EXCLUSIVO: Cresce valorização à saúde mental, mas qualidade do trabalho sofre

Mother Image/Getty Images
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Pesquisa revela que 50% dos profissionais afirmaram que as restrições foram negativas para seu bem-estar psicológico, enquanto os outros 50% alegaram efeito positivo 

Com um ano atribulado se aproximando do fim, a valorização à saúde mental tem ganhado força entre profissionais. Ao mesmo tempo, a qualidade do trabalho tem sofrido na pandemia e os esforços de corporações para apoiar seus funcionários ainda precisam avançar.

Estas são algumas das conclusões de um estudo com mais de 2 mil pessoas em todo o Brasil, conduzido pela healthtech Vittude em parceria com a startup mineira de pesquisa Opinion Box, obtido com exclusividade pela Forbes.

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De forma geral, o estudo verificou que as opiniões se dividem quanto à avaliação do impacto da Covid-19 na saúde mental: enquanto 50% afirmaram que as diversas restrições foram negativas ou muito negativas para seu bem-estar psicológico, a outra metade disse que estas circunstâncias tiveram um efeito positivo ou muito positivo.

No entanto, e apesar desta opinião dividida, a pesquisa nota que a maioria dos profissionais consultados (62%) passou a entender a importância de cuidar da saúde mental, e a maioria também acredita que vai sair da pandemia melhor do que era antes (57%).

Em relação às estratégias de enfrentamento destes efeitos adversos dos últimos meses, o estudo nota que 42% entendem que a internet e redes sociais, cujo uso foi intensificado na pandemia, contribuem para a ansiedade.

Dentre os entrevistados, 35% se afastaram do noticiário e de conteúdo que pudesse agir como gatilho para sensações ruins. Cerca de 28% disseram buscar cursos online, bem como leitura, 26% reforçaram as atividades físicas. Por outro lado, 21% revelaram não ter buscado nenhuma atividade para preservar seu bem-estar psicológico.

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O estudo nota que, apesar de as percepções atuais de diversos grupos em relação à pandemia, em que alguns grupos relaxaram as restrições e outros seguem em isolamento, os últimos meses deixaram marcas para a maioria das pessoas. Entre as sensações relatadas pelos participantes, houve um medo intenso relacionado à doença ou morte de um ente querido (41%), insônia (33%), ansiedade (33%), nervosismo (31%), além de um medo de contrair o vírus e morrer (29%).

Em paralelo ao sofrimento vivido por conta das novas circunstâncias, uma série de mudanças teve que ser implementada na pandemia e 32% dizem ter dificuldades em equilibrar as atividades pessoais e profissionais. A pesquisa entrevistou profissionais que incluem funcionários de empresas do setor público e privado e até profissionais de saúde atuando na linha de frente do combate à pandemia, e o padrão de trabalho destes profissionais reflete esta diversidade nos perfis.

Entre os participantes, 32% trabalharam presencialmente o tempo todo, 24% estando em home office desde o início da pandemia e 19% estavam trabalhando em casa e retornaram ao local presencial de trabalho, ao passo que 7% trabalham em casa ou no escritório.

Em relação às consequências das adaptações que precisaram ser feitas, 48% dos participantes da pesquisa disseram ter deixado de fazer atividades que lhes davam prazer, 33% se sentiram sobrecarregados com o acúmulo de funções e 24% tiveram dificuldade de manter a rotina da casa funcionando.

No ambiente de trabalho, o estudo nota uma variedade de cenários, que refletem as preferências individuais por isolamento no trabalho, proximidade de colegas ou como lidam com pressão. Dentre os entrevistados, 32% sentem que a concentração e o foco pioraram. Quando o assunto é produtividade, 29% sentem que a situação piorou ou piorou muito, ao passo que 26% sentem que ela melhorou ou melhorou muito.

No entanto, o ânimo e a disposição para trabalhar pioraram, ou pioraram muito, para 44% dos entrevistados, ao passo que 19% dizem ter ficado mais animados e dispostos para trabalhar durante a pandemia. A qualidade do trabalho e atendimento de metas também sofreu mais para a maioria: 29% dizem que este foi o caso, em comparação a 25% que dizem que entregam trabalho de melhor qualidade e batem suas metas de forma satisfatória.

“Quem está trabalhando com uma produtividade alta e uma entrega mais elevada que o normal também precisa de cuidados para que não exagere a dose e sofra depois com uma carga mental muito alta”, diz o estudo. “O trabalho em excesso pode estar mascarando outros problemas de saúde mental que precisam de cuidado.”

A percepção de 47% dos participantes é de que as empresas para as quais trabalham está preocupada, ou muito preocupada, com o impacto na saúde mental de seus colaboradores. Por outro lado, 25% dizem que seus empregadores não estão atentos a esta questão.

Entre as medidas tomadas pelas organizações que estão se movimentando neste sentido, a disponibilização de conteúdo sobre saúde mental é a principal estratégia (23%), ao passo que 18% ofereceram serviços profissionais, como psicólogos, e 17% estão realizando encontros presenciais ou virtuais sobre este tema.

Por outro lado, 47% das empresas não adotaram nenhum procedimento. O estudo também nota que as pessoas não se sentem à vontade em compartilhar seus desafios em relação à saúde mental com a empresa: 47% se disseram desconfortáveis em falar sobre isso com o departamento de recursos humanos, ao passo que 28% disse se sentir à vontade para fazê-lo.

Antes mesmo da pandemia, pesquisadores vinham notando um movimento em direção a um ponto de equilíbrio no mundo corporativo, que possibilite a desconexão do excesso de estímulos. Segundo Daniela Dantas, diretora para a América Latina da empresa de análise de tendências WGSN, a tecnologia mudou o conceito de tempo, e o homem tentou acompanhar, mas se sente ansioso, em dívida com suas atividades e em constante obrigação de saber tudo.

A situação acabou resultando em um princípio de afogamento e a sociedade mostra querer se livrar de tudo isso, diz Daniela, que falou sobre o tema no Forbes Start, conferência de inovação da Forbes na São Paulo Tech Week, em novembro passado.

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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