Compreendendo o papel do setor agropecuário nas promessas climáticas

Cenário regulatório global se move para acelerar a transição de baixo carbono, mas falta posição clara das cadeias de produção de alimentos.

Jeremy Coller
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Catherine Falls Commercial
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Modelos de sistemas intensivos para a criação de bovinos são mais comuns na Europa e Estados Unidos

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Como venho alertando os investidores há algum tempo, as vacas são o novo carvão. Em novembro deste ano, os líderes mundiais se reunirão na COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), cinco anos após o inovador Acordo de Paris, para renovar seus compromissos sobre as mudanças climáticas. No topo da agenda estará como os setores podem descarbonizar rapidamente, a fim de alcançar metas ambiciosas de emissão zero antes que seja tarde demais para evitar os piores efeitos da crise climática.

No entanto, as pesquisas mostram que a produção global de alimentos, por si só, seria suficiente para colocar as metas climáticas do Acordo de Paris fora do alcance, mesmo se todas as outras principais fontes de emissões fossem fechadas.

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Mais especificamente, os sistemas alimentares são responsáveis ​​por um terço anual das emissões globais de gases de efeito estufa — com uma grande parte dessas emissões relacionadas à produção animal das fazendas, incluindo os bovinos. Isso é três vezes superior à  quantidade de 50 anos atrás, com previsão de aumento do consumo de carne em todo o mundo nos próximos dois anos.

Essa trajetória gera um nível de emissões de gases de efeito estufa insustentável. Apesar disso, nenhuma meta nacional claramente definida para sistemas alimentares (como o setor agropecuário) foi incluída nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), publicadas pelos países do G20 no período que antecedeu a COP (ou seja, os planos em que os países traçam as ações que irão realizar).

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Se quisermos ter alguma esperança de controlar o mercado para cumprir as metas do Acordo de Paris, os governos devem “mostrar seu trabalho” e deixar claro qual porcentagem de suas promessas climáticas virá da agropecuária.

Sem uma reforma drástica, a carne vinda de criações comerciais  se tornará um ativo perdido para os investidores. O ponto de atrito reside no fracasso em definir planos transparentes para lidar com as emissões do setor agrícola. Como os líderes podem mover a agulha nesta questão sem qualquer orientação?

O ponto cego das NDCs
A UE (União Europeia) se comprometeu a reduzir as emissões de carbono em pelo menos 55% até 2030 e o Reino Unido em 78% até 2035 (em comparação aos níveis de 1990), mas essas metas não podem ser alcançadas sem uma redução drástica das emissões do setor agrícola. Mais especificamente, a pecuária deve ser uma prioridade quando se pretende reduzir as emissões.

A pesquisa da minha organização descobriu que metade dos NDCs publicados incluem metas quantificadas de redução de emissões para outros setores de alta emissão. Por exemplo, os EUA especificam as reduções de emissões que virão da transformação de eletricidade, a Coreia descreve as reduções que virão da mudança para energia renovável e o NDC da UE especifica as reduções de emissões que virão de energia e transporte.

Portanto, é difícil aceitar que nenhum desses NDCs inclua metas específicas semelhantes para a agricultura. Um setor que emite mais gases de efeito estufa do que todos os carros, trens e aviões juntos. Quando se trata do desafio climático, a agricultura é uma parte clara do problema, então por que não é uma parte clara da solução

Não podemos mirar sem um alvo
Para os investidores, é impossível mirar sem um alvo. À medida que o cenário regulatório global se move para acelerar a transição de baixo carbono, uma meta nacional clara para emissões agrícolas, que divulga metas específicas para redução de emissões na agricultura dentro ou junto com os compromissos da NDC na COP26, aumentará a ambição sob as NDCs e dará o pontapé inicial na transição gerenciada para um setor agrícola de baixo carbono que é tão urgentemente necessário.

Os CEOs devem atender à demanda do consumidor por transparência e informar sobre sua pegada ambiental e de saúde (por exemplo, divulgando o uso de antibióticos nas cadeias de valor, etc.). Na esteira da pandemia Covid-19, os líderes empresariais devem criar resiliência ao choque nas cadeias de abastecimento e melhorar o gerenciamento dos riscos de pandemia.

As empresas de alimentos devem considerar o investimento em inovação de proteínas para construir economias de escala e diversificar suas ofertas de produtos. Nesse momento, antes da COP26, como os governos estão cada vez mais focados nos impactos climáticos relacionados à agricultura, então as empresas também devem agir para enfrentar esses riscos agora. Os líderes empresariais do setor de alimentos devem definir metas baseadas na ciência e desenvolver políticas de proteção ambiental para demonstrar aos investidores a consciência dos riscos climáticos e naturais.

Dada a contribuição do setor de laticínios e carnes para as emissões globais de gases de efeito estufa e perda de florestas, as empresas desse setor têm uma chance única na vida de salvaguardar seu próprio valor e nossos preciosos ecossistemas. Isso começa com uma orientação clara dos formuladores de políticas sobre o papel exato que esse setor desempenhará no caminho para a emissão zero.

*Jeremy Coller é presidente da Coller Capital, criada em 1990 e voltada para o mercado secundário de private equity. O Financial News o reconheceu como uma das 50 pessoas mais influentes neste setor na Europa. O executivo também criou a Fundação Jeremy Coller que, por meio da Iniciativa FAIRR (Farm Animal Investment Risk and Return), busca aumentar a conscientização sobre os riscos materiais envolvidos na pecuária intensiva.

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