Síndrome da Impostora: o que é e como combater

A síndrome da impostora atinge especialmente mulheres e abala a confiança de 75% das executivas no mercado

Fernanda de Almeida
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A síndrome atinge mulheres em ascensão que não esperavam atingir o nível de sucesso que alcançaram

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Ao conversar com executivas, líderes ou empreendedoras e mulheres de sucesso sobre suas carreiras, é difícil não esbarrar em episódios em que elas se sentiram inseguras, quase como fraudes a serem descobertas a qualquer momento.

Esse sentimento tem nome. A síndrome da impostora atinge especialmente mulheres e é caracterizada por pensamentos que reforçam a falta de confiança e a sensação de que o sucesso atingido não foi merecido, segundo o Instituto de Psicologia da USP.

Uma pesquisa feita pela Universidade da Geórgia mostrou que 70% das executivas entrevistadas se sentiam uma fraude no trabalho. A síndrome abala a confiança de 75% das mulheres no mercado, de acordo com um outro estudo feito em 2020 pela consultoria de gestão KPMG. Entre as 700 executivas entrevistadas, 56% temiam que as pessoas ao seu redor não acreditassem que elas eram tão capazes quanto o esperado.

Quase metade das mulheres relatam que sofrem com a síndrome porque não esperavam atingir o nível de sucesso que alcançaram. E a maioria delas nutre esse tipo de pensamento ao assumir um novo papel de liderança ou ascender na profissão.

Esse foi o caso da atual diretora de marketing do Boticário, Renata Gomide. Um dia antes de receber uma proposta para assumir a área de comunicação da Eudora, marca do grupo, ela descobriu que estava grávida. E a síndrome da impostora quase a levou a desistir. “Me perguntei se eu era a pessoa certa para o cargo, se eu teria a capacidade de fazer o que precisava ser feito durante a gravidez.”

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Mas ela superou essa insegurança, assumiu o cargo e continuou subindo na carreira. A executiva conta que aprendeu a lidar com esse sentimento seguindo um conselho que passou a dar a outras mulheres. “Se tiver medo, vá com medo mesmo.”

Quanto mais sucesso, mais insegurança

O termo “síndrome da impostora” foi criado em 1978 pelas psicólogas norte-americanas Pauline Clance e Suzanne Imes, da Universidade Estadual da Geórgia. Suas pesquisas com 150 mulheres mostraram que quanto mais bem-sucedidas, mais inseguras elas se sentiam.

Isso não é à toa. À época, o mercado de trabalho era muito masculino, e, só a partir da década de 1970, a presença das mulheres se intensificou devido a transformações econômicas, sociais e culturais. A expansão da economia, a industrialização e a crescente urbanização favoreceram essa entrada, assim como os movimentos das mulheres, a queda da taxa de fecundidade e a expansão do acesso à educação.

Hoje, grandes empresas reconhecem os benefícios – inclusive financeiros – de se ter mulheres em altos cargos e criam programas para incentivar a liderança feminina, que ainda precisa ser trabalhada em diversos espaços.

No Brasil, as mulheres ocupam 38% dos cargos de liderança, segundo uma pesquisa da consultoria global Grant Thornton deste ano. Mas muitas profissionais, em diversas áreas de atuação, não tiveram referências femininas ao iniciar suas carreiras, o que vem mudando e pode fazer a diferença nas vidas de jovens mulheres. “A mulher costuma sofrer mais com a síndrome da impostora porque, muitas vezes, ela é a única ou a primeira a assumir aquele papel, o que pode resultar em uma pressão maior”, diz Janine Goulart, sócia da KPMG.

Biomédica responsável pela equipe de cientistas que sequenciou o genoma do SARS-CoV-2 em tempo recorde, Jaqueline Goes não sabia que podia ser cientista até ver outras mulheres nesse lugar. O cargo, até então, estava reservado ao estereótipo do homem, branco, de meia idade, do qual ela, como mulher negra, passava longe.

Depois de ganhar os holofotes e ser homenageada com samba enredo e até com uma boneca Barbie, ela ainda questiona esse sucesso. “Será que eu mereço? Sempre rola esse questionamento, eu sou a maior prova da síndrome da impostora.”

Falta qualificação?

Um dos sintomas da síndrome é a autossabotagem. Ao se ver em um lugar que você acredita não merecer, a tendência é desistir ou diminuir suas conquistas e distanciar a atenção.

Muitas profissionais pensam que não são qualificadas o suficiente para assumir altos cargos ou posições de liderança. Uma pesquisa divulgada pela plataforma de recrutamento InfoJobs mostra que 73,7% das mulheres sentem que precisam ser mais qualificadas do que os homens para assumir cargos de liderança.

Mas a qualificação nem sempre é o maior problema. Já com 20 anos de experiência em tecnologia, Cíntia Barcelos, atual CTO do Bradesco, ouviu o termo pela primeira vez em uma palestra e identificou muitas das suas inseguranças. “Agora parece que acende uma luz, toda vez que eu começo a fazer isso eu percebo e paro.”

Como vencer a síndrome da impostora

O autoconhecimento é fundamental para reconhecer esse sentimento ao enfrentar uma situação desafiadora e conseguir seguir em frente para se desenvolver e crescer na carreira, afirma Janine Goulart, da KPMG. Isso porque, segundo ela, existe uma falsa impressão, reforçada pelas mídias sociais, de que a mulher deve ser perfeita e ‘dar conta de tudo’.

Dicas para líderes apoiarem as mulheres a vencer a síndrome da impostora

1. Ter uma liderança solidária;
2. Fazer parte de uma equipe colaborativa que crie um senso de pertencimento;
3. Trabalhar em equipe;
4. Ter uma cultura inclusiva;
5. Criar um ambiente que valorize e recompense as mulheres da forma adequada;
6. Oferecer processos de mentoria.

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