Quem é a vítima?

Ainda que os tribunais estejam vacinados contra influências externas, o julgamento na mídia pode ter intersecção com a realidade da corte e impactar o processo legal

Nelson Wilians
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Steve Helber/Pool/Reuters
Steve Helber/Pool/Reuters

Amber Heard e Johnny Depp em tribunal da Virgínia, EUA

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As mídias sociais se tornaram a Suprema Corte de Influência no julgamento de celebridades. Um exemplo extremado é a batalha judicial entre o ator Johnny Depp e a atriz Amber Heard. Sem entrar no mérito do caso, o cenário na mídia social foi brutal para Amber, repleto de ataques misóginos e de ódio.

Há milhares de casos na história de mulheres que foram injustiçadas e, ainda assim, a impressão é de que não sabemos como evitar que isso se repita. Depp obteve uma ampla vantagem na opinião pública, graças aos seus fanáticos seguidores. No TikTok, a hashtag JusticeForJohnnyDepp bateu três bilhões de visualizações.

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Ainda que os tribunais estejam vacinados contra influências externas, o julgamento na mídia pode ter intersecção com a realidade da corte e impactar o processo legal, à medida que magistrados e jurados se informem pela internet ou se deixem contaminar pelo clima de idolatria.

A sanha dos stans, como são chamados os ultrafãs nos Estados Unidos, revela que a justiça é menos importante do que demonstrar devoção plena a uma celebridade. Depp abriu um processo contra Amber por difamação. O motivo foi um artigo escrito por ela no The Washington Post, em 2018, sobre violência sexual, no qual ela se descreveu como uma “figura pública que representa o abuso doméstico”.

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A fila de fãs para entrar no tribunal começou de madrugada. Ao longo do dia, uma multidão se colocava em frente ao tribunal com cartazes de apoio ao ator. Muitas pessoas se fantasiavam de personagens que marcaram a carreira dele, como o capitão Jack Sparrow, de Piratas do Caribe.

Mas a quantidade de clipes postados diariamente no Instagram e no TikTok, com análises forenses e confrontação das provas apresentadas no tribunal, foi uma batalha à parte. Não é à toa que o julgamento pode se tornar um case jurídico pela ingerência ativa desses ultrafãs. Um vídeo no TikTok, com a legenda “Amber Heard foi pega mentindo novamente”, sintetiza essa intervenção. A advogada de defesa de Amber teria dito no tribunal que a atriz precisou usar maquiagem para encobrir hematomas após uma briga com Depp. A advogada ergueu o kit de maquiagem para reforçar seu ponto de vista. Os ‘detetives da internet’ rapidamente identificaram o produto e a empresa fabricante.

A empresa se sentiu na obrigação de informar, também no TikTok, que aquele kit não estava no mercado enquanto Depp e Heard eram casados (2015 a 2016). A fabricante soltou um comunicado afirmando que não estava tomando nenhuma posição formal sobre o caso.

De qualquer modo, o julgamento envolvendo as duas estrelas acende um alerta sobre a realidade jurídica dos tribunais e aquela ficcional espetacularização da internet, com potencial para provocar equívocos sobre quem é a vítima, criar a falsa percepção de que existe uma polêmica real em curso no universo jurídico e espalhar a cultura da destruição, sobretudo quando no banco dos réus está uma figura que arranca suspiros da multidão.

Nelson Wilians é CEO da Nelson Wilians Advogados.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Artigo publicado na edição 97, de maio de 2022.

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