Navegação por rios amazônicos oferece essência da grande floresta

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O Jacaré-Açu navega, em média, a 15 km/h: a floresta refletida nas águas escuras do Rio Negro passa em câmera lenta

O fluxo da água escura (cor de mel) bate na cabeça, às vezes cobre o rosto inteiro, embaça a visão, embala o corpo deitado, com os pés encaixados nas pedras, em uma massagem fluida nas corredeiras da Cachoeira do Guariba, no Rio Carabinani; escorre pelos ouvidos, zunindo um mantra onírico, carregado pela energia que pulsa do coração da Amazônia. Paredes verdes de árvores enormes ladeiam a perspectiva do olhar, inundado por um azul rigoroso onde nuvens boiam e, no fundo, anunciam uma tempestade.

O espetáculo acontece no limite sul do Parque Nacional do Jaú, Reserva da Biosfera pela Unesco, Patrimônio Mundial Natural, no Baixo Rio Negro, entre os municípios de Barcelos e Novo Airão (AM). Trata-se de uma das reservas mais ricas da flora e da fauna na Amazônia Central. O parque protege uma das maiores extensões de florestas tropicais úmidas contínuas do mundo. A biodiversidade é tamanha que a ciência mal conhece alguns animais que dão as caras por ali. O limite norte é traçado pelos rios Unini e Paunini; o Rio Negro desenha o limite leste, fechando quase totalmente a bacia hidrográfica de águas pretas do Jaú.

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O passeio de canoa na mata alagada chama atenção pelo silêncio e pelo reflexo dos troncos

Quando a chuva forte despenca, as árvores se contorcem com o vento, as corredeiras se agitam, o ser humano fica ainda menor. Antes de voltarmos para o barco, dá tempo de escalar a Pedra do Gavião, em uma pequena ilha do Carabinani, e se atirar lá de cima no rio, em um mergulho improvável, na água a 28 ºC. Duas lanchas (conhecidas como voadeiras) levam o grupo de dez pessoas de volta ao Jacaré-Açu: embarcação de 64 pés, três andares, oito cabines com ar-condicionado e uma equipe de cozinheiras que te faz comer de joelhos deliciosos peixes (tucunaré, pirarucu, tambaqui, matrinxã…) e iguarias amazônicas.

Em poucas palavras, o Jacaré-Açu é o jeito mais confortável de flanar por esse filé da Amazônia, em uma navegação de cinco dias, onde celular nenhum funciona e você é obrigado a aprender a sobreviver offline. A embarcação pertence à Expedição Katerre, que conta ainda com o Jacaretinga (barco menor, com três suítes), ambos ancorados no Mirante do Gavião, o melhor e mais novo hotel na região – arquitetura surpreendente e alta gastronomia. A viagem começa em Novo Airão (a três horas de carro, a noroeste de Manaus) e passeia sem pressa pelos rios Negro, Jaú e Carabinani.

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A programação é suave: mescla mergulhos, caminhadas na mata, deleite de praias isoladas, visita a comunidades ribeirinhas (como Cachoeira, onde vivem 13 famílias), observação de pássaros, pesca de piranha, incursão de canoa na floresta alagada, focagem noturna de jacarés, visita às ruínas de Airão Velho e um céu entupido de estrelas. Sempre na companhia de botos que exibem o dorso quando dá na telha. O motor de 240 hp imprime uma velocidade de 12 a 13 km/h quando está contra o rio, no início da viagem, e de 18 a 19 km/h na volta, com o Negro descendo, um monstro de 2.250 km de comprimento que nasce na Colômbia e deságua no barrento Amazonas.

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Durante o passeio, botos exibem o dorso quando dá na telha

Para onde quer se olhe, a floresta desfila duplicada, em câmera lenta. A superfície intacta reflete copas, troncos, araras, macacos, cabeça de ariranha, nascer e pôr do sol de chorar de lindos, pensamentos, saudades. Sem o celular funcionando, é você com você. Não há para onde escapar – o mergulho interno faz parte do pacote.

Viagem Família

Novo Airão fica de frente para o Parque Nacional de Anavilhanas, um sem-fim de mais de 400 ilhas, em um dos maiores arquipélagos fluviais da Terra (o engano clássico para quem chega às margens do Negro pela primeira vez é pensar que lá longe, no horizonte, está a outra margem – de fato, é apenas a costa de uma ilha a menos de 1 km de distância; a margem mesmo está a mais de 25 km). Com três horas de navegação, assim que o status offline se oficializa, cai a ficha da envergadura da experiência.

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O Parque Nacional do Jaú é casa de macacos, botos e da maior diversidade da Amazônia

Quem foi não esquece jamais, como é o caso do empresário e engenheiro civil Rodolfo Galvani, de 77 anos, presidente do Conselho da Fosnor, Fosfatados do Norte-Nordeste. Em julho de 2018, Rodolfo reservou o barco inteiro para sua família: quatro dos cinco filhos, com os respectivos genros e noras, e oito netos. “Sempre gostei de levar meus filhos para conhecer o Brasil a fundo. Chapada Diamantina, dos Veadeiros, Lençóis Maranhenses, praias do Nordeste – não dá para ir à Disney antes de visitar essas maravilhas aqui.”

A jornada amazônica ganhou contornos ainda mais profundos para Galvani, pois a preparação dela remete à sua esposa Briguitte, que morreu em 2016. “Queríamos fazer essa viagem há mais de cinco anos, todos juntos. Mas Briguitte ficou doente e adiamos. Quando realizamos a navegação, ela já não estava entre nós, mas foi uma lembrança muito forte no barco.” Galvani rasga elogios à plasticidade dos rios e recorda as situações mais emblemáticas. “Adorei descer a correnteza usando um colete salva-vidas e voltar para o barco depois de uma hora. O guia Josué é muito bom: ele faz artesanato para as crianças com coisas que pega na selva e aproveita as caminhadas para contar curiosidades da fauna e da flora [a maior trilha leva três horas; vai até as incríveis Grutas do Madadá].”

