Mercado de cripto do Brasil já é um dos cinco maiores do mundo

Mais de 10 milhões de brasileiros investem nas novas moedas – e esse número não para de crescer.

Simone Gomes
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Demonstração de criptomoedas
Imagem/Unsplash

Demonstração de criptomoedas

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O Brasil está entre os cinco países do mundo com maior número de cripto investidores. São mais de 10 milhões de brasileiros, algo em torno de 5% da população, o que deixa o país atrás apenas de Índia, EUA, Rússia e Nigéria.

Embora a grande maioria dos investidores desconheça ou olhe com desconfiança para os criptoativos, o mercado vem crescendo exponencialmente – a tal ponto que já supera com folga o mercado de ações brasileiro, que tem cerca de 4 milhões de investidores na B3.

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Em termos financeiros, o Brasil ainda representa uma pequena participação, de cerca de 2% do mercado mundial, que foi de R$ 5,4 trilhões em 2021, segundo o Coinmarketcap, principal monitor global.

Aqui, a captação, segundo o site CoinTrader Monitor, foi de R$ 103,5 bilhões, uma evolução de 400% frente ao ano anterior. E vários sinais apontam que o ritmo de crescimento deve continuar acelerado este ano.

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O primeiro sinal é a adesão dos investidores institucionais, que ganhou impulso com o lançamento em abril do ano passado da primeira ETF de cripto na B3. ETF é a sigla em inglês de “exchange traded funds”, que são fundos de índices com cotas negociadas na bolsa.

Muitos fundos multimercado, fundos de pensão, family offices e clientes de private banks passaram a investir em criptos por meio de ETFs, um movimento tão relevante que deve estimular novas iniciativas.

“Acreditamos que a convergência dos mercados tradicionais com o de criptomoedas é a principal tendência no Brasil e no mundo”, afirma o CEO da Digitra.com, Rodrigo Batista, destacando que recentemente a própria B3 deu sinais de que vai entrar nesse mercado.

Outro sinal de franca expansão é a capacidade de inovação e criação de soluções e serviços no ecossistema de cripto para atrair novos investidores, tanto para adquirir criptomoedas como ativos tokenizados”.

A tokenização é o processo de transformar um ativo real (tangível) em digital, fragmentado em unidades criptografadas chamadas tokens, cujas transações ocorrem dentro de uma blockchain, uma rede computacional descentralizada de registro público.

“Novos e revolucionários produtos chegam ao mercado todos os dias”, afirma Mayra Siqueira, representante da corretora chinesa Binance no Brasil.

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Segundo Mayra, as possibilidades proporcionadas pela tecnologia blockchain são inúmeras e vão muito além de criptomoedas e da especulação financeira ou reserva de valor. “Hoje vemos o hype de conceitos como metaverso, finanças descentralizadas e NFTs, cujas aplicações prometem revolucionar várias indústrias: o entretenimento, a música, os esportes, os games e até a sustentabilidade”, diz ela.

“O potencial é enorme”, completa o CEO da Parfin, Marcos Viriato. “Há inúmeros casos de negócios sendo construídos sobre essas plataformas, casos que vão desde finanças descentralizadas até jogos que remuneram os jogadores com criptomoedas, além da tokenização de ativos financeiros e não financeiros, como debêntures, cotas de fundos, imóveis, arte e outros.”

O terceiro aspecto que vai impulsionar o setor é a regulamentação da atividade. O Projeto de Lei 2.303/15, que regula o setor de criptomoedas no Brasil, avançou na Câmara e está agora no Senado. Com a aprovação, acredita-se que os investidores terão mais segurança e maior controle sobre os prestadores de serviços de cripto.

“Com o avanço da regulação e grandes instituições aderindo ao mundo cripto, é questão de tempo para que os criptoativos se tornem parte do dia a dia da população”, diz o CEO da Brasil Bitcoin, Marco Castellari.

