Empresas abriram capital, mas permanecem privadas em suas prestações de contas, afirma ex-diretor da NYSE

Divulgação/Acervo Pessoal
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Para William Jannace, agenda ESG é oportunidade para empresas de pequena e média capitalização de mercado

Nunca se falou tanto em ESG e, se você ainda não sabe do que se trata o tema, talvez seja o momento de dedicar algumas horas para entender a sigla que resume – mas não simplifica – a agenda corporativa dos anos 2020. Muito além de práticas voltadas à governança e responsabilidade socioambiental, o termo ESG representa novos conceitos para o gerenciamento dos riscos e das oportunidades nos negócios.

No mercado de capitais essas oportunidades têm direção clara: as pequenas e médias empresas por capitalização de mercado, também conhecidas como small caps. Essa é a visão de William Jannace, ex-diretor da Bolsa de Valores de Nova York e professor ESG do LinkLei Academy. Em entrevista exclusiva à Forbes, Jannace falou sobre tendências e desafios de uma agenda ainda desconhecida para muitas organizações, mas fundamental para aquelas que desejam ser relevantes no futuro.

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Forbes Money: O que significa atualmente o termo ESG para as empresas e para a sociedade?

William Jannace: A governança socioambiental ESG evoluiu de uma coisa boa, para uma coisa necessária. Essencialmente, ESG se baseia em um bom gerenciamento de riscos corporativos. Quando falamos sobre ESG, meio ambiente e governança social, estamos tratando de uma definição atualmente mais ampla, que conecta o meio ambiente à gestão do capital humano. Para os funcionários de uma organização, essa é uma das coisas observadas e algo que dará à corporação uma reputação melhor para atrair capital. Há também uma persuasão poderosa, de que ‘vamos colocar dinheiro em empresas ambientalmente corretas ou empresas centradas em ESG, e caso contrário, não colocaremos dinheiro nisso’. Globalmente, estamos falando de trilhões de dólares comprometidos em termos de ativos sob gestão.

Até certo ponto, a temática ESG foi orientada pela demanda. Tínhamos inicialmente donos de ativos, fundos de investimentos colocando requisitos ESG em seus investimentos e, em seguida, pedindo às empresas que aderissem a essas boas práticas. Atualmente, as empresas de pequena ou média capitalização de mercado estão começando a emitir mais relatórios de sustentabilidade, mas elas ainda são organizações com menor demanda dos investidores e menor liquidez. No S&P 500 [índice que reúne as 500 maiores empresas listadas nos EUA por capitalização de mercado], quase 90% das companhias emitem relatórios de sustentabilidade e agora estamos começando a ver nas small e mid caps esse movimento, em torno de 15%. Essas empresas precisam ser muito mais diligentes e precisam atrair fluxo e um grupo mais amplo de investidores para aumentar sua liquidez, e uma das maneiras de se fazer isso é ter mais ESG.

Em outras palavras, a temática ESG é muito orientada a dados e não há padrões de divulgação internacional, embora o TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures) e o SASB (Standards Disclosure Process) estejam avançando nisso.

As empresas de grande capitalização estão nos três principais índices dos Estados Unidos. Portanto, eles têm os recursos e os dados disponíveis para poder atender às demandas dos investidores no que se refere a ESG. As small caps não têm, necessariamente, os recursos e a capacidade, mas a questão é que, para conseguir mais acionistas, eles terão que pensar em fornecer mais dados ESG. Então teremos um impulso nessa área para o fornecimento de métricas, validação de dados e diferentes padrões de divulgação, e as pequenas empresas do mercado vão poder se beneficiar.

FM: Como a pandemia transformou a agenda ESG global?

WJ: Antes da pandemia, a governança socioambiental era vista como uma forma de satisfazer a demanda dos investidores, a demanda dos fundos de previdência, seja no Brasil ou em Nova York. Agora isso é mais uma espécie de norma nos investimentos, com a temática ESG mais centrada nos stakeholders [partes interessadas de uma empresa]. O conceito norte-americano clássico da Universidade de Chicago, elaborado pelo professor Milton Friedman, de que a empresa existe para o benefício dos acionistas e de seus resultados financeiros, é agora um pouco mais amplo e inclui outros stakeholders. A pandemia realmente expôs falhas no que diz respeito às cadeias de suprimento, acesso à saúde, desigualdade racial, social e jurídica.

O paradigma ESG se expandiu. Os funcionários das empresas são seus stakeholders. Eles impulsionam agendas em termos de mudança climática, diversidade, gênero e várias questões sociais que desejam ver nas empresas em que trabalham, querem dessas organizações mais responsabilidade social. Em 2021 houve um tremendo aumento de propostas falando sobre diversidade e inclusão para, por exemplo, aumentar a equidade racial no acesso ao sistema bancário. E isso veio para ficar, impactando as decisões dos conselhos que também são cobrados por mais diversidade.

FM: Essa é uma nova configuração do capitalismo?

WJ: Sim, acho que estamos assistindo ao darwinismo social no reconhecimento dessa cooperação. Se olharmos na capitalização de mercado da Bolsa de Valores de Nova York estamos falando de US$ 50 trilhões, isso é muito mais do que o dobro do PIB dos Estados Unidos. A financeirização da economia norte-americana, da economia mundial parece ótima, certo? E isso é realmente ótimo se vier acompanhado de empregos e benefícios.

