O que faz uma banda - ou uma sociedade - durar?

A morte do baterista dos Rolling Stones Charlie Watts é uma perda enorme para o rock e para um grupo que consegue se manter no topo há quase seis décadas.

Beatriz Calais
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Dave Hogan
Dave Hogan

Mesmo com desavenças, a banda conseguiu se manter no topo por quase 60 anos

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Morreu ontem (24), aos 80 anos, Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones. A causa da morte não foi divulgada, mas recentemente o músico tinha passado por um procedimento cirúrgico (também não detalhado à imprensa) – na ocasião, seu representante informou que ele estaria fora da próxima turnê, prevista para começar em 26 de setembro. Seria a 54ª turnê em 59 anos da banda. Um caso exemplar de parceria bem sucedida em termos de resultados e longevidade.

Os Rolling Stones surgiram em julho de 1962, a partir da amizade entre Mick Jagger e Keith Richards. Charlie Watts entrou como membro oficial no ano seguinte. Juntos, os três músicos eram os membros mais antigos da banda — Brian Jones, da formação original, saiu em 1969 e foi substituído por Mick Taylor até 1974, quando houve a entrada de Ronnie Wood.

LEIA MAIS: Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, morre aos 80 anos

Não foi uma história sem conflitos. São conhecidas desavenças pontuais, como quando Watts e Jagger brigaram e acabaram aos socos em um hotel na Holanda, em 1984. No entanto, ainda assim a banda conseguiu se manter no topo por quase 60 anos. Segundo um levantamento feito pela Pollstar e pela Billboard, os Rolling Stones faturaram US$ 3 bilhões com a venda de ingressos entre 1989 e 2019.

Em 2020, em meio à pandemia, eles se apresentaram no festival online “One World: Together at Home”, transmitido para o mundo todo. E, como se um show não fosse o bastante, ainda lançaram, em setembro do mesmo ano, a primeira loja da banda, no centro de Londres. Situada em Carnaby Street, no Soho, ela vende de discos a t-shirts dos Rolling Stones — uma amostra da força de uma marca que vendeu mais de 250 milhões de álbuns. “Qualquer banda que fica desse tamanho vira uma empresa”, diz o jornalista e crítico musical André Barcinski.

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Para Barcinski, esse aspecto comercial é essencial para entender a durabilidade do grupo. “Não dá para analisarmos como se eles fossem simplesmente uma banda de colegas. Chega uma hora em que os negócios falam mais alto”, diz. “O próprio Charlie Watts não queria fazer alguns shows. Ele sempre disse que odiava tocar ao ar livre em festivais, mas era necessário para a banda, então ele concordava. Nem sempre era uma decisão dele, mas bandas desse tamanho não podem parar de repente. Os Rolling Stones empregam milhares de pessoas.”

Mesmo quando se trata de empreendedorismo, manter um negócio no topo por tanto tempo como os Rolling Stones não é para todos. Além de referência musical, eles podem ser encarados como um exemplo de sucesso para sociedades profissionais de diversas áreas.

Leonardo Vilela, advogado especializado em direito empresarial e tributário, está acostumado a atender empresas em crise por problemas internos entre sócios e herdeiros. E já consegue visualizar alguns padrões de erros e acertos. Na galeria abaixo, ele lista 4 segredos para uma sociedade duradoura:

  • Getty Images

    Ser capaz de gerar lideranças

    “Líderes precisam formar outros líderes e dar espaço para essas pessoas se desenvolverem”, diz o advogado. Segundo ele, essa questão pode ser melhor visualizada quando se trata de herdeiros. Quando o dono de uma empresa morre e a gestão fica na mão dos herdeiros, eles nem sempre foram treinados para liderar. Sendo assim, se um empreendedor visa a deixar seu negócio como um legado, que continue na ativa mesmo após a sua morte, é preciso formar sucessores. Treinar líderes para que a empresa continue forte mesmo com a falta de alguns membros. “A primeira geração cria os alicerces, a segunda fortalece e a terceira diversifica e expande. Isso em empresas mais tradicionais”, explica ele.

    No caso dos Rolling Stones, os músicos não planejam deixar a banda para seus herdeiros. Mas contam com uma equipe talentosa de substitutos. No início de agosto, quando Charlie Watts revelou que não poderia participar da próxima turnê por conta de um problema de saúde, o baterista fez questão de ressaltar que o músico norte-americano Steve Jordan o substituiria. Em comunicado oficial para a imprensa, ele disse: “Eu realmente não quero desapontar os fãs do Stones que já estão com seus ingressos com mais um anúncio de adiamento ou cancelamento. Por isso, pedi ao meu grande amigo Steve Jordan para me substituir.” Seja em empresas ou em bandas, um líder sempre sabe preparar outro profissional para que o trabalho não dependa apenas de uma pessoa.

