Primeira universitária da família, Grazi Mendes busca mundo plural

Head de DE&I da Thoughtworks também é cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão, e do cursinho popular pré-Enem Morro do Papagaio.

Martina Colafemina
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Grazi Mendes transforma as próprias experiências em oportunidades para que outras jovens sejam mulheres de sucesso. Ela é head de diversidade da Thoughtworks e fundadora do cursinho Pré Enem Morro do Papagaio

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Nascida na periferia de Belo Horizonte, Grazi Mendes leva sua identidade em cada etapa da carreira. Fazer com que meninas periféricas sonhem com o que podem aprender no cursinho Morro do Papagaio ou ver a felicidade de uma candidata que se espelha nela para usar suas tranças são algumas das histórias que fazem seus olhos brilharem. “Tudo que eu faço hoje e os lugares que eu ocupo se conectam muito com as minhas identidades e com o lugar de onde vim”, reflete.

Como head de D&I da consultoria em tecnologia Thoughtworks, ela participou do primeiro processo seletivo afirmativo para pessoas negras do Brasil. Também foi uma das criadoras da Ponte, uma consultoria de inclusão e equidade que atua na educação e construção de espaços acolhedores com as empresas. É LinkedIn Top Voice e foi eleita pelo prêmio Ser Humano da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos) como personalidade profissional da área de pessoas em 2022.

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Mendes contou sobre seus primeiros passos como profissional e a importância do estudo em sua vida. Com o cursinho do Morro do Papagaio, ela quer possibilitar que mais jovens periféricos como ela tenham as mesmas oportunidades.

Forbes Brasil: Como você tomou gosto pelos estudos e pela tecnologia?

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Grazi Mendes: Nasci e fui criada na periferia de Belo Horizonte. Era uma menina negra de pele clara lidando com várias questões da própria identidade. Fui aquela criança criada para não seguir a carreira hereditária da minha mãe como empregada doméstica. Ela me dizia sempre que eu tinha que estudar para ter mais oportunidades do que ela. Ela começou a trabalhar em uma casa de família aos 12 anos, então nunca pôde estudar. Mas me deu essa responsabilidade. Todos os dias ela saía muito cedo para trabalhar, cuidando de outras famílias, enquanto os três filhos dela precisavam ficar sozinhos e se cuidarem. Acabei sendo alfabetizada pela minha irmã mais velha. Ela chegava em casa e repetia o que vivia na escola e aquilo para mim era afeto. Fiquei encantada com o estudo. Durante a vida escolar, sempre fui uma aluna daquelas de nota 10 e isso me moveu. Eu cresci dentro de muita precariedade, tinha pouquíssimos livros em casa, mas até por conta da minha personalidade introvertida, era com eles que eu viajava. Aos nove anos, me tornei presidente de um clube de leitura na escola. Os livros me salvaram muitas vezes até da fome. Quando estava de estômago vazio, às vezes minha mãe dizia ‘vai dormir que o sono alimenta’, mas era na leitura que eu encontrava também um espaço de me desconectar daquela realidade dura. Comecei a mexer com computadores também muito cedo, porque no início da década de 1990 ouvíamos muito que os computadores iriam mudar o mundo. Eu não tinha grana para comprar um, mas fui fazer um curso técnico para aprender sobre manutenção de computadores. Foi meu primeiro trabalho remunerado. Fui aprendendo e me encantando cada vez mais com a tecnologia. E porque a tecnologia também ficava nesse lugar de imaginar um futuro diferente. Ganhei uma bolsa de estudos para a universidade e escolhi fazer administração. Fui a primeira da família a fazer faculdade.

FB: Já no mercado de trabalho, quando você passou a ter um olhar para a diversidade?

GM: O fato de eu estar em uma universidade renomada abriu portas para meu primeiro estágio em uma multinacional de telecomunicações. Eu estava em um contexto muito efervescente de mudanças e inovação e trabalhei por bastante tempo com isso. Rapidamente, assumi uma posição de liderança no início dos meus 20 e poucos anos. Mas tudo para mim acontecia por conta das pessoas; a tecnologia era um objeto, mas o sujeito da mudança eram as pessoas que estavam criando aquilo.

