Artigos de luxo se valorizam no mercado de revenda e viram opção de investimento

A icônica bolsa Chanel Classic Flap registrou valorização de mais de 50% desde junho de 2020.

Isabella Velleda
Compartilhe esta publicação:
Jeremy Moeller/Getty Images
Jeremy Moeller/Getty Images

Bolsas de grifes de luxo estão entre os itens que mais se valorizaram nos últimos dez anos

Acessibilidade


Os preços da bolsa Chanel Classic Flap Jumbo subiram 52% no período entre junho de 2020 e dezembro de 2021, segundo dados do The RealReal, um dos maiores ecommerces de segunda mão de luxo do mundo.

O rendimento chegou a superar o desempenho do índice norte-americano S&P 500, que atingiu mais de 80 máximas recordes no mesmo período e acumulou alta de 48%.

Acompanhe em primeira mão o conteúdo do Forbes Money no Telegram

A valorização fez esse artigo icônico, lançado há mais de 50 anos, se transformar em uma opção de investimento, ao lado de outras marcas e artigos que também mantiveram o seu apelo cultural ao longo dos anos.

Negociada na plataforma RealReal por US$ 4,6 mil (R$ 23,4 mil) em junho de 2021, a bolsa passou a valer US$ 7 mil (R$ 35 mil) em dezembro. A valorização no mercado secundário, inclusive, superou o avanço visto no mercado primário, de 41%. Lá, os valores estimados de venda passaram de US$ 6,7 mil (R$ 34 mil) para US$ 9,5 mil (R$ 48 mil).

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Luanna Toniolo, fundadora e CEO do brechó brasileiro Troc, cita os aumentos nos custos das matérias-primas por conta da pandemia como um dos motivos que impulsionaram a valorização recente. Marcas como Chanel e Louis Vuitton, por exemplo, anunciaram reajustes globais que chegaram a 60% em alguns modelos no último ano.

“Os consumidores foram atraídos para a revenda, onde os preços são menores, como uma oportunidade de manterem seu padrão de consumo”, diz Toniolo. “Afinal, se os itens são autênticos, bem conservados e a experiência de serviço é premium, a quebra de paradigma cultural acaba sendo facilitada nessa circunstância.”

Dados do Art Market Research mostram que, no mercado de luxo, as bolsas foram os itens que mais se valorizaram nos últimos dez anos.

Com uma alta de 83% nos preços, elas ficaram na frente dos relógios de luxo, que valorizaram 72%, dos livros de primeira edição, que subiram 40%, e de moedas antigas, com valorização de 20% no mesmo período.

É preciso lembrar, no entanto, que a precificação de artigos de luxo segue uma dinâmica própria. Embora os preços sejam menores no mercado secundário, a valorização costuma ser mais acentuada por conta da escassez desses produtos no mercado primário, além do próprio repasse do aumento dos preços oficiais.

Características desse investimento

A Chanel Flap, assim como outras peças clássicas, pode ser considerada um investimento de alta liquidez – ou seja, é fácil vendê-la.

Segundo Bruna Soares, CEO do brechó de luxo Nobz, normalmente há longas filas de espera por esses itens – eles não costumam ficar em estoque por mais de cinco dias e às vezes são vendidos antes mesmo dos anúncios irem ao ar.

Porém, isso não acontece com qualquer artigo de luxo.

“Existem peças que perdem valor ao longo do tempo por não serem peças clássicas da marca. As bolsas clássicas tendem a valorizar ao longo do tempo, enquanto as bolsas de coleção, que têm pouca liquidez e caem mais facilmente em desuso, tendem a desvalorizar”, diz Soares. “É preciso ser assertivo na escolha da bolsa se a intenção é investir.”

A Tory Burch logo bag e a Michael Kors logo bag são exemplos de itens de luxo que não funcionaram bem como investimentos: os preços recuaram 15% e 9% entre 2020 e 2021, respectivamente.

Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos, porém, argumenta que artigos de luxo podem, sim, ser uma boa opção de investimento.

“Eles são anticíclicos. As pessoas que têm dinheiro costumam manter seu padrão de vida mesmo em momentos de crise, então esses produtos acabam vendo uma demanda muito mais estável ao longo do tempo”, explica. “O recente crescimento de riqueza no Oriente também ajudou a impulsionar o consumo e os preços desses produtos. Muitas marcas estão surfando principalmente na onda dos países que eram mais pobres.”

Antes de revender

Mesmo tendo em mãos a bolsa certa, é preciso tomar alguns cuidados para garantir um bom valor de revenda.

O brechó Gringa recomenda sempre guardar os acessórios que vêm com uma bolsa nova, incluindo as dust bags – que são os sacos originais de flanela ou algodão que protegem o produto -, a fim de incluí-los na hora da revenda.

Se a bolsa é pouco utilizada, é importante manter a rotina de colocá-la para arejar por algumas horas a cada dois meses, longe da luz direta do sol. Para manter a modelagem intacta e evitar amassos, recomenda-se a utilização de algum tipo de enchimento, seja plástico bolha ou um papel delicado amassado.

Como as marcas de luxo podem ganhar dinheiro no metaverso?

O Gringa também alerta que nunca se deve guardar bolsas encostadas umas nas outras, para evitar manchas e aderências no couro. E em hipótese alguma deve-se colocar produtos anti-mofo no local de armazenamento das bolsas, já que eles podem causar danos aos materiais.

Quem está planejando vender um artigo de luxo também deve se atentar às comissões cobradas pelos brechós.

Na Gringa, para produtos que valem mais de R$ 14.999, a comissão da loja fica em 25%. Na Nobz, itens vendidos por mais de R$ 7.999 têm comissão de 35%, enquanto na The RealReal, para bolsas de mais de US$ 4.995 (R$ 25,4 mil), a taxa é de 20%.

Além da Chanel Flap

A Louis Vuitton Speedy e a Louis Vuitton Neverfull são modelos de bolsas que também são muito procurados no mercado secundário, segundo Bruna Soares, da Nobz. A Speedy subiu cerca de 28% considerando o período de junho de 2020 a dezembro de 2021, e a Neverfull, 41%.

A Gucci Soho é outra recordista: o modelo valorizou 144% desde março de 2019. A executiva afirma, porém, que o ritmo de crescimento dos preços do modelo vem diminuindo.

“A valorização em dezembro de 2021, na base anual, foi de apenas 0,2%. Isso quer dizer que a hora de vender uma Gucci Soho é agora”, diz Soares.

Um levantamento da OLX Brasil mostrou que, nos últimos seis meses, os acessos aos sites de revenda no Brasil aumentaram 30%. Já nos últimos três anos, o mercado secundário cresceu 21 vezes a mais do que o mercado de produtos novos.

“É um mercado que tem vantagens para todos dentro da cadeia”, diz a CEO da Nobz. “Quem vende tem a oportunidade de reaver o valor investido na peça e até mesmo lucrar em cima dela; quem compra, passa a ter acesso a um produto antes inatingível. E o meio ambiente se beneficia imensamente da proposta desse mercado.”

Compartilhe esta publicação: