Os inesperados bilhões do IPO da Coupang

Discreta empresa familiar de Clay Christensen e investidora que fez história no Softbank estão entre os grandes ganhadores com a empresa que é a resposta da Coreia do Sul à Amazon.

Alex Konrad
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Bom Kim, CEO da Coupang, startup sul-coreana criada em resposta à Amazon

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Quando o CEO da Coupang, Bom Kim, era primeiranista da Harvard Business School, ele ligou para um ex-colega de trabalho, Matthew Christensen, para falar sobre uma ideia de startup. Nascido na Coreia do Sul, Kim havia vendido seu empreendimento anterior, uma revista voltada a ex-alunos de Harvard, e a viu ser encerrada. Para sua próxima empresa, ele queria voltar a Seul e abrir uma que oferecesse descontos à moda da Groupon.

Christensen, filho do famoso guru acadêmico e empresarial Clayton Christensen, tinha feito amizade com Kim quando ambos trabalhavam no Boston Consulting Group. Ele havia investido pessoalmente no negócio de mídia anterior de Kim “sem muito otimismo” e depois manteve contato com o amigo. A primeira reação do Christensen mais jovem: ideia interessante, mas termine a pós-graduação. Mesmo assim, Kim foi persistente. Na terceira conversa, Christensen mudou de tom: “Você tem que sair daqui”, disse ele a Kim em 2010. “Precisa começar já.” E Kim fez isso, abandonando a universidade para fundar a Coupang. Christensen investiu pouco depois, com base em nada mais do que um PowerPoint.

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Quando, no dia 11 de março, a Coupang abriu o capital por meio de um IPO à moda antiga na Bolsa de Valores de Nova York, o empresário de 42 anos levantou US$ 4,55 bilhões no maior IPO de uma empresa asiática estreante nos EUA desde a Alibaba em 2014; seu patrimônio líquido atingiu momentaneamente US$ 11 bilhões, antes de encerrar a semana em mais de US$ 8 bilhões. Christensen tinha seus próprios motivos para comemorar. Sua firma Rose Park Advisors – discreta, com apenas um site e sem cobertura da imprensa – possuía 5,1% da Coupang no IPO, participação que valia mais de US$ 4 bilhões no fechamento do mercado na sexta-feira.

Conforme detalhado pela primeira vez no informativo Midas Touch do domingo seguinte, a Rose Park é um dos mais improváveis grandes ganhadores com a ascensão da Coupang, que gerou receita de US$ 12 bilhões no ano passado e encerrou a semana com capitalização de mercado de US$ 83 bilhões. No entanto, os Christensen não são os únicos investidores a obter um ganho histórico, nem os maiores. A Greenoaks Capital, fundada por Neil Mehta, que já fez parte da lista 30 Under 30, detinha uma participação de 16,6%, que hoje vale quase US$ 14 bilhões; a Maverick Ventures, que financiou a Coupang em 2011, detinha 6,4%, participação que vale mais de US$ 5 bilhões. No SoftBank, a enorme posição da investidora Lydia Jett na Coupang não apenas validou a estratégia controversa do fundador, Masayoshi Son, como também fez história.

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Especialista em comércio eletrônico, Jett despejou US$ 2,7 bilhões na empresa entre 2015 e 2018, acumulando uma participação de cerca de 33% na Coupang. No dia do IPO, o Vision Fund de Son detinha uma posição avaliada em mais de US$ 27 bilhões. Essa não é apenas, muito provavelmente, a maior posição de retorno de caixa para uma mulher investidora em startup – é uma das maiores para qualquer pessoa em qualquer época.

“Ganhamos a confiança de que, se fizéssemos um investimento dessa escala na Coreia do Sul, aliado a essa equipe de gestão, criaríamos algo que seria muito difícil de repetir”, diz Jett. “Estamos entusiasmados com a comprovação dessa tese.”

O legado de Clay Christensen

Fundada em 2007, a Rose Park foi lançada com uma estratégia simples: investir o dinheiro da família Christensen e de amigos em empresas que se encaixassem nas pesquisas do Christensen mais velho. Nascido em Salt Lake City, Utah (o bairro de sua infância inspirou o nome da empresa), Clayton Christensen havia estudado na Universidade Brigham Young e na Universidade de Oxford, como bolsista Rhodes, antes de obter seu MBA na HBS. Trabalhou como consultor no BCG, foi cofundador de uma startup de materiais com acadêmicos do MIT e de um think tank de políticas públicas e acabou fazendo carreira acadêmica. Seu livro “O Dilema da Inovação”, publicado em 1997, tornou-se um manual fundamental para uma geração de empreendedores e, em 2011, Christensen saiu na capa da Forbes norte-americana.

Como havia um fluxo constante de investidores e empresários que levavam empresas para Christensen avaliar como possíveis “inovadoras disruptivas”, ele se juntou ao filho Matthew, um ex-jogador de basquete da Universidade Duke que tinha seguido seu caminho no BCG, na HBS e no think tank, para investir naquelas que se enquadrassem nas métricas deles. Segundo Matthew Christensen, ele e os dois irmãos já tinham ajudado o pai a explicar suas pesquisas e editar seus livros.

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Ao estruturarem a Rose Park como um fundo perene em vez de um fundo de risco típico, os Christensen puderam investir em um mix de empresas de capital aberto e de capital fechado, desenvolvendo uma carteira que inclui a Netflix e a Salesforce, startups como a HireVue e a CircleUp, e empresas que, de lá para cá, abriram o capital, entre as quais a Coupang e a DocuSign.