FB: Quais foram as primeiras iniciativas para a diversidade em suas posições?

GM:  Comecei a olhar cada vez mais para os meus times refletindo sobre a minha própria constituição como uma líder, mas sem desconectar da minha humanidade. Eu acho que muitas vezes os espaços corporativos fazem esse sequestro da nossa subjetividade. A gente passa a se tornar quem a gente está. Eu tinha muito medo disso, de virar aquele robozinho corporativo que Charlie Chaplin já sinalizava. Hoje estou em uma empresa global de tecnologia, a Thougthworks, que é uma das maiores consultorias de desenvolvimento de software do mundo, pioneira em agilidade. E agilidade também se conecta muito com isso. A primeira linha do Manifesto Ágil é: pessoas e interações antes de ferramentas e processos. Então eu me conecto muito nesse lugar. Paralelamente, esse lance da educação também foi me acompanhando. Tornei-me professora universitária ali em 2006 e não parei. Fiz parte, na minha posição, do primeiro processo seletivo para pessoas negras em tecnologia, dois anos antes do ‘boom’ com o Magazine Luiza, lá em 2018. Na ocasião, o Ministério Público nos questionou se estávamos sendo excludentes. Foi importante ter feito aquilo, mesmo que a sociedade ainda não tivesse avançado nessas discussões sobre políticas afirmativas, porque estávamos muito cientes de tudo que estávamos fazendo.

FB: Houve alguma situação lidando com outros profissionais que foi motivo de orgulho para você?

GM: Fizemos um evento em Salvador totalmente protagonizado por pessoas negras, em que as pessoas brancas estavam ali não como protagonistas, mas como aliadas. Chegamos ao final e praticamente todos falaram: ‘eu não preciso nem passar, não preciso nem entrar para a empresa. Só o fato de pela primeira vez eu ter sido entrevistada por alguém em que eu me reconheço já valeu’. As pessoas brancas são entrevistadas por outras pessoas brancas desde sempre Mas pessoas negras, não. E aí você pode ir para a entrevista com seu próprio cabelo e encontra uma mulher trançada. Isso foi muito significativo. Sou privilegiada de poder trabalhar com o que eu acredito, de poder levantar todos os dias e não aceitar as coisas como estão. Antigamente, dentro dos espaços corporativos, o cabelo era alisadinho na régua, eu não tomava sol para que a melanina da minha pele não se destacasse, não falava muito alto para não ser percebida e conseguir ter passagem. Durante muito tempo foi assim. Em uma vez, quando estavam chegando jovens aprendizes, chegou uma menina que me olhava e os olhos dela brilhavam. Ela cutucou a moça que estava junto com ela e perguntou se ali ela poderia usar tranças. A moça que estava com ela, que trabalha conosco, respondeu que ela não só poderia usar tranças, mas aquela mulher que estava trançada era uma diretora. Ela saiu dali correndo para ligar para a mãe porque ela tinha pedido para ela tirar suas tranças, já que estava entrando em uma grande empresa. Na semana seguinte, essa menina, Jéssica, volta com tranças azuis, desfilando pelo escritório.

FB: Como é o trabalho desenvolvido no cursinho Pré Enem Morro do Papagaio?

GM: O cursinho Morro do Papagaio consiste em um coletivo de professores que dão aula hoje nas escolas particulares mais bem pontuadas do Enem e que disponibilizam seu tempo para poder dar aula na comunidade do Morro do Papagaio. Para ingressar, os jovens, a maioria de meninas negras, escrevem e a gente faz as entrevistas para entender o contexto socioeconômico. As aulas acontecem todos os dias de segunda a sexta. Durante a pandemia, migramos para o híbrido, mas agora estamos de volta ao presencial. É um trabalho que não está focado só em conteúdo para o Enem. Entramos de fato na vida das pessoas porque pagamos internet, temos os auxílios. Via vaquinhas, já pagamos açougue, sacolão e diversos gastos durante os dois primeiros anos de pandemia. No final do ano passado, conseguimos a parceria com a Rede Brasil do Pacto Global e eles estão pagando agora esse auxílio para todas as pessoas que estudam com a gente.

