Plataforma de "crowdfunding 2.0” permite que seguidores lucrem junto com criadores de conteúdo

Com sete projetos disponíveis, Divi-hub já movimenta R$ 20 milhões e promete retorno médio de 10% ao ano.

Isabella Velleda
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Bibi Tatto, influenciadora com mais de 10 milhões de inscritos no YouTube, é um dos nomes que participa da iniciativa

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Enquanto as opções de monetização estão se expandindo para os criadores de conteúdo, através de anúncios, conteúdo patrocinado, merchandise e fundos de recompensa, agora também estão surgindo alternativas para que os próprios seguidores façam parte desse crescimento, investindo e recebendo parte dos lucros de projetos digitais.

“Por que só se inscrever no canal, se você pode ser sócio?” Esse é o lema do Divi-hub, startup brasileira de financiamento coletivo que tem como foco a economia criativa. O seu objetivo é permitir que criadores de conteúdo compartilhem seus lucros tanto com investidores iniciantes, que são atraídos pela ideia de aproximação aos seus ídolos, quanto com investidores experientes, que estão atrás de novas fontes de receita.

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A plataforma é homologada na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), e já deu início a um processo análogo na SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos). Ela funciona através da emissão de tokens, chamados de “divis”, que representam participações nos projetos disponibilizados na plataforma, como se fossem ações de uma empresa listada na Bolsa. Se o projeto for lucrativo, os investidores ganham junto.

Hoje, o Divi-hub conta com sete projetos que recebem esse tipo de financiamento, e cada “divi” custa apenas R$ 10. Um deles é o Bees, da influenciadora Bibi Tatto, que tem mais de 10 milhões de inscritos em seu canal do YouTube. O seu objetivo é selecionar cinco meninas que acompanham o canal, reuni-las em uma mansão e incentivá-las a produzir conteúdos próprios. A iniciativa terá duração de oito meses, e será documentada através de um reality show.

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“Escolhi inserir meu projeto na Divi-hub por alguns motivos. Um deles é a facilidade de colocá-lo em execução”, explica a influenciadora. “Claro, existem outras formas de captação – por meio de investidores e patrocinadores – mas acho que será interessante fortalecer os laços com o público que mais torce pelo sucesso do canal: meus fãs.”

A iniciativa é pioneira no Brasil e, apesar de se assemelhar a outras formas de captação, como o crowdfunding, em que investidores ajudam um projeto a sair do papel e, em troca, recebem algum benefício ou exclusividade, o Divi-hub permite que esses ganhos sejam contínuos ao longo dos anos, de maneira proporcional à quantidade de “divis” adquirida, até o investidor decidir vender o seu ativo.

Se o projeto der errado e não for lucrativo, o investimento se torna um crowdfunding comum. Os investidores não terão nenhum retorno financeiro, e não poderão recuperar o investimento original, mas outros benefícios que vêm com a adesão ao projeto, como produtos, autógrafos e salas de bate-papo exclusivas, permanecem.

Distribuição de ganhos

Segundo Ricardo Wendel, CEO do Divi-hub, a ideia de criação da plataforma surgiu em conjunto com seu sócio, o especialista em finanças David Farron, enquanto morava nos Estados Unidos: “Nossa intenção era oferecer às pessoas um pouco desse sentimento de ‘ser dono de algo que você gosta’. Ou seja, não ser dono de ações de uma empresa de petroquímica, que vem com todos os balanços financeiros e os jargões, e sim de algo que você já curte, e que pode acompanhar de uma maneira descomplicada.”

Os tokens nativos da plataforma não devem ser confundidos com criptomoedas ou NFTs (token não-fungíveis), diz o empresário. Além de operar com um sistema centralizado, que registra a origem e o destino de cada transação, a rede de tokens também não depende de mineração e, ao contrário do mercado de criptoativos, todo o processo é regulamentado por órgãos fiscalizadores.

O emissor dos tokens, nesse caso, é o próprio criador de conteúdo, através de uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), que consiste em uma nova empresa formada para cumprir um objetivo específico, e pode até ter prazo de existência determinado. Já a distribuição dos ganhos ocorre através de uma SCP (Sociedade em Conta de Participação), que permite que investidores apliquem dinheiro e participem dos lucros de uma empresa sem precisar integrar formalmente seu quadro de sócios.

