Seguradoras se preparam para cenário 'Black Mirror' em 2032

Empresas do setor começam a formatar produtos voltados para um cenário futurista que deve se tornar real em uma década

Guilherme Meirelles
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Com a enorme oferta de conexões, as seguradoras poderão desenvolver novos ramos de produtos customizados, com preços personalizados e menor prazo de entrega em tempo real

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Carros elétricos autônomos circulando pelas ruas sem ninguém ao volante debaixo de drones tripulados, ao lado de pedestres com óculos cibernéticos caminhando nas calçadas entretidos com competições que misturam o real e o virtual enquanto executivos e colecionadores de arte, em seus escritórios inteligentes, prospectam as melhores oportunidades em NFTs – que pagarão com criptomoedas.

Muitas indústrias, em especial a de seguros, começam a se preparar para atuar nesse cenário “Black Mirror” que, segundo futurologistas, vai dominar as metrópoles em 2032 – ou seja, daqui a apenas dez anos. Entre as seguradoras, já há consenso sobre a relevância da inteligência artificial no setor.

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Lançado no segundo semestre do ano passado pela consultoria McKinsey, o estudo “Insurance 2030 – The Impact of AI in The Future of Insurance” estabelece quatro tendências irreversíveis para as quais as companhias precisam estar atentas. O primeiro ponto é quanto à explosão de dados conectados.

A consultoria estima que, já em 2025, haverá cerca de 1 trilhão de dispositivos conectados. Além dos já presentes no nosso dia a dia (como automóveis, smartphones, relógios, rastreadores de fitness e assistentes domésticos), a tecnologia estará presente em eletrodomésticos, roupas e óculos, entre outros acessórios.

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Com a enorme oferta de conexões, as seguradoras poderão desenvolver novos ramos de produtos customizados, com preços personalizados e menor prazo de entrega em tempo real.

Haverá ainda a expansão da robótica física na vida das pessoas. Além dos drones, o mercado terá acesso a equipamentos agrícolas autônomos e a robôs na área médica, cujos riscos precisarão ser precificados pelas companhias na hora de negociar as apólices.

O mesmo risco deverá ser analisado nas obras de construção civil que utilizarem a impressão 3D nos projetos imobiliários. Outro ponto é a tendência de formação de ecossistemas de código aberto e de dados, possibilidade citada por Elon Musk em abril, quando aconteceu a compra do Twitter.

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Com o compartilhamento de dados entre entidades públicas e privadas, haverá a necessidade de criação de uma legislação comum de cibersegurança entre todos os países. Os dados das apólices dos clientes circularão não apenas entre as seguradoras, como também estarão ao acesso das grandes plataformas de consumo (como a Amazon) desde que haja o consentimento do consumidor para o compartilhamento.

E, finalmente, a McKinsey chama a atenção para as tecnologias cognitivas, que evoluirão para um modelo em que haja a interação de voz, imagem e texto na relação entre o cliente e a seguradora, com o aprendizado da máquina em entender o comportamento e o perfil do cliente, promover o seu engajamento e proporcionar experiências que o fidelizem à seguradora, o que é um tremendo desafio para um planeta com 193 países e mais de 7 mil línguas vivas.

Seguradoras atentas

Para que essas tendências fluam em um ritmo que acompanhe o avanço tecnológico, é essencial que haja um ambiente regulatório que proporcione segurança às companhias e aos clientes. Para Antonio Trindade, presidente da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), os órgãos regulatórios têm demonstrado agilidade quanto às demandas da sociedade, principalmente quando estão envolvidos riscos cibernéticos.

“Na pandemia, em razão do lançamento do PIX, houve um aumento nas ocorrências de sequestros relâmpago e furtos e roubos de aparelhos celulares e tablets. Rapidamente, o setor ofereceu o Seguro de Transações Financeiras Indevidas, que indeniza o cliente em situações comprovadas do uso de terceiros”, afirma Trindade.

