Mercado de segunda mão cresce e e-commerces vendem artigos de luxo usados pelo preço de novos

Comprar itens em brechós online tornou-se algo de que os fashionistas se orgulham.

Tanya Klich
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Reuters
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Consumidores preocupados com o meio ambiente não têm mais vergonha de admitir que compraram artigos de luxo usados

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Depois de se formar em direito em 1999, Sarah Davis abriu uma modesta loja no e-commerce americano eBay chamada Fashionphile. Ela percebeu que consegui vender seus itens de luxo por preços não somente iguais ao do varejo tradicional, mas, em muitos casos, por valores mais altos que os praticados pelas lojas de grifes.

Então, mais tarde naquele ano, Davis decidiu transformar o Fashionphile em um e-commerce de luxo. Da bolsa Neverfull Tote, da Louis Vuitton, à clássica Double Flap, da Chanel, ela construiu um estoque das bolsas mais cobiçadas por meio de um modelo de compra direta e um processo de autenticação que garantia a procedência dos artigos.

Davis diz que a empresa lucrou todos os anos desde então, mas nem sempre foi muito popular. Isso porque, durante os dez primeiros anos do negócio, comprar no Fashionphile e em outros sites de revenda era percebido como um passo em falso no mundo da moda.

“Se uma pessoa comprasse uma bolsa Chanel no nosso site e recebesse um elogio, ela apenas diria ‘obrigado’ e nunca revelaria que era da Fashionphile”, conta ela.

Jeremy Moeller/Getty Images
Jeremy Moeller/Getty Images

A Chanel Flap é uma das bolsas mais valorizadas no mercado de revenda de luxo

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Com o passar do tempo, o mundo da moda se acostumou com a ideia de comprar acessórios de luxo usados, seja para economizar algum dinheiro ou ajudar o meio ambiente, evitando desperdício. “Devido ao aumento da consciência do consumidor sobre a sustentabilidade e a economia circular, comprar na revenda tornou-se algo do qual as pessoas se orgulham”, diz Davis.

Ela agora se orgulha do seu próprio e-commerce de luxo. No ano passado, a empresa faturou entre US$ 450 milhões e US$ 500 milhões em vendas brutas (mais de R$ 2 bilhões), segundo estimativas. Davis se recusou a comentar os números.

Embora o primeiro ano da pandemia de Covid-19 tenha trazido vários períodos de confinamento que foram duros para os negócios, Davis diz que em 2021 as vendas aumentaram 107% em relação a 2020.

“A pandemia foi uma bela surpresa para o mercado de segunda mão e para o comércio eletrônico em geral”, diz ela. “As pessoas ficaram sentadas em casa sem gastar em viagens ou shows, ou seja, elas tinham dinheiro.”

Agora existem forças maiores apoiando o mercado de revenda de luxo, que a consultoria Bain estimou valer US$ 33 bilhões (R$167,8 bilhões) em 2021. A inflação tem abalado o varejo tradicional – o sinal mais claro desse impacto veio da Louis Vuitton, a maior marca de luxo do mundo, que anunciou um aumento significativo dos preços de seus artigos.

 

A Chanel, por sua vez, elevou os preços três vezes nos últimos dois anos, especialmente para se recuperar da pandemia. Analistas dizem que é apenas uma questão de tempo até que Gucci, Hermès e outras grandes marcas de alta moda façam o mesmo.

“Louis Vuitton e Chanel vêm aumentando os preços de determinados itens desde a década de 1980. Isso acontece todos os anos há décadas”, diz Davis. Mas ela observa que a porcentagem e a frequência dos aumentos aceleraram recentemente, e acrescenta que o crescimento da inflação provavelmente será benéfico para a Fashionphile.

“As pessoas estão comprando no mercado de segunda mão ​​já pensando na revenda. É um comportamento totalmente diferente e algo que acreditamos estar alimentando o crescente apetite por artigos usados de ultraluxo.”

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Para lidar com as flutuações no mundo do varejo, a revendedora conta com uma ferramenta de precificação própria que usa dados históricos dos últimos 20 anos. Os valores levam em consideração a inflação, bem como a frequência e a velocidade das vendas de uma determinada marca ou item.

Porém, quando se trata de economia de luxo, a ciência de dados acaba ficando em segundo plano e o mercado segue a regra do que está na moda.

“Temos que ser cuidadosos e ponderados na forma como usamos os dados”, diz Davis. “Não sabemos quais estilos se valorizarão, então temos uma equipe acompanhando de perto todos os modelos e categorias. Alguns estilos que eram impopulares há alguns anos estão voltando com força.”

Preocupações com a inflação e o ambiente também podem fazer dos sites de revenda – como Fashionphile, Rebag e The RealReal – os melhores amigos das casas de moda de luxo.

“A revenda justifica os aumentos de preços no mercado primário, onde a oferta é limitada e a demanda é alta”, diz Davis. “Você pode obter uma nova bolsa Chanel Flap mais barata da Chanel, e o mesmo vale para Birkins e Kelly [da Hermès]. A realidade é que esses itens mais procurados têm cores e formatos padrão.”

Os problemas das cadeias de suprimentos também estão impulsionando o modelo de negócios de revenda de artigos de luxo em consignação. “O estoque de quem revende é o armário do cliente”, diz Davis.

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O Fashionphile está enfrentando dificuldades para obter mais espaço comercial para expandir suas atividades de revenda e autenticação. O e-commerce abrirá no mês que vem um centro de distribuição de 5,5 mil metros quadrados em Nova York – o espaço se soma às atuais instalações de 9,3 mil metros quadrados em Nova Jersey e de 2,9 mil metros quadrados na cidade de Carlsbad, na Califórnia.

Davis diz que a pandemia provou que a despesa com o espaço físico extra vale a pena, mesmo para uma loja online. “Nossas prateleiras estavam ficam vazias. As pessoas compravam mais rápido do que conseguíamos repor o estoque, e só cabia um determinado número de funcionários no prédio. Não estávamos conseguimos acompanhar o apetite do mercado.”

“Parte desse movimento foi impusionado por pessoas comprando como uma forma de terapia, para se sentirem melhores”, afirma.

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