Agro volta a surpreender com safra recorde e alta nas exportações

Hans Neleman/Getty Images
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Além de carnes, o país se destacou também nas exportações de soja, de produtos florestais, do complexo sucroalcooleiro, cereais, farinhas e preparações

Da crise deflagrada pela pandemia do coronavírus em 2020, poucos – pouquíssimos – setores saíram ilesos. Pois o agronegócio brasileiro não só manteve o bom ritmo dos últimos anos como também conseguiu crescer. Surpreendeu com uma safra recorde e com as exportações aquecidas. “O ano de 2020 vai entrar para a história do agronegócio. Tivemos um consumo de alimentos firme no mercado interno e no externo, puxado especialmente pela demanda asiática e pelo câmbio. A desvalorização do real deixou o nosso produto muito competitivo”, afirma Marcos Fava, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP) e da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP).

A safra de grãos 2019/2020 (plantada em 2019 e colhida neste ano) atingiu um volume recorde de 257,8 milhões de toneladas, registrando crescimento de 4,5% em relação à temporada passada, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Esse resultado demonstra que o agro não parou de produzir durante a crise da Covid-19, evitando o temido desabastecimento. “O Brasil teve agilidade para reagir à pandemia. Rapidamente, o setor se organizou para que as cadeias de produção continuassem funcionando”, afirma o ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Getulio Vargas (GV Agro).

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O Plano Safra, política pública fundamental para financiar o setor, disponibilizou R$ 236,3 bilhões em crédito para a safra 2020/2021, um incremento de 6,1% em relação ao ano anterior. O estímulo ao mercado de seguro rural também foi significativo. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), iniciativa que ajuda os produtores a contratarem apólices, contou com R$ 955 milhões para os subsídios, ante R$ 440 milhões em 2019.

Outra boa notícia foi a decisão do ministro Moura Ribeiro, do STJ, autorizando o processo de recuperação judicial de um grupo familiar de produtores rurais, inscrito na junta comercial há menos de dois anos. “A jurisprudência está cada vez mais consolidada no sentido de permitir que o produtor rural utilize essa ferramenta econômica e jurídica em caso de insolvência pontual, ajudando a manter no mercado aqueles que têm capacidade de se reerguer”, afirma Marco Antonio Pozzebon Tacco, sócio-diretor da NDN Advogados, escritório especializado em reestruturação de empresas e recuperação judicial. Um “efeito colateral” favorável dessa decisão é que o mercado financeiro poderá precificar melhor as operações de crédito para os produtores, independentemente de seu porte e tempo de atividade.

A colheita de bons resultados já pode ser mensurada. O PIB do agronegócio brasileiro, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), registrou crescimento acumulado de 6,75% no período de janeiro a julho de 2020. “O PIB do agro deve apresentar o maior crescimento da série histórica do Cepea. É um desempenho excelente”, afirma a pesquisadora do Cepea Nicole Rennó.

Segundo Rodrigues, um conjunto de fatores favoreceu o setor em 2020. O clima foi adequado para a produção no campo. E, apesar do avanço no preço de vários itens mesmo com o aumento da oferta de alimentos, o aumento de receita de muitas famílias provocou expansão do consumo no mercado doméstico. “O auxílio emergencial gerou uma demanda extraordinária no Brasil. E a capacidade brasileira de exportar em 2020 foi um espetáculo”, diz Rodrigues. No acumulado de janeiro a outubro de 2020, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 85,84 bilhões, alta de 5,7% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Devido à pandemia, segundo Fava, alguns acordos comerciais foram facilitados. “Houve rápida abertura de mercados para as nossas exportações, possibilitando a diversificação para países como Indonésia e Bangladesh”, diz o professor. Outro destaque é a China, que vem enfrentando uma crise na produção de suínos desde 2018 devido ao surto da peste suína africana – e, por isso, elevou as compras de carne suína do Brasil.

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Além de carnes, o país se destacou também nas exportações de soja, de produtos florestais, do complexo sucroalcooleiro, cereais, farinhas e preparações. O agronegócio respondeu por 49,3% do total exportado pelo Brasil, uma participação recorde na série histórica para o acumulado de janeiro a outubro, segundo dados do Ministério da Agricultura. “O bom desempenho das commodities está muito relacionado à competitividade gerada pela alta da taxa de câmbio”, afirma o economista Felipe Novaes, da consultoria Tendências.

Entre as exceções está o segmento de flores, prejudicado pela interrupção de eventos durante o isolamento social. No início da pandemia, a interrupção da realização de feiras livres também impactou nas vendas de produtos hortifrúti, como batata e cebola, entre outros. O segmento de etanol também sofreu, já que, no início da pandemia, as medidas de combate ao coronavírus limitaram a mobilidade urbana, provocando redução no consumo de combustíveis. No entanto, as usinas processadoras de cana-de-açúcar puderam direcionar as operações para a produção e exportação de açúcar. “Sem dúvida, o setor de flores foi um dos mais prejudicados pela pandemia, mas já tem sido vista uma recuperação das vendas. O segmento de etanol também já tem se recuperado”, diz a pesquisadora do Cepea.

Reportagem publicada na edição 82, lançada em dezembro de 2020

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