Segundo ele, o avanço tecnológico provocará democratização e barateamento das apólices. “Em 2021, excluído o ramo de saúde, o setor cresceu 11,9% e movimentou R$ 306,4 milhões. Com a diversidade em novos produtos, vamos atingir faixas ainda não integradas à cultura do seguro”, afirma.

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Há 30 anos no ramo de resseguros em grandes eventos que envolvem obras de arte, Marcio Ribeiro, sócio da corretora KNW, reforça que o avanço de novos hábitos levará à oferta de novos produtos.

“O seguro entra no mercado quando há uma sinistralidade conhecida. Ferramentas de geolocalização tendem a ser mais usadas na precificação do seguro residencial e em acervos de colecionadores. As mudanças climáticas podem ser consideradas na precificação, caso as obras estejam em um local propenso a chuvas intensas, por exemplo”, diz Ribeiro.

Metaverso e NFT

Ainda incipientes, os eventos no metaverso e as operações de NFT já estão no radar das companhias. Casos recentes envolvendo o hackeamento de NFTs geram insegurança entre os investidores.

No fim de abril, criminosos digitais surrupiaram cerca de R$ 15 milhões em NFTs da coleção da Bored Ape Yatch Club (BAYC), uma das mais valiosas do planeta, estimada em R$ 5 bilhões, a mesma pela qual o jogador Neymar adquiriu dois NFTs de ilustrações de macaquinhos coloridos por U$S 1,1 milhão, em janeiro. O mais intrigante é que o roubo não foi na plataforma da comunidade virtual, mas, sim, na conta de Instagram da BAYC.

“Temos uma frente estudando e prototipando soluções de acordo com o que já sabemos do tema. As NFTs são bens únicos e insubstituíveis. Estamos analisando o mercado e verificando as diversas empresas que estão entrando nesse universo.

Há espaço para o seguro de NFTs, algumas avaliadas em milhões de dólares. Um dos passos será o estabelecimento de prêmio e pagamento de benefícios em criptomoedas”, afirma Helder Molina, CEO do Grupo Mongeral Aegon.

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Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo Seguros, concorda com o colega, mas pondera quanto à falta de informações no segmento. “NFTs são seguráveis assim como as transações de imóveis, veículos e obras de arte no metaverso. O horizonte é promissor, mas para que seja sustentável e segura, ainda demanda investimentos da seguradora para a precificação, além de transparência e segurança jurídica”.

Para Mauricio Masferrer, head de comercial risk da Aon Brasil, há gargalos a considerar quanto aos direitos autorais e riscos cibernéticos.

“As NFTs criadas a partir de obras de arte, por exemplo, não trazem consigo os direitos autorais do original. O criador pode posteriormente criar um trabalho semelhante com base no original. Em composições musicais, é difícil determinar a autoria. São questões que podem invalidar uma operação. Quanto à segurança, uma vez que as NFTs são armazenadas no blockchain e as pessoas armazenam suas chaves de propriedade privada em suas ‘carteiras pessoais’, há poucas chances de recuperá-las em caso de hackeamento”, explica.

Debate sobre rodas

Ramo responsável por 42,8% da arrecadação de prêmios em danos e responsabilidades, segundo a FenSeg, o seguro de autos deve passar por grandes inovações tecnológicas.

“Com base em digitalização, automação e analytics, vamos expandir em seguros para motos e bikes, reforçando os controles de documentação para saber a procedência e evitar fraudes. Em 2021, crescemos mais 200% em seguros para motos, comparado a 2019”, afirma Marcos Picanço, CEO da Porto Seguro.

Já a chegada do carro autônomo nas ruas ainda representa um desafio. Para Masferrer, da AON, o risco tende a ser compartilhado nas partes operacionais e cibernéticas do veículo. “O dano físico ao veículo passa a ser acessório.”
Com passagens pela Porto e pela Itaú Seguradora, Marcelo Blay, VP de seguros da Creditas e CEO da Minuto Seguros, considera prematuro elaborar um modelo de apólice, mas entende ser necessário um debate sobre o tema.

