O que são stablecoins? Entenda

Menos voláteis, essas criptomoedas são utilizadas como ferramentas de proteção e dolarização do patrimônio.

Isabella Velleda
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Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

Stablecoins lastreadas em dólar, como o tether, são as mais comuns no mercado

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As stablecoins, apesar de serem criptomoedas, não apresentam a volatilidade elevada típica desses ativos. Elas são lastreadas em dólar americano, euro, ouro e outros ativos com valor próprio, o que garante a sua estabilidade.

O dólar é o lastro mais comum das stablecoins. O tether (USDT) e o USD coin (USDC), por exemplo, são lastreados em dólar na proporção de um para um. Assim, para cada US$ 1 emitido na forma de stablecoin, deve existir US$ 1 depositado em uma reserva de garantia.

Em média, as stablecoins costumam oscilar até 3%, para cima ou para baixo – uma grande diferença em relação ao bitcoin, por exemplo, que já chegou a oscilar 20% em um único dia. Por isso, um dos usos mais comuns para essas moedas digitais é o encerramento de posições após operações de trade.

“O tether sempre representa um dos maiores volumes negociados diariamente”, explica Paulo Aragão, economista e cofundador da CriptoFácil. “Isso porque, quando os traders vão encerrar a operação, eles voltam para essa moeda. Ou seja, eles continuam com posições em criptomoedas, mas fogem da volatilidade típica desse mercado.”

Outra vantagem das stablecoins é que elas internacionalizam o patrimônio do investidor. A exposição ao dólar e ao euro, por exemplo, permite fugir da inflação e da volatilidade do real, e preserva o poder de compra.

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Além disso, as transações internacionais de stablecoins lastreadas em dólar costumam ser mais rápidas e baratas do que transações realizadas no próprio dólar.

No universo das criptomoedas, as stablecoins representam uma porta de entrada mais “razoável” para investidores avessos à volatilidade.

Por conta do lastro, compreender o funcionamento das stablecoins costuma ser mais fácil do que entender o que está por trás do bitcoin ou do ether, por exemplo.

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Principais stablecoins

Entre as dez maiores stablecoins em circulação hoje, nove são lastreadas em dólar. Essas são consideradas stablecoins centralizadas, justamente por apresentarem paridade com moedas fiduciárias – como são chamadas as moedas “tradicionais”, emitidas por governos e bancos centrais.

Além das stablecoins mencionadas anteriormente, a trueUSD (TUSD) e binance USD (BUSD) estão entre as mais negociadas.

Outros tipos de stablecoins

Existem ainda as stablecoins commodity-colaterizadas, que em vez de utilizarem outras moedas como lastro, fazem isso com commodities como metais preciosos, imóveis e obras de arte, e as stablecoins cripto-colaterizadas, que são lastreadas em outras criptomoedas.

Ao contrário das stablecoins centralizadas, as cripto-colaterizadas existem em um ambiente totalmente descentralizado, que envolvem transações ainda mais rápidas e baratas. A makerdao (DAI), principal stablecoin desse tipo, por exemplo, tem o objetivo de valer sempre US$ 1 – mas o faz através da plataforma de blockchain Ethereum.

“Para que eu obtenha US$ 10 dólares em DAI, preciso depositar, em um contrato totalmente transparente e auditável, US$ 12,50 dólares em alguma outra criptomoeda”, explica Felipe Escudero, analista de criptomoedas e anfitrião do canal BitNada. “É sempre necessário deixar uma garantia de pelo menos 20%.”

Todas as stablecoins são lastreadas?

As stablecoins não-colateralizadas não possuem lastro. Seu preço é controlado por algoritmos que definem a quantidade de moedas em circulação a fim de manter o seu valor estável.

Assim, a depender da necessidade, o algoritmo pode emitir mais moedas ou realizar operações de queima – imagine um banco central que literalmente queima papel moeda para reduzir a quantidade de dinheiro em circulação.

Apesar das garantias, as stablecoins não são isentas de riscos. Um deles é a falta de certeza de que o emissor da stablecoin possui, de fato, reservas do lastro depositadas na mesma proporção.

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A SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) já chegou a investigar o tether para verificar as suas reservas, o que alimentou argumentos de que a emissora não era suficientemente transparente.

Em maio do ano passado, o tether divulgou um relatório pela primeira vez desde sua criação e mostrou que 76% de sua reserva é composta por dinheiro, equivalentes de caixa, outros depósitos de curto prazo e títulos comerciais, enquanto os outros 24% consistem em empréstimos com garantia, debêntures e outros investimentos.

Do total da reserva, apenas 3,7% era composto por dinheiro em espécie.

Stablecoins e bancos centrais

Segundo um estudo do Banco de Compensações Internacionais, quase 90% dos bancos centrais ao redor do mundo já começaram a estudar a viabilidade da emissão das suas próprias moedas digitais, chamadas de CBDCs (moeda digital de um banco central, na sigla em inglês).

Em 2020, as Bahamas lançaram a primeira CBDC do mundo; em julho do ano passado, o Banco Central Europeu começou a definir critérios técnicos de design e distribuição do euro digital; e, em janeiro deste ano, a China implementou o projeto piloto do yuan digital.

Os Estados Unidos não ficam para trás e também vêm estudando a possibilidade de um dólar digital.

Diante desses projetos, a posição das stablecoins permanece incerta – afinal, moedas propriamente estruturadas e transparentes sobre os ativos que as sustentam poderiam se tornar uma alternativa ao dinheiro estatal.

O tether se tornou a principal criptomoeda utilizada na Turquia. A taxa oficial de inflação chegou a 36% em 2021, e a lira turca acumula queda de 40% em relação ao dólar desde setembro de 2021. Em reação, o governo turco proibiu que criptomoedas fossem empregadas como forma de pagamento.

Jerome Powell, chair do banco central norte-americano, também se manifestou em oposição às stablecoins em julho do ano passado, argumentando que “se houvesse uma moeda digital dos EUA, você não precisaria de stablecoins ou de criptomoedas”.

Já nesta semana o banco afirmou em relatório que as stablecoins “exibiam qualidades de ativos seguros” e têm potencial de “servirem como um porto seguro digital durante as dificuldades do mercado”.

“Acredito que os bancos centrais estejam receosos com a criação de stablecoins com valor estável e com lastros reais e auditáveis”, afirma Escudero. “Até agora, as stablecoins têm se mantido saudáveis, sempre com boas garantias.”

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