Quem Inova: Karin Thies fala sobre estratégia, dados e união da Geru e Rebel

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A cofundadora e chief data scientist da Open Co: personalizando taxas de juros e aumentando o acesso ao crédito

A Open Co, empresa recém-criada que une as fintechs Geru e Rebel, tem planos ambiciosos de crescimento, em que vai fazer uso massivo de análise avançada de dados para sofisticar sua oferta de crédito pessoal sem garantia e atrair novos clientes na crise.

Em conversa com Quem Inova, a cofundadora e chief data scientist da Open Co e da Geru, Karin Thies, falou sobre a estratégia para 2021 das empresas, que anunciaram sua fusão no mês passado rumo ao objetivo de ser “a maior fintech de crédito do país”, bem como os desafios da crise e questões de gênero no ecossistema de inovação brasileiro.

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Unidas e capitalizadas – a Open Co atraiu um aporte série C de R$ 150 milhões liderado pelo Goldman Sachs e IFC logo depois da fusão – as empresas vão atuar separadamente, lideradas por Sandro Reiss, fundador e CEO da Geru, e Rafael Pereira, fundador e CEO da Rebel.

As fintechs focam em públicos distintos: a Geru atende um público com mais maturidade financeira, ao passo que a Rebel foca em consumidores que não tinham o crédito aprovado em outras instituições. Porém, ambas as empresas, que já atenderam mais de 250 mil clientes e R$ 1,5 bilhão em empréstimos originados, tem objetivos em comum. “Mesmo nesse momento de crise e diminuição da atividade econômica, pretendemos crescer muito. As marcas vão permanecer separadas perante o público consumidor, mas o objetivo é, internamente, fazer um melhor aproveitamento dos clientes de toda a base”, conta a empreendedora.

Um dos objetivos da fusão entre a Rebel e a Geru era tornar o grupo mais atraente para investidores, segundo Karin. Apesar de ter fechado uma rodada recente, a cofundadora comenta que buscar investidores não é uma tarefa fácil e atual situação do país não contribui. Por outro lado, diz que conseguir crescer apesar da adversidade é justamente o que conquista investidores. Além disso, a recuperação econômica está ligada a aspectos como o acesso a crédito, o que traz oportunidades para negócios como a Open.

“Existem previsões que bancos vão diminuir a oferta de crédito por conta dessa nova onda da crise sanitária. Mas nós não pretendemos fazer o mesmo, muito pelo contrário: a ideia é continuar a oferecer crédito e, oportunamente, ofertar ainda mais, com a ajuda dos dados”, ressalta.

UNINDO LEGADOS

A prioridade da Open é alcançar o público que procurou a Geru ou a Rebel no passado, e teve o crédito recusado, um legado de cerca de aproximadamente 5 milhões de clientes. “O processo e avaliação no crédito digital é muito rigoroso por ter alguns riscos a mais do que no mercado tradicional. Ao sermos seletivos, acabamos deixando um público de fora, que poderia ser aprovado dentro de um outro processo”, detalha.

Para isso, a empresa implantou um processo diferente de avaliação, em que consumidores que não tiveram credito aprovado na Geru podem conseguir na Rebel e vice-versa, e uma série de mudanças no parque tecnológico das empresas está acontecendo para viabilizar essa operação.

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A Open tem todos os CPFs que já passaram por análise nas marcas Rebel e Geru armazenados, incluindo uma base de clientes que já foram aprovados em uma das marcas, e resultaram em inadimplência ou em suspeita de fraude. No novo processo, quando o CPF retornar ao fluxo da outra marca, será possível obter o histórico e, assim, dar uma “nova chance” ao cliente. “O primeiro grande desafio que temos é a integração do legado das duas marcas”, ressalta Karin, em referência aos CPFs que já existem.

Apesar de as bases de clientes recusados no passado ainda precisarem ser integradas, o atual modelo de operação da Open já faz o direcionamento automático de CPFs que são recusados por uma das fintechs do grupo para o fluxo de análise da outra, de forma a aumentar a possibilidade de aprovação de crédito.

“Nosso objetivo em manter as duas marcas dentro da empresa é de conseguir conceder o crédito para um volume maior de CPFs e com uma taxa adequada para cada tipo de cliente que nos procura: as pessoas merecem ser tratadas de forma individualizada e isso nunca foi tão relevante”, diz Karin.

Os empréstimos da Open são securitizados através de operações estruturadas via debêntures ou FIDCs (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). A remuneração é feita pela originação do crédito, por uma taxa referente à gestão da carteira, ou pela rentabilidade dos empréstimos.

Para chegar à conclusão de quem recebe crédito ou não, a fintech utiliza um fluxo de avaliação que inclui a utilização de dados de cadastro, combinados ao score de bureaus de crédito, além de fontes não-tradicionais, como os dados disponibilizados pelo governo, que podem incluir o histórico de entrega de declaração de imposto de renda fornecido pela Receita Federal, e mais recentemente os dados relativos ao auxílio emergencial disponibilizados pela Previdência Social.

