Como o luxo e sustentabilidade se tornaram aliados no turismo

Klaus Vedfelt/GettyImages
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Para além do bem-estar do hóspede, redes de hotéis sustentáveis alimentam a economia da comunidade local

O turismo de luxo tem se moldado, à medida que a sustentabilidade se torna o centro da indústria de viagens, que movimentou US$ 8,8 trilhões em 2018 –o setor é responsável por um em cada dez empregos em todo o mundo, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

A IHG é uma das principais empresas de hospitalidade, com mais de 883 mil acomodações, 5.900 hotéis e outras 1.900 propriedades em andamento. Ao lado da InterContinental e Holiday Inn, a IHG se tornou um participante crescente no mundo do luxo após adquirir Six Senses, Regent e Kimpton.

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Durante a feira International Luxury Travel Market, realizado em Cannes, França, em dezembro passado, a vice-presidente sênior de marketing global da IHG, Jane Mackie; e Neil Jacobs, CEO da Six Senses; juntaram-se a Francisca Kellett, ex-editora de viagens da revista “Tatler”, para discutir o luxo consciente –o que a indústria tem feito e por que isso importa.

Acompanhe abaixo os principais pontos abordados no painel de discussão:

Forbes: Como você definiria luxo consciente?

Jane Mackie: Você precisa primeiro começar com as palavras. Consciência se tornou uma daqueles chavões como autenticidade. Um dos muitos significados é de senso responsabilidade e agir de acordo com isso. Para mim, significa levar para o lado pessoal. Quando me mudei para o Canadá, vi como a reciclagem era parte da rotina do canadense. Depois de me mudar para outro país, sem costume de separar o lixo, precisei passar a dirigir por cinco quilômetros para reciclar. Tem que ser importante para você torná-lo significativo.

Neil Jacobs: Gastei muito com meus hotéis de luxo, e isso tem um significado diferente para cada pessoa. Hoje, o luxo não é o que era há alguns anos. Na verdade, optamos por evitar a palavra luxo em qualquer coisa que façamos no Six Senses porque ela tem conotação de excesso, algo que tenta superar o próximo. Sempre pensamos que menos é mais. Não é sobre lustres de mármore e cristal, mas honestidade no que propomos ao cliente e fidelidade para com nossas crenças. Nem todo mundo pode ou deseja ser o grupo hoteleiro mais sustentável do mundo. Nós analisamos tudo o que todos fazem, mesmo que seja uma pequena mudança, ela já é capaz de ajudar a mover a roda e impulsionar nossa indústria no sentido de fornecer um produto sustentável.

F: A grande novidade é deixar o plástico para trás?

NJ: Não usamos canudos de plástico há muito tempo. Nunca tivemos garrafas plásticas de água e frascos de shampoo. Ver isso mudando para outras partes da indústria… o número é de cerca de 200 milhões de garrafas por ano, é uma grande mudança e diz os rumos que o setor pretende seguir, em todos os níveis. Para mim, significa fazer o que puder para melhorar o planeta e ser honesto sobre o que tem feito e as motivações para tal.

JM: Nós realmente focamos na IHG, não apenas no luxo. Uma das crenças do Six Senses vem em fazer sem motivações escusas, pelo bem. Ninguém acorda de manhã e diz: “Vou tomar um banho longo e deixar todas as luzes acesas”. Keith Barr, nosso CEO, iniciou e preside o primeiro conselho interno de diversidade e inclusão. Sistematicamente em todo o IHG, com o Six Senses, surge a pergunta: o luxo pode trabalhar ao lado da sustentabilidade? A resposta é sim. Você pode oferecer comodidades de forma luxuosa e sustentável.

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Quais são os exemplos?

JM: No InterContinental Maldives Maamunagau Resort, temos um santuário de arraias, não apenas água, desperdício e energia –temos metas contra tudo isso. É algo que olha para um ecossistema mais amplo e que ao mesmo tempo diverte os hóspedes.

NJ: Retiramos 0,5% da receita total de todo o sistema e destinamos para projetos que consideramos valiosos em todo o mundo. Nas Maldivas, uma das grandes questões é a reintegração da grama marinha. Há dez anos, tentamos nos livrar do capim marinho, porque não é atrativo.

As pessoas entendem o que significa sustentabilidade?