“Agora, nenhum passeio é tão bonito como o de canoa, a remo, no meio das árvores espelhadas [Ilha dos Macacos, Rio Jaú], um silêncio muito grande, o sol furando as copas, raios refletindo nas águas escuras… Aquilo é maravilhoso. Navegamos cinco dias, mas a viagem durou nove, pois aproveitamos o Mirante do Gavião [em Novo Airão]e Manaus, onde jantamos no restaurante Caxiri, excelente, ao lado do Teatro Amazonas.” Galvani lembra de três “detalhes” do roteiro que descartam qualquer ideia de perrengue para tal aventura: “A água dos rios é quente, come-se muito bem a bordo e não tem mosquito nem pernilongo!”.

Discos voadores na selva

Não pense, porém, que só forasteiros do Sudeste ficam de queixo caído ao se depararem com a floresta refletida no leito escuro. Quem vive subindo e descendo o Negro não se acostuma com as cores da selva e do céu. Responsável pelo leme do Jacaré-Açu, o comandante Oziel Rodrigues da Costa Brito, o Tito, de 44 anos, tem um apreço especial pelo Jaú: “Um rio bonito demais”. Tito nasceu no Amapá, tem 11 irmãos. É filho de gateiro, caçador de onça, que sustentava a família com o couro dos animais abatidos. Aos 3 anos, iniciou sua história no Amazonas.

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As raízes tabulares de uma samaumeira

“Quando a lei proibiu a caça, mudamos de casa, meu pai virou carpinteiro, fomos atraídos para a Zona Franca de Manaus, até que um dos meus irmãos, o Noé, conheceu o Baixo Rio Negro e começou a comprar as terras da Gruta do Madadá, nos anos 1990. Depois, ele foi pra Suíça, eu fui atrás, voltamos e passamos a receber alguns europeus para mostrar esse pedaço da Amazônia. A cada ano, aparecia mais estrangeiro interessado.” Tito interrompe o papo, larga o timão do barco, vai até o deque, olha para o nada e dá dois berros estridentes, fazendo das mãos um megafone – quase mata de susto esse repórter. “Estou falando com as araras”, explica o marinheiro, enquanto tento fazer aquela cara de “claro, normal…”. Mais dois berros dele e surge um casal de araras, voando sobre as copas, gritando da mesma maneira, como se conversassem.

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As andanças mata adentro, garante Tito, não trazem a companhia apenas de turistas e animais de centenas de espécies – o pessoal de outros cantos do universo também costuma dar as caras por essas bandas. “Já vi cada coisa que vou te falar, viu? Alguns eu consegui filmar, só não te mostro porque estava no celular que caiu no rio. Uma vez, uma luz enorme veio voando para perto do barco e parou. Dela, saíram três luzes menores que ficaram girando em cima de gente. De repente, voltaram para a luz e sumiram de forma muito rápida, voando sobre a floresta.”

Quem parece ser de outro planeta – tamanha a sua entrega e atuação social em comunidades do Rio Negro e afluentes (como a Escola Vivamazônia e a Fundação Almerinda Malaquias) – é o sócio majoritário de Tito na Expedição Katerre, o engenheiro e empresário paulistano Ruy Carlos Tone, de 52 anos. Ele tinha 24 quando perdeu o pai, e teve que assumir a construtora da família para sustentar a mãe e quatro irmãs menores. A passagem do tempo confirmou que o sucesso da construtora não seria suficiente para a satisfação pessoal de Ruy.

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As praias de rio que começam a aparecer em outubro

Mesmo com clientes corporativos do porte de Telefonica e Natura e com mais de 500 agências e escritórios bancários no portfólio, o que sempre encantou esse descendente de japoneses foi viajar. Logo, precisava inventar alguma coisa para poder viajar a trabalho enquanto a construtora seguia de vento em popa. O que fez? Abriu uma agência de viagens (Mundus), em 2000, especializada em levar brasileiros para destinos, digamos, fora do padrão, como Quirguistão, Papua-Nova Guiné e Chade.

Com a operação internacional estabelecida, tratou de desenvolver um produto brasileiro. “Queria uma experiência diferente, não apenas um hotel boutique”, confessa Ruy. Vasculhou o Pantanal, mas começou a criar laços com a Amazônia ao levar os funcionários da construtora para uma viagem de três dias de Manaus a Novo Airão, em março de 2004. “Acampamos na selva, adorei. Em novembro, fui de Manaus a Barcelos, me apaixonei de vez.” A partir daí, Ruy buscou associados para atuar com turismo e desenvolver uma rede local de parceiros. Começou reformando o barco Jacaretinga (2004), depois construiu o Jacaré-Açu (2010) e, por fim, inaugurou o Mirante do Gavião (2014), com sete suítes (vai fechar 2019 com 12).

Com o Jacaré-Açu de volta à sua toada, a imensidão amazônica prevalece mais uma vez. Nos cinco dias de navegação, dá para contar nos dedos de uma mão a quantidade de barcos que cruzamos. Contato com outros turistas? Nenhum. Talvez por isso, o último pôr do sol da viagem tenha sido tão especial. De dentro do rio, boiando, assisti a todas as cores se misturando no horizonte logo após o sol sumir. Uma revoada de pássaros apareceu na cena muda, já que meus ouvidos estavam imersos. Bem afastado do barco, segui na água encarando o céu até escurecer e começar a chover estrelas.

Reportagem publicada na edição 72, lançada em novembro de 2019

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