FB: De que outras formas vocês garantem a permanência no cursinho? Como é feita a seleção para receber outros auxílios?

GM: Oferecemos lanche, que pode parecer algo corriqueiro, mas muitos vão exatamente para lanchar e levam parentes lancharem ali também. É uma forma da gente olhar para essas diferentes realidades. A gente dá suporte psicológico também, então fazemos parceria com alguns profissionais de saúde mental e emocional, porque são muitas as barreiras para as pessoas estarem ali estudando. Pode parecer, mas não é fácil você se inscrever para o Enem, as informações são difíceis de acessar, tem todo um processo para conseguir as isenções. Temos uma pessoa específica que acompanha cada inscrição que ajuda, pega na mão. É um aprendizado para todo mundo e é uma forma de eu estar sempre conectada com de onde eu venho e não me esquecer disso. Hoje eu sou diretora em uma multinacional de tecnologia, mas eu tenho que lembrar sempre que o meu papel  é ser ponte para que outras histórias possam acontecer, para que eu não esteja sozinha dentro desses espaços. E temos que alargar esses caminhos para que mais meninas negras periféricas possam ocupar qualquer lugar que fizer sentido para elas. Logo nas entrevistas de entrada, já questionamos sobre a realidade daquele candidato. Perguntamos se eles querem participar do auxílio financeiro, a maioria diz que sim. Vinculamos a frequência também como uma forma de incentivar a permanência, porque entrar é uma coisa, continuar assistindo às aulas é outra. Há muitas barreiras que vão se colocando. Outros alunos ganham também um auxílio médico. E tem aqueles que, em função da quantidade de pessoas que há em casa ou de algumas necessidades mais específicas, a cada mês a gente faz esse olhar muito individualizado para conseguir fazer os incrementos para quem precisa de mais.

FB: O que motivou a criação da PONTE?

GM: A PONTE nasceu de um incômodo de quatro pessoas que têm vivências diferentes. Além de mim, são mais três fundadores: uma mulher negra periférica e empreendedora, um homem gay que vivenciou uma série de preconceitos no universo do trabalho e que se tornou um grande ativista no Brasil, e uma mãe atípica que também se coloca como ponte para o próprio filho, que é cadeirante. É uma das grandes referências também no Brasil para o anti-capacitismo. Nos juntamos para poder trabalhar com as empresas desde o letramento em relação às questões de diversidade, equidade e inclusão até pensar a educação como estratégia para que as transformações aconteçam e os espaços possam ser mas inclusivos, acolhedores e plurais. Estamos trabalhando com possibilidades de futuros. As nossas identidades dizem muito sobre todos os projetos que a gente vai fazer e os que a gente não vai fazer também. Apostamos em coisas que acreditamos, não fazemos só para estar em uma foto, em um texto ou alguma campanha específica assim. Não aceitamos nenhum projeto que não passe pela educação como alavanca. Somos procurados pelas empresas e junto com elas a gente faz esses programas. Todos somos ativistas e temos os nossos projetos também. Como PONTE, nos ajudamos nessa troca de vivências, experiências e reflexões.

FB: O que lhe move?

GM: A ideia de um futuro revolucionário, que eu acredito que será plural e inclusivo. Isso me move todos os dias. Eu acordo pensando nas decisões que a minha caneta alcança para fazer a vida das pessoas um pouquinho melhor, inclusive do que foi ontem.

FB: O que move o mundo para você?

GM: São pessoas dispostas, que se importam de verdade com outras pessoas, que se importam em mover o mundo.

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