia um relacionamento de seis meses com Moreira, que na época cursava farmácia. “Decidimos abrir, juntos, uma empresa na área de comunicação. Nossa família, claro, não aprovou essa ideia maluca porque eramos muito jovens, então fazíamos tudo sem pedir ajuda por puro orgulho ferido”, lembra. Mas, no caso deles, a máxima de que os pais sempre têm razão acabou se mostrando acertada. A Chip Comunicação, fundada em 2008 com foco em eventos, começou a dar dor de cabeça logo no primeiro mês.

“Nós não tínhamos conhecimento. Achávamos que, para empreender, era preciso ter um escritório bonito e arrumado. Alugamos um espaço e tínhamos a ilusão, com o otimismo nas alturas, de que após o primeiro trabalho as coisas fluiriam naturalmente”, lembra Moreira, que trancou a faculdade para se dedicar ao negócio. Obviamente, as coisas não aconteceram como o casal esperava. “O dinheiro não entra do dia para a noite. Os processos eram demorados e, às vezes, ficávamos meses sem trabalho, com receita zero”, completa Brunna. Nesses momentos, o desespero batia com força.

Orgulhosos demais para assumirem seus erros, eles não pediram ajuda aos familiares – que até o ano passado mal sabiam dessa fase difícil. “Quando eu tranquei o curso, meus pais, que moravam no interior do Espírito Santo, disseram que eu teria que me manter financeiramente sozinho em Vitória já que tinha decidido empreender”, conta Moreira. “Além das contas do escritório, eu tinha as cobranças da minha casa, então foi um momento muito difícil. A energia de onde eu morava chegou a ser cortada porque eu precisava priorizar as contas da empresa. Era dinheiro contado para comprar pão.”

Sem recursos, decidiram viajar para São Paulo para comprar roupas e revender no estado natal. “Passávamos o dia inteiro comprando em São Paulo, como os sacoleiros. Depois, fazíamos um showroom no nosso escritório para vender tudo”, explica Brunna. Com o tempo, a necessidade desse complemento de renda era tão grande que virou um segundo negócio, batizado de Imperial. “Chegamos até a produzir algumas modelagens próprias, além de criarmos logo e etiquetas. Mas a bola de neve começou a ficar grande demais porque não entendíamos de capital de giro”, completa Moreira.

Após três anos tentando sucesso com a Chip Comunicação e a Imperial, o saldo foi uma dívida de R$ 13 mil. “Olhando agora, sei que não era muito. Mas, para quem não tem dinheiro, é desesperador”, destaca a empreendedora. Desestimulados também com as oportunidades de carreira no Espírito Santo, os jovens decidiram então largar tudo e tentar a sorte na capital paulista. “Fomos para o lugar onde tudo acontece.”

EXISTE CHANCE EM SP?

“Chegamos a São Paulo no final de 2010 e começamos a entregar currículo em busca de um emprego com carteira assinada”, recorda Moreira. Com poucos móveis e sem internet em casa, o casal visitava, diariamente, uma lan house do bairro onde moravam. Era a única forma de imprimir os currículos e checar vagas em sites de emprego. Visitando as regiões mais comerciais da capital, Brunna conseguiu uma vaga em uma loja de móveis de luxo, enquanto seu companheiro acabou sendo mais instável e passou por diversas empresas – principalmente franquias.

O primeiro trabalho que Moreira encontrou na cidade foi marcado por situações inusitadas. Quem conta é Brunna. “Ele fez o processo seletivo, que exigia carro próprio. Na época, tínhamos apenas dívidas. Mas ele não desistiu. Passou por todas as etapas e foi contratado. Era uma vaga de vendedor de campo, por isso era preciso ter um meio de transporte. Então, ele ia à lan house, anotava os endereços que precisaria visitar no dia seguinte, fazia um mapa à mão e ia de transporte público mesmo.” Por mais difícil que tenha sido, o resultado foi o reconhecimento como o melhor vendedor da empresa no final daquele ano.