“Podemos investir em qualquer tipo de título de qualquer região, de qualquer setor e em qualquer estágio, mas só quando a tese de investimento deriva das pesquisas do meu pai”, diz Christensen. “Então, se achamos algo bem interessante por outros motivos, temos que deixar de lado.” Quando Kim decidiu lançar a Coupang, a experiência do empresário com sua revista deu a ele o que o referencial de Clayton Christensen classificaria como uma forte “escola de experiência” – um dos critérios de Christensen para avaliar administradores –, dado o trabalho de Kim na gestão dos redatores e dos interesses comerciais da revista, diz hoje Matthew Christensen. Conselheiro da Coupang, ele esteve ao lado de Kim todos esses anos. “A transição de mercado para varejo exigiu muitas manobras, uma quantidade insana de trabalho, raciocínio e criatividade”, afirma Christensen.

Desde a morte do pai, em janeiro de 2020, Christensen é o único sócio da Rose Park. Seus familiares, inicialmente os únicos financiadores do fundo perene, continuam sendo os maiores sócios de responsabilidade limitada, diz ele. A estrutura de sua firma, incomum para capital de risco, ajudou a afastar qualquer pressão no sentido de vender ações durante seu compromisso de 11 anos; em função disso, apesar de a Rose Park ter obtido sua participação logo no início, Christensen não tem planos de vender tão cedo.

Jett mostra o caminho

Hoje, o Vision Fund do SoftBank, de US$ 100 bilhões, tem triste fama nos círculos da tecnologia pelos cheques gigantescos e os laços estreitos com a WeWork, um unicórnio do coworking em decadência. Porém, quando Jett conheceu a Coupang, em 2015, o Vision Fund ainda não existia. Jett tinha passado pelo Goldman Sachs e o JP Morgan e era uma nova integrante de um pequeno grupo da SoftBank Investment Advisers que na época era comandado por Nikesh Arora, hoje CEO da Palo Alto Networks, e que havia acabado de liderar um investimento de US$ 1 bilhão na startup sul-coreana.

Quando o Vision Fund foi lançado, em 2017, o investimento do SoftBank na Coupang foi transferido para o novo fundo. Naquele mesmo ano, Jett e o Vision Fund emitiram um cheque de tamanho semelhante para a Fanatics, varejista online norte-americana focada em esportes, e depois fizeram uma aposta geral de US$ 2,5 bilhões na empresa indiana de comércio eletrônico Flipkart.

Quando chegou a hora de olhar para a Coupang novamente, em 2018, Jett, que agora dava as cartas, foi mais cautelosa. Depois de nove meses de due diligence, ela se convenceu de que Kim conseguiria alocar de forma responsável outros US$ 2 bilhões para executar a transição da empresa para varejista online e física plena (hoje, ela opera mais de 100 centros de distribuição). O debate na parceria do Vision Fund e no SoftBank sobre a posição – que, para o Vision Fund, acabou sendo de US$ 2,7 bilhões após a transferência – foi intenso. Mas Son, o tomador final de decisões, mudou de posição. “O Masa conseguiu encontrar convicção e ser um forte apoiador”, acrescenta Jett.

Em 3 de março de 2020, a Coupang se apresentou no “Pre-IPO Summit” do SoftBank, evento no qual Son exibiu algumas das principais empresas da carteira da firma a figuras-chave de Wall Street que estavam a par do IPO. A Coupang, que fez uma apresentação virtual devido à Covid-19 na Coreia do Sul, não estava pensando seriamente em suas próprias ambições de IPO naquele momento, diz Jett. E não demorou para a Coupang ter outros problemas para enfrentar, como a necessidade premente de responder à demanda recorde de seus clientes e às preocupações de seus trabalhadores com a segurança.

Tudo isso custou caro. O Serviço de Previdência e Remuneração dos Trabalhadores Coreanos determinou que a morte de um funcionário em outubro de 2020 foi relacionada ao trabalho; a Coupang aceitou o veredito e prometeu ajudar a família do trabalhador. No início de março, o “Financial Times” informou que oito pessoas empregadas pela Coupang morreram no ano passado devido a condições de trabalho adversas. A empresa gastou centenas de milhões com tecnologia de segurança, segundo Jett, durante um período “incrivelmente doloroso e desafiador”. “Eles estão muito focados e vêm fazendo pesados investimentos na proteção das pessoas, mas isso tem sido difícil, sem dúvida”, comenta ela. “Eu pensei que estaríamos aqui? Não, não estávamos falando de IPO um ano atrás. Não estávamos falando de IPO no verão passado. Não acredito que estamos aqui.”

Contudo, os negócios da Coupang dispararam durante a pandemia, com um faturamento 90% maior sobre prejuízos cada vez menores. E, com os mercados de capitais voltando a correr – se é que realmente chegaram a desacelerar – atrás de ações de tecnologia, IPOs e SPACs, as ações da Coupang saltaram 40% em seu primeiro dia de negociação. A posição combinada do SoftBank fechou a semana com valor de cerca de US$ 25 bilhões.

Para Jett, a transação é “absolutamente uma validação” da estratégia de cheques grandes que o Vision Fund colocou em prática nos últimos anos e que enfrentou um coro mais intenso de dúvidas na primavera passada, quando Son disse à Forbes que sua estratégia continuava a mesma, apesar das dúvidas sobre se sua holding estava vendo o nascer ou o pôr do sol.

“Na Coreia, acreditávamos que, se assinássemos um cheque bem grande, poderíamos criar algo incomparável. Isso é mais difícil de fazer em mercados com a profundidade dos Estados Unidos e da China”, diz Jett. “Então, eu faria de novo, sem dúvida. Faria de novo, no mercado certo.”

Reportagem publicada na edição 85, lançada em março de 2021

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