Como Adriana Samuel se tornou a gestora por trás de 22 atletas brasileiros dos Jogos Olímpicos de Tóquio

A ex-jogadora de vôlei de praia foi medalhista em Atlanta e Sydney. Hoje, ela faz parte do Time Petrobras.

Maria Laura Saraiva
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Carlos Neto
Carlos Neto

Adriana Samuel [foto] é a atual gestora de patrocínios e talentos do Time Petrobras

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Era só ouvir o nome da seleção brasileira que a pequena Adriana Samuel corria para a frente da televisão na sua casa na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Com o coração acelerado e os olhos cheios de lágrimas, a menina de 12 anos se emocionava com a imagem do pódio sem nem imaginar que, um dia, ela própria estaria ali, recebendo duas medalhas olímpicas para o Brasil: uma de prata, em Atlanta (1996), e uma de bronze, em Sydney (2000).

“Parecia que um imã me atraía para a frente da televisão cada vez que eu via as cores do Brasil. Eu enxergava tudo aquilo hipnotizada”, confessa a ex-jogadora de vôlei de praia. Ao lado de Mônica Rodrigues, Jacqueline Silva e Sandra Pires, Adriana foi considerada a primeira mulher brasileira a subir no pódio olímpico representando o país. Mas o pioneirismo não veio só no esporte. Como gestora e captadora de patrocínios, Adriana é o nome por trás de 22 grandes promessas nacionais nos Jogos de Tóquio.

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Responsável pelo Time Petrobras, grupo que reúne atletas olímpicos e paraolímpicos como o canoísta Isaquias Queiroz, o ginasta Arthur Nory e o nadador Daniel Dias, a jogadora começou a carreira de gestora – mesmo que de modo informal – quando decidiu que ela mesma iria administrar os recursos da dupla com Mônica Rodrigues. Compromisso que cumpriu à risca já que, diferente de muitos atletas, Adriana afirma – com orgulho – que nunca ficou sem patrocínio. “Eu era uma marqueteira que jogava vôlei – e não o contrário”, diz.

Das quadras para a areia…

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A vida no esporte também começou cedo para Adriana Samuel. Filha de militar e irmã do meio entre dois meninos – incluindo o caçula Tande, ex-jogador da seleção brasileira de voleibol -, foi incentivada desde cedo a levar um estilo de vida ativo. “Eu era bem moleque, estava sempre descalça e passava o dia brincando com meus irmãos e os amigos deles”, lembra. E foi nesse vai e vem da praia e das quadras que, aos 13 anos, a jovem foi notada por um olheiro do time mirim do Botafogo, onde passou a jogar vôlei de quadra profissionalmente.

Adriana conta que, naquela época, chegava a ouvir comentários machistas e preconceituosos dos colegas dos irmãos, mas que inspirada pela força da mãe, Maise Samuel, insistia nos treinos sem se importar com a opinião alheia. “Vendo com os olhos de agora, isso era uma coisa que poderia ter me afetado. Eles sempre me chamavam de menino, me comparavam aos outros moleques. Mas nisso eu sempre pude contar com a minha mãe, meu maior ídolo. Ela sempre me disse que eu precisava ter a minha vida independente e conquistar o meu futuro sem ajuda de homem nenhum. Foi o que eu fiz.”

Já na seleção brasileira de vôlei feminino, em 1992, Adriana fez o movimento mais importante da sua carreira quando decidiu migrar da quadra para as areias. A decisão, na época, foi motivada por uma frustração – ela tinha sido cortada da equipe antes das Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, em 1988. “Fui para a areia quando nem sonhávamos que o esporte se tornaria olímpico”, diz. A jogada, entretanto, mostrou-se certeira quando o Comitê Olímpico Internacional anunciou o vôlei de praia como uma das novas categorias dos jogos de Atlanta, em 1996.

Com o pé na areia, Adriana precisou se desdobrar para gerenciar sua carreira ao lado de Mônica Rodrigues. “Na quadra, eu só precisava me preocupar com meu desempenho, porque o time tinha uma equipe que cuidava de tudo. Já na praia, nós tivemos que correr atrás tanto de treinadores quanto de alguém que nos bancasse”, explica. Seguindo sua inclinação natural para os negócios, logo Adriana tomou as rédeas da dupla. “Naquela época, a gente treinava de manhã e no final da tarde, ficando com um período livre no meio dia para descansar. Enquanto as outras meninas passavam esse tempo dormindo, exaustas dos exercícios, eu ficava ligando e mandando e-mail para as marcas, em busca de ajuda.”

