Futurista brasileiro cria série que contrapõe a distopia de Black Mirror

Fundador da edtech Aerolito e expert da Singularity, Tiago Mattos acredita que o otimismo ajuda na compreensão de novas tecnologias.

Luiz Gustavo Pacete
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Tiago Mattos: “Admiro a série Black Mirror do ponto de vista de entretenimento, mas tenho divergências pelo lado filosófico”

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O ano é 2030 e o fundador da startup Vibez dá uma entrevista explicando o sucesso de sua plataforma: um aplicativo criado pós-carnaval de 2022 que emite boas vibes para os usuários. Essa cena abre um dos episódios da série “White Mirror”, desenvolvida pela edtech Aerolito, especializada em alfabetização para futuros. Em três episódios, o conteúdo se propõe a colocar em perspectiva um mundo pós-pandemia, porém, sob uma ótica leve e bem-humorada.

Tiago Mattos, fundador da Aerolito, expert da Singularity e futurista, explica que o objetivo de contrapor Black Mirror é tentar, de alguma forma, apresentar um tipo de ficção que fuja do lugar comum da distopia pela distopia. Que seja leve, conecte bom-humor e consiga ajudar a refletir sobre o futuro da sociedade. “Admiro a série Black Mirror do ponto de vista de entretenimento, mas tenho divergências pelo lado filosófico já que, na minha opinião, ela exagera nas provocações distópicas, chegando, em alguns casos, a causar mal-estar no público.”

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A ponderação de Tiago vai de encontro com algumas críticas direcionadas à série. Porém, a própria Black Mirror, em um de seus episódios, também tentou subverter sua abordagem. Em 2016, ao comentar o episódio quatro da terceira temporada, o diretor Owen Harris reforçou que havia ali uma tentativa de não ter um fim depressivo e, por isso, de alguma forma, acabou por ser elogiado pelos fãs. “No final dos episódios, a série permite essa subversão e com um olhar provocativo, mas mesmo com essa visão um pouco mais animadora e otimista, ela acaba sempre conectada a uma visão que tira as pessoas da zona de conforto”, disse Harris.

Para Tiago Mattos, em alguns casos, essa “sensação negativa” causada pela série pode dificultar algumas discussões sobre cenários futuros. “Não raro, os avanços tecnológicos acabam se tornando alvo de uma visão pessimista. De certa forma, acabamos por educar uma geração que acredita ser bom se afastar da tecnologia e que o futuro será pior que o presente. Penso de outra forma.” A partir dessa critica, Tiago acabou por deixar a ideia incubada, até que a pandemia contribuiu para tirar o projeto do papel. “Como poderíamos contribuir para essa mudança de percepção? Talvez fazendo algo que fosse o avesso do Black Mirror – o White Mirror. Uma série que trouxesse humor e leveza para o tema”, conta.

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O episódio San Junipero tenta, segundo seu diretor, subverter a lógica de Black Mirror para um olhar mais otimista

No ano passado, em entrevista à Forbes Brasil, Tiago falou sobre o desenvolvimento de uma trilha de aprendizado de futures literacy, considerada pela Unesco a principal habilidade para lidar com o mundo pós-pandêmico. Na ocasião, ele deixou clara a importância e a conexão da ficção com esta disciplina. Questionado por Forbes Brasil sobre o cuidado em se referir a um momento de tanta dor e sofrimento para a humanidade, ainda que indiretamente, Tiago reforça que mesmo que o cenário “exagerado” da série ajude a ter um distanciamento de um momento tão difícil “foi feito com muito cuidado, respeitando a tragédia da pandemia. Inclusive, nosso foco nunca fica na pandemia em si. Mas nos seus possíveis desdobramentos.”

O futuro e a ficção podem ser otimistas?

Responsável por liderar várias dinâmicas de inovação e testagem de cenários futuros em grandes empresas, Tiago Mattos reforça que a série é apenas uma reflexão lúdica sobre o futuro que está sendo construído. “Em ‘Communicating With The Future’, Thomas Frey, um dos futuristas mais cultuados da atualidade, compartilha uma ideia que transformou radicalmente a minha forma de perceber a realidade. Parafraseando o autor: ‘O que você faz hoje muda seu amanhã. Mas a forma como você imagina o seu amanhã também muda o seu hoje. Portanto, não é apenas o presente que constrói o futuro. O futuro, ou a sua ideia de futuro, também está construindo, neste exato momento, o presente.”

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“Se você acha que amanhã haverá uma crise financeira, hoje você economiza. Se você acha que amanhã estará doente, hoje você se cuida mais. Portanto, não é apenas o presente que lapida o futuro. Neste exato momento, o futuro (nossa ideia de futuro) está lapidando o nosso presente. Esses dois tempos são indissociáveis para uma vida mais plena, produtiva e – principalmente – feliz. Se você junta dinheiro hoje, amanhã tem uma reserva financeira. Se você se alimenta bem hoje, amanhã estará saudável. Portanto, o presente constrói o futuro.”

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White Mirror coloca em perspectiva um futuro imaginário que conecta sociedade e tecnologia

Para Tiago, a ficção ocupa um lugar bastante importante. “É sabido que a espécie humana adora aprender através de histórias. Portanto, se eu tentar explicar um conceito complexo só com argumentações pesadas, dados e fatos, tabelas e estatísticas, perderei minha audiência nos primeiros cinco minutos. Mas se eu for capaz de traduzir essa mesma lição através de uma história, você terá muito mais sucesso. Então, para um estudioso de futuros, a ficção é uma ferramenta fundamental para tangibilizar e ilustrar conceitos subjetivos e complexos.”

Futuro, pós-pandemia e negócios

Uma das frases mais repetidas recentemente no mundo corporativo foi a máxima de que a pandemia acelerou a transformação digital. Para Tiago, já é possível afirmar com convicção que as empresas que só tinham iniciativas não digitais migraram para o digital. “E as que já estavam no digital começaram a pensar na expansão do que estava sendo chamado de digital. Universidades agora não brigam mais com o EAD. Clínicas não resistem mais às consultas remotas. A grande questão é que este é apenas o início do fenômeno de transformação digital. Quem parar no digitalizado será engolido pelas novas ondas que virão neste mundo pós-pandemia.”

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