Antes de ter um grande portfólio, você precisa ter emprego que gere renda e beneficie pessoas em um mundo difícil. Sem isso, você não pode ter sustentabilidade e crescimento de longo prazo, porque apenas uma parte da economia e uma parte da sociedade estão realmente se beneficiando. Nos Estados Unidos, temos cerca de 100 milhões de pessoas investindo na Bolsa de Valores direta ou indiretamente, por meio de fundos de investimento. Porém, isso é ainda muito desproporcional na relação entre os patrimônios líquidos desses investidores.

Para as corporações, existe essa evolução de coisas que seriam recompensadas há cinco anos, como uma empresa que não paga muito imposto e remete muito lucro. Hoje, se você não paga seus impostos, isso é desaprovado, porque os impostos são considerados algo para o bem coletivo. Outro sinal para os gestores são as estimativas de que haverá uma transferência de riqueza geracional de US$ 60 trilhões para as gerações Y [também conhecida como millennials] e Z, que são mais responsáveis socialmente e têm critérios de investimento voltados para impacto.

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FM: Para os países, os desafios são semelhantes ou em alguns mercados há demandas ESG mais críticas?

WJ: A única coisa que a maioria das empresas, dos países e das pessoas concordam, seja no Brasil, na China ou em outros lugares, é que a temática ambiental é muito importante. Se você olhar para as empresas que estão no índice MSCI China, por exemplo, elas são receptivas e compreensivas com questões ambientais, embora existam diferenças culturais. O Brasil tem uma espécie de antigo capitalismo de estado. Você tem o BNDES, empresas estatais e preocupações corporativas em termos de governança, como nas empresas familiares, direitos de voto e do acionista. Então, o aspecto cultural não pode ser subestimado.

As empresas de capital aberto e os Estados Unidos de hoje têm apostado em mecanismos de controle. Elas efetivamente abriram o capital, mas permanecem privadas em termos de prestação de contas. É esse o tipo de norma cultural presente em empresas familiares no Oriente Médio, na América do Sul, na Ásia, que representam diferenças culturais que não são necessariamente ruins, apenas diferentes de um modelo anglo-saxão. O S&P 500 é dominado por investidores institucionais que no fim do dia votam sobre essas questões culturais, tentando entendê-las e como trabalhar com elas.

No Japão, tem acontecido um grande impulso para a diversidade de agenda nos conselhos. Houve um progresso e o governo promulgou o código de governança corporativa. Eles progrediram e é uma grande mudança. Nos Estados Unidos, quando falamos de cultura, a associação de CEOs Business Roundtable promulgou seus princípios em 2019, tratando sobre o capitalismo das partes interessadas, e uma das coisas interessantes constatada em estudos acadêmicos, é que os CEOs saíram publicamente afirmando que apoiavam a ideia de ser parte de algo maior na sociedade por meio da empresa e das suas partes interessadas, sem para isso obter a adesão de seus conselhos.

FM: Como avançar na agenda ESG em um mundo em que a confiança das pessoas em sociedade e nas instituições é cada vez menor?

WJ: É engraçado você mencionar isso porque uma pesquisa mostrou que a maioria das pessoas tem mais confiança no setor privado para atender às necessidades da sociedade, e um dos motivos é que as organizações têm os recursos financeiros para fazer isso. Mas esse não é o tipo de coisa que você declara vitória, é uma batalha contínua e isso requer diligência também contínua. A ideia de que o conselho tem o dever de tomar decisões que sejam pautadas pela boa fé e que apóiem ​​o melhor interesse das empresas e de seus acionistas é algo que requer fiscalização e trabalho constante.

FM: Quais são as principais tendências globais em ESG no mercado de capitais?

WJ: Há um velho ditado em Wall Street que diz que ‘se você for uma empresa desvalorizada, eles vão te encontrar’. Eu avalio que por causa das mudanças demográficas nos mercados, com a institucionalização, a indexação e a quantidade de dinheiro disponível, provavelmente há muitas empresas boas nos Estados Unidos, no Brasil e no exterior que não entendem como atrair certos tipos de fluxos de investimento. Estamos constantemente falando sobre indexação e baixo custo, o que reduz custos e, obviamente, aumenta os retornos a longo prazo. Essa pode ser uma oportunidade para uma gestão ativa com empresas de pequena e média capitalização.

Há boas empresas que estão à frente da curva. Algumas dessas empresas de pequena capitalização realmente fazem a lição de casa socioambiental, mas nada que compreenda o clima em geral. Portanto, se conseguirem essa integração ESG, poderão atrair uma gestão mais ativa e fazer com que as pessoas comprem essas empresas, principalmente se não estiverem incluídas em nenhum índice importante. Incorporando ESG e sustentabilidade, essas small caps podem atrair mais fluxo de capital, porque os investidores sempre irão buscar obter melhores retornos.

De maneira geral, estamos em uma era de taxas de juros muito baixas. Uma estimativa do ano passado apontou que a dívida combinada do setor público e privado era de US$ 18 trilhões, mesmo negociando com um rendimento negativo. Então, se as taxas de juros subirem, você vai precisar rebalancear as carteiras de portfólio, combinando empresas de crescimento de pequena e média capitalização, não estritamente dividendos.

Os programas que podem ser promulgados sob a administração de Joe Biden podem exigir um aumento nos impostos sobre dividendos e ganhos de capital. Portanto, algumas das maiores empresas podem não ser tão atraentes como eram há alguns anos e isso pode ser uma oportunidade para portfólios mais equilibrados, com small, mid caps, large caps e ESG. A gestão ativa pode ser uma forma de obter a atenção do investidor neste espaço.

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