“As fontes públicas, estão entre os [elementos] mais ricos [da análise de crédito], pois são dados altamente confiáveis e que estão abertos para utilização”, ressalta Karin, que vê com bons olhos os movimentos do governo rumo a um repositório único de dados do cidadão e à criação do documento de identidade nacional.

“Uma mesma pessoa pode ter mais de um RG emitido em estados diferentes: não é uma identificação única, como o CPF”, explica a cofundadora da Open. “Quando o governo diz que vai centralizar documentos como o RG, CPF, CNH e outros de forma digital, isso beneficia muito o mercado de crédito porque traz confiabilidade para o processo de identificação e facilita o acesso [aos dados do consumidor].”

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A Open também tem reforçado suas políticas de prevenção a fraudes após os megavazamentos de dados dos últimos meses. “Como sabemos que os dados [pessoais] estão circulando por aí, e que eventualmente pessoas mal-intencionadas podem fazer uso destes dados, temos intensificado nosso cuidado na identificação do cliente e de fraudes”, aponta.

A fusão da Rebel e da Geru também trouxe ao grupo um novo olhar para o open banking, modelo em que empresas deverão, obrigatoriamente, compartilhar informações financeiras de um cliente, se ele solicitar e autorizar a transmissão dos dados para outra instituição.

Karin explica que a Rebel já pedia a autorização do consumidor para avaliar o extrato bancário como parte do processo de análise, e da definição da taxa de juros, e que este elemento é um grande diferencial. “Isso já é um habilitador da experiência de uso do que seria o open banking”, conta, acrescentando que o objetivo atual é utilizar esta estrutura para analisar dados de clientes de forma mais ampla quando o modelo de open banking for implementado.

NOVOS MODELOS DE TRABALHO

O grupo que compreende a Geru e a Rebel hoje tem cerca de 260 funcionários, que tem operado remotamente desde o início da pandemia. Os dois escritórios foram mantidos, mas, segundo Karin, a empresa descobriu que trabalha bem em home office. Além disso, o modelo remoto tem possibilitado o acesso à expertise de áreas como o interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, algo que até antes da pandemia, era impensável.

“Hoje, a gente consegue contratar candidatos no país inteiro. Virou uma coisa natural ter uma equipe com pessoas que fisicamente estão localizadas em vários locais: antigamente, a gente exigia que a pessoa estivesse em São Paulo, mas com a Covid-19, esse limite se rompeu”, diz a cofundadora.

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“Seremos uma empresa remote-first: prioritariamente, trabalhamos de forma remota. Isso funciona super bem, e inclusive notamos um pequeno aumento da produtividade individual de funcionários assim como do grupo”, aponta, acrescentando que atualmente há a opção de ir ao escritório, que está aberto com 30% da capacidade, mas que talvez os locais físicos não façam mais sentido no futuro.

Uma das únicas mulheres listadas no relatório 100 Super Founders, da Distrito, que elenca os fundadores de startups de maior destaque no Brasil – a outra é Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank – Karin diz que a escassez de mulheres no ecossistema de startups brasileiro tem a ver com uma herança de disparidade de gênero no mercado de forma geral.

“Essa herança histórica acaba se revelando também entre as startups”, aponta, ressaltando que o problema é real especialmente entre as fintechs. “O mercado financeiro também tem um número menor de mulheres e mais ainda em postos de liderança: a coisa não muda só porque a empresa é uma startup.”

“É preciso criar boas condições de trabalho para mulheres em startups e o mesmo vale para [os outros tipos de] diversidades, como a racial. Ainda temos muito a avançar neste sentido, é um processo longo. Mas acho que estamos caminhando neste sentido”, avalia, acrescentando que a própria Open busca formas de abordar as realidades diversas de seus funcionários através de embaixadores de vários grupos de afinidade, bem como eventos e envolvimento dos fundadores nas discussões.

Karin diz sentir-se responsável por avançar a pauta de gênero na Open, e diz que este foco esteve presente desde a fundação da Geru. “Em recrutamento, principalmente para os times de tecnologia, sempre tentamos trazer mais mulheres e, quando os currículos não chegavam, esperávamos mais um pouco ao invés de simplesmente decidir [contratar homens]”, aponta a empreendedora. “Se você deixa as coisas acontecerem sem este olhar, acaba reproduzindo o que é visto como normal em empresas prioritariamente masculinas.”

Este cuidado em atrair e desenvolver mulheres também inclui evitar reproduzir o que a cofundadora descreve como “atitudes arcaicas”, como evitar contratar mulheres jovens para caros executivos por um receio de que, cedo ou tarde, a funcionária decidiria ter filhos e abandonar a carreira. “Este é o tipo e pensamento que não nos ajuda em nada. Sempre falei sobre isso com meus sócios, e não usamos isso como critério de escolha, e isso faz muita diferença, nas equipes, com mulheres se desenvolvendo de forma igual [aos pares masculinos].”

Outra preocupação é garantir salários iguais para as mesmas funções, independente de gênero. “Com isso, é possível criar equipes mais robustas, em que mulheres se destacam e chegam ao nível de comando, até se tornarem fundadoras de novas empresas.”

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação e comentarista com duas décadas de atuação em redações nacionais e internacionais. Colabora para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros. Escreve para a Forbes Tech às quintas-feiras

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