  • Getty Images/Luis Alvarez

    Criar uma afeição societária

    “Uma sociedade é um casamento”, diz Vilela. “Você tem que ter vontade de estar junto de seu sócio. É assim que se cria cumplicidade e confiança.” Para as empresas que lidam com o distanciamento entre os sócios, é muito mais difícil passar por crises e resoluções de problemas sem que haja uma ruptura interna. “Temos pouquíssimas empresas centenárias aqui no Brasil. Às vezes o negócio começa com os pais, mas quando passa para a segunda geração, os primos não se dão bem. E tudo vai por água abaixo.”

    Nem sempre é fácil lidar diariamente com outra pessoa. Em quase 60 anos de história, os Rolling Stones também passaram por altos e baixos, principalmente Charlie Watts e Mick Jagger, que até já trocaram socos segundo um relato descrito na obra “Vida”, a autobiografia do guitarrista Keith Richards, publicada em 2010. No entanto, nos últimos anos, os músicos mostraram o quanto valorizavam a amizade um do outro. “Acho que a idade nos suavizou um pouco. Mick é uma ótima pessoa se você estiver com algum problema”, disse Watts ao jornal britânico “The Daily Record” em 2012. Em 2015, quando um fã do Twitter perguntou se ele estava cansado de ver o traseiro de Jagger após tantos anos, ele respondeu: “Não. É uma das melhores vistas do país”.

  • Getty Images/miodrag-ignjatovic

    Ter amor pelo negócio

    O que uniu os Rolling Stones foi a música. E, para Vilela, é nessa origem que se esconde um dos maiores segredos para a durabilidade de uma empresa. Embora Charlie Watts fosse um amante do jazz, sua paixão geral era a música. E, com os Rolling Stones, ele podia fazer muito dinheiro tocando, o que deixa tudo ainda mais favorável. “Eles tinham um gosto em comum e geravam fortuna a partir disso”, diz o advogado. Para os músicos, era uma vantagem gigantesca manter a banda ativa. Quando se trata de empreendedorismo, a visão precisa ser a mesma: sem gosto pelo negócio, é muito mais difícil superar crises.

  • Getty Images

    Ter capacidade de adaptabilidade

    Segundo Vilela, muitas sociedades dão certo momentaneamente, enquanto os resultados são positivos. “Quando as coisas estão bem, é muito fácil trabalhar”, diz. Mas, atendendo diversas companhias em recuperação judicial, ele sabe o quanto uma crise é capaz de destruir os arranjos entre sócios.

    Sendo assim, o segredo é ter adaptabilidade e entender que nem sempre o cenário vai ser favorável. Se planejar para momentos de incertezas é essencial para que sócios não sejam pegos de surpresa e comecem a jogar a culpa um no outro. Tudo pode mudar a qualquer momento – e eles precisam estar de acordo quanto a isso. Talvez esse também seja o segredo para uma banda de rock fazer sucesso por tantas gerações: saber se adaptar ao meio.

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Ser capaz de gerar lideranças

“Líderes precisam formar outros líderes e dar espaço para essas pessoas se desenvolverem”, diz o advogado. Segundo ele, essa questão pode ser melhor visualizada quando se trata de herdeiros. Quando o dono de uma empresa morre e a gestão fica na mão dos herdeiros, eles nem sempre foram treinados para liderar. Sendo assim, se um empreendedor visa a deixar seu negócio como um legado, que continue na ativa mesmo após a sua morte, é preciso formar sucessores. Treinar líderes para que a empresa continue forte mesmo com a falta de alguns membros. “A primeira geração cria os alicerces, a segunda fortalece e a terceira diversifica e expande. Isso em empresas mais tradicionais”, explica ele.

No caso dos Rolling Stones, os músicos não planejam deixar a banda para seus herdeiros. Mas contam com uma equipe talentosa de substitutos. No início de agosto, quando Charlie Watts revelou que não poderia participar da próxima turnê por conta de um problema de saúde, o baterista fez questão de ressaltar que o músico norte-americano Steve Jordan o substituiria. Em comunicado oficial para a imprensa, ele disse: “Eu realmente não quero desapontar os fãs do Stones que já estão com seus ingressos com mais um anúncio de adiamento ou cancelamento. Por isso, pedi ao meu grande amigo Steve Jordan para me substituir.” Seja em empresas ou em bandas, um líder sempre sabe preparar outro profissional para que o trabalho não dependa apenas de uma pessoa.

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