O período de investimento compreende três fases. A primeira é a captação, que pode durar até 180 dias, e precisa alcançar pelo menos dois-terços do montante visado para ser válida – caso contrário, o projeto é cancelado e os investidores são ressarcidos. A segunda é a conversão do valor aportado por cada investidor em tokens, que na verdade são quotas de sócio participante na SCP. A terceira é o pagamento dos lucros e dividendos, que pode ocorrer anualmente ou em parcelas ao longo do ano. Os resultados financeiros dos projetos são apresentados a cada seis meses.

Em média, o retorno prometido é de 10% ao ano. Como comparação, as rentabilidades dos títulos de Tesouro Selic para 2024 e 2027 são de 7,87% e 8,01% ao ano, respectivamente, considerando uma taxa básica de juros a 7,75%.

Uma das condições para que um projeto seja inserido na plataforma é a sua total transparência. O Divi-hub precisa ter acesso ao histórico do canal para avaliar o seu potencial de captação, bem como à receita mensal advinda do YouTube após o início do projeto. O criador de conteúdo também deve seguir a sua proposta de uso dos recursos captados. “Se a intenção era comprar duas câmeras e expandir a equipe, a pessoa não pode pegar o dinheiro e viajar”, explica Wendel.

O planejamento tende a dar certo e ser vantajoso tanto para os investidores quanto para os criadores de conteúdo, segundo o CEO. Ele ressalta que, ao contrário do que ocorre quando essas pessoas fazem parceria com uma marca e precisam adaptar seu conteúdo para cumprir as condições dessa parceria, o Divi-hub permite que o criador de conteúdo elabore um projeto de acordo com a sua própria visão, aumentando as chances de sucesso entre os fãs.

“Uma pessoa que participa do projeto como investidor também tende a divulgá-lo para mais pessoas, o que é vantajoso para o criador de conteúdo, que ganha mais espectadores, e para o investidor, que tem um retorno maior”, diz. Afinal, em plataformas como o YouTube, quanto maior o número de visualizações em um vídeo, maior a remuneração paga pela plataforma.

“Eu acredito que seja uma forma de financiamento permanente”, afirma Bibi Tatto. “É uma maneira de incentivar o público a investir em algo, principalmente em algum assunto ou figura pública que eles gostam tanto. Com base no resultado desse financiamento, vamos incluir os fãs no máximo de projetos possíveis”, diz ela.

Retorno aliado à paixão

Jovens a partir de 16 anos podem se cadastrar na plataforma e se tornar investidores mediante a autorização de seus pais ou responsáveis. Embora o Divi-hub apele para o “passion investment” (ou seja, investimento baseado na paixão), muitos dos investidores também entraram na iniciativa em busca do retorno financeiro.

Diego de Macedo Higgins tem 40 anos e é executivo de uma big tech. Atualmente, ele investe no projeto Operação Metaforando, criado pelo perito criminal e investigador Vitor Santos, que possui mais de 5 milhões de inscritos em seu canal do YouTube, e no projeto de automobilismo Ultimate Drift, com 123 mil inscritos no YouTube.

“O meu primeiro investimento foi por afinidade com o canal e por acreditar em seu potencial. Já o segundo foi por expectativa de retorno financeiro”, explica Higgings, acrescentando que continuará levando esses dois aspectos em consideração em seus investimentos futuros. O Divi-hub inaugurou suas operações há cerca de um mês e, portanto, todos os projetos ainda estão em fase de captação. O executivo, contudo, afirma que está confiante no sucesso dos seus investimentos.

Atualmente, a plataforma conta com cinco mil usuários, e já movimenta cerca de R$ 20 milhões. Durante o próximo ano, o objetivo é atingir 140 mil usuários, e uma captação de R$ 75 milhões. Os planos para o futuro também envolvem expandir o número de projetos, abrangendo trabalhos com músicos brasileiros, por exemplo.

“As pessoas gostam de apoiar algo pelo qual elas são apaixonadas, ainda mais com essa perspectiva de retorno. Imagina: você investe em um projeto de livro de contos, e esses contos viram uma série do Netflix? Você se sente orgulhoso de ter participado dessa história, mesmo que tenha sido com R$ 10. Ainda há muito o que explorar dentro disso”, afirma o CEO Wendel.

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