Fundação aposta em blockchain e criptomoedas para promover inclusão

“A conversa sobre ‘ficar rico fácil’ enche os olhos, mas é preciso voltar para a realidade”, diz lead da Celo na América Latina.

Isabella Velleda
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SOPA Images/Getty Images
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Mais de 300 projetos de cunho social são desenvolvidos no blockchain da Celo

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As criptomoedas não servem apenas para investimentos, como mostra a Celo, fundação norte-americana que possui uma plataforma blockchain voltada para celulares simples. Nela, desenvolvedores lançam projetos visando a inclusão financeira, em que, às vezes, apenas um número de celular é necessário para fazer transações.

A Celo foi lançada em 2017, e conta com o apoio de grandes nomes, como Jack Dorsey, fundador do Twitter, e da Deutsche Telekom, uma das maiores companhias de telecomunicações da Europa. A sua atuação ocorre principalmente nos países emergentes, onde o número de desbancarizados ainda é elevado.

“Um dos principais problemas em relação ao sistema bancário tradicional é a dificuldade do acesso”, diz Camila Rioja, LatAm Lead da Fundação Celo. “Para conseguir receber auxílio, as pessoas precisam lidar com muita burocracia, ou então pegar uma fila gigantesca no banco.”

Por essa razão, os projetos construídos no ecossistema Celo colocam a simplicidade em primeiro lugar.

Um deles, chamado ImpactMarket, utiliza a tecnologia USSD (dados de serviço suplementares não estruturados, na sigla em inglês) para permitir que pessoas em situação de vulnerabilidade social acessem um fundo e consigam receber renda básica universal. Para isso, elas precisam apenas de acesso a um celular que envie mensagens de texto e tenha conexão 2G, que já é suficiente para acessar um menu onde as diferentes funcionalidades estão disponíveis.

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Algumas ações específicas do projeto, porém, exigem a utilização de um aplicativo para acessar o fundo – a estratégia depende do perfil da comunidade.

Embora os valores geralmente se encontrem em cUSD, a stablecoin baseada em dólar da Celo, os recursos podem ser convertidos para a moeda local ou utilizados para pagar por bens e serviços básicos diretamente.

O ImpactMarket está presente em 23 países diferentes, e começou a atuar no Brasil em setembro de 202 em aproximadamente 70 comunidades. A iniciativa também chegou a campos de refugiados na África e no Oriente Médio.

Transparência e blockchain

Segundo Rioja, algumas vantagens intrínsecas que o uso da tecnologia blockchain traz são a velocidade para realizar transações, o baixo custo (em geral, cada transação é taxada em US$ 0,001), e a transparência.

Esse último aspecto é especialmente relevante quando o assunto é projetos sociais, uma vez que é necessário garantir que os recursos estão realmente chegando às comunidades, e não se perdendo pelo caminho.

“Se você quiser ver o que está acontecendo no blockchain da Celo, é só acessar o nosso site, todo o histórico está tudo lá”, diz a diretora. “Apesar de não estar escrito ‘Fulano mandou dinheiro para Beltrano’, as informações são rastreáveis.”

Em janeiro deste ano, a Celo lançou uma stablecoin baseada no real, a cREAL. Uma das principais novidades que o lançamento trouxe foi a expansão do uso das criptomoedas no mundo real.

Clientes do aplicativo Bitfy, por exemplo, podem realizar compras utilizando o cREAL em qualquer estabelecimento que utilize a rede Cielo, bem como adquirir gift cards de aplicativos como iFood, Rappi, Evino e Spotify sem precisar fazer a conversão para o real.

Ao contrário de boa parte das blockchains que existem no mundo, a Celo é negativa em carbono. Para validar as transações que ocorrem na rede, é utilizado um mecanismo de consenso conhecido como “proof-of-stake”, que exige pouco poder computacional. Além disso, a fundação investe em créditos de carbono para compensar o impacto que gera.

Novas perspectivas

A Celo é apenas uma das organizações que identificou o potencial das criptomoedas para promover a inclusão financeira ou, como a fundação prefere chamar, a “prosperidade compartilhada”.

A ideia já está bem difundida entre grandes instituições do mercado financeiro global. Em um artigo publicado pelo Fórum Econômico Mundial, por exemplo, Christine Moy, ex-executiva do JPMorgan, escreveu que os protocolos e blockchain já podem estar substituindo os governos e bancos nos esforços para promover a inclusão financeira.

Segundo Rioja, apesar da aversão que boa parte da população brasileira ainda apresenta em relação às criptomoedas – mas que, para ela, pode ser combatida com a educação e a informação -, a próxima tendência para o mercado financeiro é a descentralização.

“Podemos comparar isso à evolução dos computadores”, afirma. “No começo, eles eram gigantes, e todos os dados eram centralizados em uma mesma máquina. Aí começaram a surgir os computadores pessoais, em que a base de dados era separada. Então surgiram os celulares, que eram ainda mais ‘descentralizados’, e assim em diante.”

Por isso, para a diretora, outra grande vantagem do blockchain é a autonomia. Ela conta que, no futuro, pessoas dentro de uma comunidade poderão decidir por si mesmas a melhor forma de realizar transações financeiras entre si, reduzindo a dependência de instituições tradicionais.

“É por conta disso que o debate sobre criptomoedas é tão interessante. Claro que toda aquela conversa sobre ‘ficar rico fácil’ enche os olhos, mas eu acho que nós sempre devemos voltar para a realidade. A tecnologia precisa servir a sociedade.”

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