“Eu também estava bem no meu emprego, então, no primeiro ano de trabalho formal, já conseguimos quitar nossas dívidas”, diz a empreendedora. Pouco tempo depois, o casal conquistou o tão esperado carro e, assim, a vida foi se estabilizando novamente. “Mal tínhamos tempo de pensar em empreender de novo e, para ser sincera, eu estava um pouco traumatizada. A tranquilidade de ter o salário caindo na conta todo mês não tinha preço”, completa ela, que apenas após seis anos de CLT, quando engravidou de sua primeira filha, começou a se questionar novamente sobre o valor de um trabalho formal. “Quando eu descobri que estava grávida, a rotina acelerada do meu trabalho como vendedora começou a me incomodar.”

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Do incômodo renasceu a vontade de empreender e, das experiências em franquias e empresas alimentícias de Moreira, a ideia de criar uma cafeteria. “Alimentação é um segmento que sempre sobrevive em momentos de crise. Um exemplo foi a pandemia, algo que nem imaginávamos em 2018, mas que fez os sistemas de delivery bombarem em 2020”, diz ele. “Além disso, cafeterias são mais práticas do que restaurantes, que necessitam de uma complexidade maior para a criação na cozinha. A partir disso, comecei a estudar a Starbucks e pensar que podíamos fazer um modelo parecido, mas com a cara do Brasil.” E foi assim que, em 2018, a Splash Bebidas Urbanas nasceu.

“Colocamos o complemento ‘bebidas urbanas’ porque não somos uma cafeteria convencional. Somos uma marca com muitos produtos que vão além do café expresso. Inclusive com uma linha própria, que vai desde copos decorativos até cápsulas de chá e café”, revela Brunna. No mais, embora a primeira unidade da empresa tenha sido na avenida Paulista, uma das estratégias para se destacar é investir nas cidades pequenas. “A Starbucks não atende essas cidades”, brinca o cofundador. “Nós abrimos espaço em locais com 40 mil habitantes que são um sucesso. Não tem muita concorrência e os moradores gostam de conhecer algo novo.”

Mas expandir para o interior – como o casal bem sabe – não foi uma tarefa repentina. “O primeiro ano da empresa não foi perfeito. No final de 2018, tínhamos que pagar o 13º dos funcionários e vendemos nosso carro para bancar esse custo. Duas semanas depois, três colaboradores pediram demissão e nós precisamos arcar com as rescisões. Foi um período difícil. Trabalhamos com uma equipe minúscula porque não tínhamos como contratar mais pessoas”, conta Moreira. Na época, com uma unidade própria e dois franqueados, eles se preocuparam com o futuro do negócio e a possibilidade de uma nova falência. Mas não foi assim.

A partir de 2019, com a primeira captação de investimento, as coisas começaram a decolar e, ironicamente, o período mais promissor foi durante a pandemia. “Claro que ficamos preocupados com a chegada da pandemia ao Brasil. Mas, em abril, decidimos levantar a cabeça e agir. Com isso, escrevemos um livro sobre a nossa história e criamos estratégias para sobreviver à crise”, revela Brunna.

Com a intenção de passar credibilidade para os futuros franqueados, o casal passou a fazer o contato inicial com os interessados no negócio. Para sua surpresa, a demanda estava ainda maior do que na pré-pandemia. A explicação para isso, segundo os empreendedores, era a incerteza no mercado formal por conta das altas taxas de demissão – além, é claro, do boom do delivery e da queda no preço dos pontos comerciais. “Para quem podia, era a melhor hora para empreender, principalmente em se tratando do setor alimentício”, destaca o empreendedor.

Bem-humorada, Brunna entende que eles passaram pela crise antes do mundo inteiro. Após experiências fadadas ao fracasso no passado, o casal aprendeu com os erros e, hoje, consegue enxergar o empreendedorismo com leveza – embora ainda sonhe alto com a expansão da cafeteria. Para eles, a meta é tropicalizar a piada norte-americana sobre Starbucks. Quem sabe um dia seja possível encontrar uma Splash em cada esquina? “Nós continuamos ousados, mas antes de pular checamos se o sistema de segurança está funcionando”, brinca a empreendedora.

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