Logo a aspiração profissional foi ficando tão séria que Adriana se animou e foi estudar marketing na Faculdade Getulio Vargas. Sem tempo na agenda para conciliar a escola e as viagens e campeonatos, a jogadora não chegou a concluir uma graduação na área, embora o interesse sempre a fizesse voltar para a sala de aula. “Quando eu começava a faltar o pessoal até já sabia, me via na TV e avisava o professor”, lembra.

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A determinação levou a dupla às Olimpíadas de Atlanta naquele mesmo ano. “Quando o vôlei de praia virou olímpico, eu vi ali uma chance que não podia deixar passar”, diz. Aos 30 anos, Adriana estava realizando o sonho de infância ao jogar com o uniforme verde e amarelo, sob os olhares atentos da torcida do mundo inteiro. A medalha de prata acabou vindo de um combate histórico contra outra dupla brasileira,Jacqueline Silva e Sandra Pires, as mesmas que nem contavam com um campeonato estruturado quatro anos antes. Ao superar as favoritas duplas norte-americana e australiana, o quarteto foi responsável por levar as primeiras medalhas femininas para o Brasil.

“As Olimpíadas foram uma emoção indescritível, tanto Atlanta como Sydney. E não tem nada a ver com a vitória. Estar ali e sentir aquela energia já era algo incrível”, comenta Adriana.

… e da areia para o escritório

Uma vez fora da praia, após a competição na Austrália, Adriana encarou com naturalidade uma nova transição. Se é que houve transição. “As outras duplas começaram a pedir minha ajuda e eu continuei fazendo aquilo que eu gostava, que era cuidar dos bastidores do esporte”, conta.

Naquela época, ainda atuando de maneira independente, Adriana chegou a trabalhar para atletas como Emanuel e Ricardo, medalhistas de ouro em Atenas, em 2004. “Eu lembro de estar andando no supermercado quando vi uma marca de suco que chamou minha atenção. Anotei o e-mail deles e mandei uma mensagem oferecendo um teste de patrocínio para uma final que seria transmitida na Globo. Os meninos nem tinham se classificado ainda, mas eu já tinha combinado tudo com a empresa. No final, eles não só jogaram como foram campeões mundiais. A partir dali, a marca se tornou uma patrocinadora fixa por muito tempo”, recorda a ex-atleta.

Foi a partir do ciclo Olímpico de Londres, em 2012, que a jogadora foi chamada para gerir uma equipe completa de atletas, o Time Embratel. Adriana ficou responsável por nomes como o do nadador César Cielo e da judoca Rafaela Silva. A parceria deu tão certo que ela acabou estendendo o contrato até o ciclo do Rio, em 2016. Naquele mesmo ano começaram as negociações com a Petrobras, para quem Adriana trabalha até hoje captando patrocínios, fazendo a seleção dos talentos e conduzindo a mediação entre a companhia e os atletas.

“Acredito que por ter tido uma forte vivência no esporte, acabei tendo uma visão mais clara dos negócios. Hoje eu consigo entender tanto o lado dos atletas, que às vezes precisam de um período com foco total nos treinos e nas competições, como o lado da marca, que demanda presença em eventos ou até aparições estratégicas”, afirma. Assim, um dos motivos pelos quais ela atribui seu sucesso como gestora é, justamente, o passado. “Os atletas do time me olham com muito respeito pelo fato de eu ter sido medalhista. Até porque alguns ainda estão tentando buscar seu lugar no pódio”, explica.

Há 25 anos do início da sua trajetória olímpica, Adriana Samuel está vivendo seu segundo sonho como profissional. Atraída desde jovem pela imagem da mulher executiva, a gestora já pode afirmar que é sucesso muito além do voleibol. “Ser uma mulher de negócios sempre foi um desejo meu. Toda essa aura de poder, isso me estimulava muito”, diz.

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De olho nos jogos de Tóquio, a ex-atleta também se divide entre a maternidade e o comando de duas iniciativas sociais. O primeiro, criado em 2004, é a Escola de Vôlei Adriana Samuel, voltada para crianças carentes da região de Deodoro, no Rio de Janeiro. O mais recente, desenvolvido em 2018, é o Projeto Sem Barreiras, que incentiva a prática de esportes como vôlei, judô e atletismo para jovens entre quatro e 17 anos. O projeto, patrocinado pelo Itaú, já conta com 200 nomes inscritos.

Para o futuro, os sonhos continuam. Idealizadora de um projeto voltado para e-sports, modalidade esportiva de games eletrônicos, Adriana quer fazer a ponte entre o ambiente digital e os moradores de periferias. “O que eu mais amo nesse mundo é tirar as ideias do papel. Isso me deixa tão feliz quanto ganhar uma medalha”, afirma. Apelidado de Gaming Parque, a plataforma também oferecerá cursos de inglês e de programação. “O esporte mudou a minha vida. Então imagina o que ele pode fazer pelos outros”, finaliza.

 

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