Quando a arte encontra um prato de comida dá “match” entre a cidade e o campo

O crítico Jonathon Keats explica, por meio de uma exposição apetitosa que acontece no Museu de Arte da Universidade do Arizona, por que nossa fome por arte sobre comida é insaciável.

Jonathon Keats
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 _AARON WESSLING PHOTOGRAPHY/divulgação
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Óleo sobre tela, da artista Katherine Ace. Cupid & Psyche com Cut Apple, pintada por volta de 2010

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Para comemorar o casamento de seu curador favorito no Museu de Arte do Condado de Los Angeles, nos Estados Unidos, o escultor Claes Oldenburg fez uma obra que parecia boa o suficiente para ser devorada. Sua obra, esculpida em gesso branco, era o retrato fiel de uma fatia de bolo de duas camadas, preservando para a ocasião festiva o momento de eterna expectativa para o ápice dessa cerimônia.

Ainda hoje, 55 anos depois, a obra apresentada no casamento de Oldenburg parece aguardar um convidado que ainda não chegou para a festa. E se esse hóspede rebelde encontrar a fatia, atualmente em exibição no Museu de Arte da Universidade do Arizona, ele certamente terá muitos outros produtos comestíveis para apreciar além do bolo. A Arte da Comida é literalmente um banquete para os olhos.

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A comida é uma tentação para os artistas pelo menos nos últimos 45.000 anos, quando pintores pré-históricos já retratavam porcos nas paredes de uma caverna na Indonésia, que ainda hoje é possível apreciar. De acordo com Plínio, o Velho [artista italiano que viveu no ano 79 DC), o antigo pintor grego Zeuxis demonstrou sua grandeza retratando uvas de forma tão realista que pássaros começaram a se alimentar delas, iniciando uma tradição tromp l’oeil (ilusão de ótica) que continua a servir como abreviatura para habilidade com um pincel. Dado que nossa sobrevivência depende de comida, somos todos conhecedores naturais, atentos ao menor indício de que algo, por exemplo, pode estar estragado.

No entanto, a prevalência da comida como um tema artístico não pode ser totalmente explicada pela necessidade dos pintores de demonstrar suas proezas artísticas ou mesmo pela necessidade das sociedades se envolverem no pensamento mágico. Muitos dos trabalhos incluídos na exposição do Museu de Arte da Universidade do Arizona sugerem outras motivações, que vão desde a sensual até a intelectual.

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A sensualidade da comida fica evidente nas gravuras de Sherrie Wolf, que justapõem nus famosos com frutas frescas. Uma escultura de porcelana de Chris Antemann [artista norte-americana conhecida por suas paródias contemporâneas de estatuetas de porcelana do século 18] torna a conexão ainda mais explícita, ao mesmo tempo que a problematiza. Habilmente trabalhada na tradição de Meissen, sua miniatura mostra uma mesa carregada de iguarias, uma das quais passa a ser uma mulher seminua. A comida é provocativamente erotizada no mesmo espaço em que a figura feminina é explicitamente mostrada.

Damien Hirst [uma das mais proeminentes figuras do grupo Young British Artists] captura uma visão muito diferente da comida em sua série de gravuras de tela da Última Ceia. Omeletes, sanduíches e saladas ganham embalagens de fármacos, evocando a ênfase na funcionalidade e a preferência pelo artifício na sociedade contemporânea: o alimento serve a um propósito. Neste enquadramento, o apetite é uma extravagância.

Claro que a lógica subjacente à proposição irônica de Hirst é tão racional quanto seu design gráfico. A sensualidade da fruta pode atrair humanos e outros animais a consumi-la, e o prazer pode, de modo geral, fornecer uma motivação para os heterótrofos [seres vivos que não são capazes de produzir o seu próprio alimento] buscarem as calorias necessárias. Uma omelete, um sanduíche ou um prato de salada é fundamentalmente um pacote robusto de energia, com nutrientes que o corpo não pode sintetizar por si só. Poucas obras de arte captam essa verdade tão sucinta e espirituosa quanto a Capri Battery, de Joseph Beuys, uma pequena e simples instalação que compreende uma lâmpada amarela brilhante conectada a um limão. Escolhida como fonte de energia, a cor cítrico alimenta ostensivamente um sol artificial que pode fornecer a energia para os limões e que, por sua vez, acabarão por substituir a bateria “cítrica original”.

ARON WESSLING PHOTOGRAPHY_divulgação
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Bateria Capri (Capri-Batterie), de 1985, mostrando lâmpada, soquete e limão artificial, em caixa de madeira com serigrafia

Com sua lembrança de casamento, Oldenburg oferece uma doce resposta a Beuys e Hirst. Embora seja manifestamente algo que não se pode comer, sua fatia de bolo falsa oferece um deleite visual que pode ativar sinesteticamente os centros de prazer negados pela comida em seu estado primordial. [nota da redação: sinestesia é o recurso estilístico no qual se utilizam palavras e expressões associadas às diferentes sensações percebidas pelo corpo humano, como visão, audição, olfato, paladar e tato, para gerar um efeito discursivo]. Talvez esta seja a melhor explicação para o fascínio insaciável da arte inspirada na comida. Simplificando, temos fome disso.

* Jonathon Keats é colaborador da Forbes EUA, crítico e artista, autor das obras “Você pertence ao Universo: Buckminster Fuller e o Futuro” e “Forjado: Por que as falsificações são a grande arte de nossa época”, ambos publicados pela Oxford University Press.

 

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