Para Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin, as empresas que atuam no setor serão, cada vez mais, provedores de serviços para acesso facilitado aos criptoativos e às aplicações que deles se servem – e não apenas marketplaces de negociação.

“Ainda estamos em uma fase inicial do desenvolvimento do ecossistema, talvez já entrando no momento de adoção massiva. É fundamental que haja confiança nas redes e que sejam resolvidas questões de usabilidade, porque nem todo mundo vai dedicar energia e tempo para explorar os aspectos técnicos do blockchain, de uma wallet ou de um smart contract”, afirma.

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Essa expectativa tem agitado o mercado. O Grupo 2TM, do qual o Mercado Bitcoin faz parte, recebeu um sócio de peso, a gigante do e-commerce Mercado Livre. A operação – que não teve o valor revelado – deve acelerar o desenvolvimento de criptomoedas e blockchain na América Latina.

Popularização

O mercado de cripto tem entre os seus desafios mudar a mentalidade do brasileiro em relação ao dinheiro. “O investidor médio brasileiro gosta de ser assessorado, na maioria dos casos. Ele quer que alguém dê o investimento pronto e fácil. Por isso temos muitos esquemas ponzis, as chamadas pirâmides financeiras”, comenta Ray Nasser, CEO da Arthur Mining.

Ele comenta que uma das máximas do mercado de criptomoedas é DYOR (“do your own research”), que significa “faça sua própria pesquisa”, ou seja, verifique você mesmo. “Esse conceito ainda precisa se disseminar mais entre os brasileiros”, diz.

Para começar, é preciso entender os riscos da operação. Um deles é a volatilidade. “Essa é uma classe de ativos nova e que possui muita volatilidade, portanto é um ativo de risco voltado para investidores mais arrojados. Entender essa característica é fundamental, pois não é incomum vermos variações de preço de 20% ou 30% em alguns dias – e não é todo mundo que está preparado para esse tipo de exposição”, explica Rudá Pellini, autor do livro ”O Futuro do Dinheiro” e cofundador da fintech americana Wise&Trust.

Outro risco é relativo à tecnologia, que depende da maneira pela qual o investidor estará exposto. “Ele pode comprar diretamente os criptoativos e armazená-los em uma carteira no celular, o que adiciona uma camada mais de segurança no sentido de ser de fato o ‘dono’ do seu próprio ativo, já que são ativos ‘ao portador’. Mas isso exige um maior conhecimento técnico para evitar a perda das chaves e, por consequência, o risco de não ter mais acesso aos ativos”, diz Pellini.

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“Se o investidor está começando agora e quer ter exposição nessa classe, talvez o jeito mais simples seja através das corretoras e bancos, que oferecem desde fundos de investimento até os próprios ETFs negociados na bolsa”, aconselha. Gustavo Albanesi, CSO da Uniera, exchange brasileira de cripto, com para o mercado hoje com a internet no começo dos anos 1990.

“Ninguém conhecia, é disruptivo, todo mundo vê uma conexão, todo mundo quer aproveitar de alguma maneira, mas às vezes não sabe. Muitas informações aparecem, é um mercado que ainda gera muita dúvida. É um processo natural de maturação.”

Usando a mesma analogia, o economista Felipe Veloso, fundador da Cripto Mestre, uma escola focada em investimentos e empreendedorismo utilizando blockchain, alerta. “Não adianta investir muito se o capital é mal alocado. É a mesma coisa que ter investido nas empresas de internet nos anos 1990, mas, em vez de ter comprado ações da Amazon e da Google, estivesse comprando ações de sites com nomes engraçados, que foram dizimados quando a bolha da internet explodiu no início dos anos 2000.”

Com tanto interesse em torno do assunto, a cidade do Rio de Janeiro tenta atrair empresas e investidores estrangeiros para se transformar em um polo de desenvolvimento de blockchain. O prefeito Eduardo Paes, inclusive, já anunciou que pretende oferecer descontos para contribuintes que desejem pagar tributos com bitcoins.

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