“Vai exigir mudanças por parte da legislação, do sistema viário, da sincronização semafórica e da consolidação do 5G. Será necessário um sistema padrão que defina as responsabilidades da montadora, da prestadora de serviços cibernéticos e da operadora da rede. É um enorme desafio para as seguradoras”, diz. E há a questão dos furtos e roubos, que tanto podem se encaixar na apólice do veículo como em outra de riscos cibernéticos.

Mais próxima, afirma Blay, está a formatação de apólices para os veículos elétricos quanto a eventuais danos quando o carro estiver sendo carregado em um condomínio. “O responsável pelo seguro do condomínio precisa ficar atento quanto às cláusulas de exclusão em casos de danos elétricos à rede”, alerta.

Drones, acessibilidade e tacada perfeita

Seguros “fora de cogitação” no passado foram lançados na última década. Se, em maio de 2012, alguém sugerisse oferecer um seguro para drones, certamente seria classificado, no mínimo, como uma pessoa dotada de muita imaginação.

Afinal, há dez anos, aquelas pequenas engenhocas aéreas operadas remotamente eram de uso exclusivo das Forças Armadas ou para ações especiais de prospecção terrestre e marítima. Até então, eram objetos tão estranhos no céu quanto um disco voador.

Apenas em 2017, a Agência Nacional de Aviação (Anac) autorizou a comercialização para o público em geral – e o brinquedo caiu no gosto popular, seja para lazer, seja para fins profissionais, principalmente entre fotógrafos e para levantamentos topográficos.

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Em 2019, quando já havia mais de 60 mil equipamentos no mercado, a Mapfre lançou um produto específico, com limites segurados a R$ 80 mil para modelos de asas rotativas e até R$ 500 mil para os de asas fixas. O seguro cobre acidentes durante a decolagem, voo e pouso, inclusive de terceiros, caso o aparelho cause danos físicos ou materiais.

Cadeiras, próteses e paralimpíada

A inovação tecnológica é fundamental para o desenvolvimento de novos produtos, assim como o amadurecimento de novos hábitos de comportamento. É o caso da valorização da acessibilidade para idosos e pessoas com necessidades especiais.

Há dois anos, a Allianz passou a oferecer seguros para cadeiras de rodas (motorizadas e não motorizadas), próteses de membros superiores e inferiores e aparelhos auditivos. Segundo Karine Barros, diretora executiva comercial da Allianz
Seguros, a proposta surgiu a partir da maior visibilidade dos Jogos Paralímpicos.

“No caso dos atletas paralímpicos, sentimos que havia necessidade de encontrar um seguro adequado para seus equipamentos. Por sermos uma seguradora global, modelamos o produto e firmamos parceria com entidades esportivas por oito anos. Hoje, no mercado brasileiro, a contratação está concentrada nos equipamentos de alto valor de reposição. Mas há espaço para evoluir”, afirma.

Hole in one

Seguros para camadas mais restritas foram uma novidade na última década. Pelo menos quatro grandes seguradoras – Sompo, Porto Seguro, Mapfre e Allianz – oferecem um produto exótico chamado “hole in one”, destinado a golfistas que conseguem a proeza da “tacada perfeita”, ou seja, encaçapar a bola com uma única tacada em um buraco que esteja a uma distância média de 100 metros.

O feito é tão raro – uma jogada a cada 12.500 tentativas – a ponto de haver um rito de comemoração no fim da partida, no qual o autor da jogada paga os comes e bebes para os demais colegas. Tal evento costuma ser generoso, dado o perfil dos sócios de um clube de golfe. Mas o que poderia ser uma dor de cabeça na hora de passar o cartão pode ser só motivo de festa caso o clube (ou o atleta) tenha contratado o “hole in one”, que cobre todas as despesas.

Há público suficiente que justifique esse seguro?

Segundo a Confederação Brasileira de Golfe, o esporte tem cerca de 20 mil praticantes, o dobro de 15 anos atrás. Sem revelar detalhes e nomes, Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo Seguros, confirma que já houve felizardos recebendo essa curiosa indenização.

Reportagem originalmente publicada na edição 96 da Forbes Brasil, de maio de 2022

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