Empresas familiares brasileiras aumentam busca por auditoria, diz CEO da Grant Thornton Brasil

Divulgação de métricas ESG e inovação estão entre as principais necessidades desses negócios.

Isabella Velleda
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Getty Images/Westend61
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Brasil ocupa o terceiro lugar entre os 13 países onde a Grant Thornton identificou potencial de crescimento de empresas familiares

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Planos de internacionalização, busca por práticas que observem critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) e a necessidade de inovar têm levado as empresas familiares a buscar cada vez mais serviços de auditoria e consultoria, segundo a Grant Thornton Brasil.

A gigante da contabilidade, que também atende nomes como CSN (CSNA3), Braskem (BRKM5), Gol (GOLL4) e Marfrig (MRFG3), tem visto crescer o número de clientes com esse perfil.

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“Na maioria das vezes, elas não têm uma estrutura interna robusta para dar suporte à expansão internacional”, diz Daniel Maranhão, CEO da Grant Thornton Brasil. “Nem uma equipe dedicada em fazer análise de mercado, ou uma estrutura de tecnologia robusta para suportar o crescimento.”

Esse, porém, é o caminho desejado por boa parte dessas empresas. Afinal, elas já dominam o mercado brasileiro, sendo responsáveis por aproximadamente 70% do PIB (Produto Interno Bruto). A taxa de crescimento dos negócios com esse perfil é cerca de duas vezes maior do que a das empresas multinacionais, segundo um relatório encomendado pela Grant Thornton.

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Nem mesmo a pandemia foi capaz de deter esse crescimento. Empresas familiares que se posicionaram bem durante a recessão econômica conseguiram impulsionar os seus negócios no período de reabertura, adquirindo empresas menos bem-sucedidas e ocupando o espaço deixado por elas, explica Maranhão.

“A Grant Thornton observou essa tendência global e selecionou 13 países em que nós precisamos atuar com um foco mais atento às empresas familiares”, diz o executivo. “O Brasil ficou em terceiro lugar no quesito relevância, atrás somente da China e da Índia.”

Novas exigências

Mulher mexendo no computador

A inovação é um dos pré-requisitos para que essas empresas consigam promover a expansão que desejam. Para Maranhão, é importante haver um setor fora da empresa que se preocupe com essas questões e não se envolva nas tarefas do dia a dia.

“A equipe da inovação trabalha em um ritmo diferente. É preciso tempo para criar, testar, errar e fazer de novo”, explica.

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Outro motivo pelo qual as empresas de consultoria e auditoria estão cada vez mais requisitadas é a organização e divulgação de métricas ESG (sigla em inglês que se refere a aspectos ambientais, sociais e de governança).

Essa é uma das principais discussões atreladas à agenda ESG, uma vez que não existe um padrão internacional (nem nacional) para a divulgação dessas informações. Embora existam diretrizes sobre o tema, muitas empresas ainda se baseiam em critérios subjetivos ao se apresentarem como sustentáveis, prática que pode resultar em greenwashing.

A organização dessas métricas entrou no radar das empresas por duas razões principais. A primeira é por conta dos investidores, que vêm demonstrando preferência por empresas socialmente responsáveis e estão de olho nas credenciais que comprovam essas políticas.

Segundo um levantamento realizado pela Bloomberg no ano passado, investimentos sustentáveis responderão por cerca de um terço do total de ativos sob gestão no mundo em 2025.

A segunda é a adesão institucional. Maranhão argumenta que, no futuro, bancos possivelmente irão disponibilizar crédito a juros mais baixos para empresas que possuem boas métricas ESG. Para 2023, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) já anunciou que irá exigir informações ESG no formulário de referência de empresas listadas.

O CEO explica que, por conta das novas demandas, as próprias empresas de auditoria tiveram que se atualizar. A Grant Thornton, por exemplo, já aderiu a normas para relatórios de sustentabilidade, e aguarda uma orientação definitiva do Iaasb (Conselho Internacional de Normas de Auditoria e Asseguração).

Enquanto isso, a empresa utiliza como referência a GRI (Global Reporting Initiative), que atualmente é a estrutura mais indicada para a gestão e divulgação de métricas ESG. Outras, como o CDSB (Climate Disclosure Standards Board) e o CDP (Carbon Disclosure Project), também estão ganhando espaço.

Por fim, outro aspecto que tem se mantido no radar das empresas familiares é o risco de fraude cibernética. Segundo o CEO, os ataques não só aumentaram durante a pandemia, como também se tornaram mais sofisticados.

Quando é o momento de contratar uma auditoria?

Algumas empresas são obrigadas por lei a realizar auditorias independentes periodicamente. Esse é o caso de bancos, seguradoras e empresas cujas ações são negociadas na Bolsa de Valores. Aquelas que possuem faturamento superior a R$ 300 milhões ou ativos totais superiores a R$ 240 milhões também precisam sem auditadas.

No caso de empresas familiares que não se encaixam nos exemplos acima, a busca por esses serviços pode acontecer por exigência, por exemplo, de um fundo de investimentos que fez um aporte. Em outros casos, a própria liderança do negócio pode querer um nível mais alto de governança.

Porém, como explica Maranhão, a empresa nem sempre tem a palavra final sobre quem será o seu auditor. “Os bancos fazem um ranking das empresas de auditoria e, em alguns casos, como em IPOs [ofertas públicas de ação], eles podem exigir que as empresas utilizem os auditores que eles consideram mais confiáveis”, explica.

O executivo também comenta que, em alguns casos, podem existir discordâncias entre a empresa e o auditor. Quando esses desacordos não resultam em distorções financeiras relevantes, o auditor fica apenas com a responsabilidade de comunicar o acontecimento à alta administração da companhia.

“Porém, quando as distorções são relevantes, e podem afetar significativamente o balanço da companhia ou indicar fraude, o auditor tem a obrigação de expressar uma ‘opinião com ressalva’ nos seus relatórios, se a empresa se recusar a ajustá-las”, explica.

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