NJ: Acho que a palavra sustentabilidade está se tornando um pouco parecida a palavra bem-estar. O que isso significa? Se você diz que somos sustentáveis ​​ou promovemos o bem-estar, ninguém sabe exatamente o que isso realmente quer dizer; portanto, cabe a nós, no setor, começar a trabalhar a cara da sustentabilidade, como uma medida contra essa confusão. Grandes conceitos podem dizer muitas coisas para muitas pessoas. O que é um spa? Costumava ser um quarto no porão. Todo mundo está dizendo que a sustentabilidade é importante. Os clientes também estão dizendo que é crucial, mas realmente não sabem o que é.

E as comunidades onde estão os hotéis?

JM: Sempre proporciona bons negócios. Se não nutrirmos a comunidade e os humanos que trabalham nela, perderemos nossa mão-de-obra.

NJ: Quando analisamos a sustentabilidade de uma perspectiva de alto nível, é sobre o que estamos propondo e como isso se integra ao bem-estar. Mas, da mesma maneira que atraímos, interagimos com a comunidade para melhorar a vida de não apenas nossos convidados, mas também a deles. Boa parte do dinheiro arrecadado acaba sendo gasto em projetos comunitários, e é emocionante ver o desenvolvimento de escolas e programas de água, ver o real impacto que podemos causar.

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O que vem em seguida?

JM: O acordo climático de Paris é importante. Keith Barr foi um dos CEOs que assinou o memorando com o presidente Donald Trump (pedindo aos EUA para se reintegrar ao acordo). Houve aumento da conscientização e se não soubermos para onde estamos indo, nunca chegaremos ao objetivo. A curto prazo, a IHG assumiu o compromisso de reduzir a pegada de carbono entre 6% e 7% até 2020. No entanto, dizer que as pessoas não vão entrar em um avião não é realista.

Como a indústria educa a si mesma e não apenas aos consumidores?

NJ: Eu estava em um almoço e a pergunta foi feita a jovens consultores de viagem, e quatro em cinco disseram que os clientes nunca perguntam sobre sustentabilidade. Talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Precisamos liderar em vez de esperar. Tem que acontecer por meio da educação, na verdade, já está acontecendo. Em dois anos, será completamente diferente, e isso é encorajador. Se o mercado de viagens morresse, a vida das pessoas do outro lado da moeda, as que trabalham nas companhias aéreas, por exemplo, mudaria de maneira a ter um impacto maior e negativo no meio ambiente do que entrar em um avião.

>JM: Tem também o lado humanitário. Se você olhar pensar bem, estamos apoiando esse destino em um período de baixa temporada para que eles possam manter as pessoas empregadas. Se os hóspedes parassem de vir, as comunidades não poderiam sobreviver.

Não deveríamos nos atentar a governos que com apenas um gesto podem causar grandes impactos imediatos?

NJ: Não exatamente. É preciso ir de baixo para cima e apertar no meio. Os conselhos de turismo e os CEOs precisam se tornar mais ativistas e também promover esforços de base. Uma centena de pequenas ações podem gerar um grande impacto.

As companhias de viagem fazem o suficiente ao compartilhar boas práticas?

NJ: Provavelmente não, e isso é algo que aqueles que estão encabeçando mudanças precisa fazer: promover a agenda e fazer um trabalho melhor.

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JM: Ninguém diria hoje que isso é uma má ideia. Todo mundo reconhece que precisa fazer algo, embora não seja fácil se não fizer parte da cultura da empresa Mas os grandes grupos hoteleiros têm se unido, assim como muitos hotéis individuais.

E sobre a cadeia de suprimentos?

JM: Na IHG, temos um processo trabalhoso e sério para qualquer fornecedor, o que inclui o assunto sustentabilidade. Mesmo se o fornecimento vier de um pequeno negócio, eles precisam estar por dentro e entender como a nossa operação funciona.

NJ: O contrário também acontece. Hoje, os candidatos a cargos nos hotéis os questionam sobre nossas políticas, e a realidade comercial é que eles não querem trabalhar para você se a sustentabilidade não for levada a sério.

O que mais pode ser feito?

JM: Para a mídia, além de escrever sobre o que levar em uma viagem, eles podem abordar o tema sustentabilidade e falar sobre a diferenças que suas escolhas podem fazer. Há cinco anos, dizíamos: “Vamos conversar com o diretor de sustentabilidade”. Agora não é apenas um departamento. É uma mentalidade do CEO aos cargos mais baixos.

NJ: Temos um diretor de sustentabilidade e ele faz parte do conselho executivo. Ou seja, uma voz na mesa. Muitas empresas têm diretores de sustentabilidade, mas onde estão? Eles têm influência e poder de mudança?

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