A dupla que ganha prêmios transformando prédios antigos

Divulgação
Divulgação

Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal, sócios-fundadores do escritório francês Lacaton & Vassal, vencedores do Pritzker 2021

Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal, sócios-fundadores do escritório francês Lacaton & Vassal, foram anunciados, na segunda quinzena de março, como os grandes vencedores do Pritzker 2021, a maior distinção internacional da arquitetura, considerado o Oscar do setor. A honraria é concedida pela The Hyatt Foundation desde 1979, e só dois brasileiros a receberam (veja mais abaixo).

A francesa Anne, de 65 anos, é de Saint-Pardoux; enquanto Jean-Philippe, de 67, é de Casablanca (Marrocos). Suas linhas de vida se cruzaram ao fim da década de 1970, durante o curso de arquitetura na École Nationale Supérieure d’Architecture & de Paysage, de Bordeaux (sudoeste da França). Ela fez mestrado em Planejamento Urbano na mesma cidade; ele fez as malas e foi para o Níger – em uma região desértica, construiu sua residência circular com palha, gravetos e sacos de juta. Os encontros do casal nesse canto da África Ocidental solidificaram os pilares da arquitetura deles, feita com poucos recursos, usando o que é próprio das redondezas.

VEJA TAMBÉM: A dupla espanhola que captura a beleza da arquitetura a partir de fotografias

O escritório do casal foi aberto em Bordeaux em 1987. Há mais de 30 anos no mercado, Lacaton & Vassal têm uma atuação eclética nos usos e escalas de projeto, mas são sempre comprometidos com a justiça social e a sustentabilidade, priorizando materiais ecológicos e de baixo custo. Nas palavras do júri deste ano: “Eles não apenas definiram uma abordagem arquitetônica que renova o legado do modernismo, mas também propuseram uma definição adequada da própria profissão de arquiteto. As esperanças e os sonhos modernistas de melhorar a vida de muitos são revigorados por meio de um trabalho que responde às emergências climáticas e ecológicas do nosso tempo”.

A fama mundial aumentou com o projeto para o Palais de Tokyo, em Paris, em 2012. O desafio era dar corpo a um centro de arte contemporânea, ocupando metade do palácio desenhado nos anos 1930. A solução do Lacaton & Vassal foi manter o aspecto de edifício inacabado em uma ala que nunca havia sido concluída, fazendo poucas interferências com cortinas, grades e estruturas deslizantes. A ideia deixou o espaço – de pé-direito muito alto – com uma infinidade de possibilidades de utilização, o que reforçou o caráter experimental do museu.

Outro exemplo emblemático de atuação do escritório são os conjuntos habitacionais modernistas em periferias de grandes cidades francesas, projetos feitos também com o arquiteto Frédéric Druot: eles deveriam transformar as edificações sem remover os moradores e sem demolir. Desenvolveram, então, esqueletos externos nas fachadas dos prédios, ampliando a área de cada apartamento, abrindo espaço para entrada de mais luz. De acordo com a visão de Anne, demolir “é um ato de violência”.

Ela acredita que a verdadeira transformação é fazer mais e melhor com aquilo que já existe, enquanto a demolição é um desperdício de energia, material, história e de impacto social muito negativo. Exemplo disso é a reforma de 530 apartamentos em blocos populares de Bordeaux. O que eles fizeram rendeu o prêmio Mies van der Rohe, em 2019, concedido pela Comunidade Econômica Europeia, como o melhor edifício do continente. Tal obra também é uma amostra excelente de como a arquitetura do escritório não é para ser vista como espetacular, mas, sim, como algo de forte poder de transformação (para melhor!) na vida das pessoas.

No currículo de Lacaton & Vassal, estão ainda o Prêmio Schelling, em 2009, e a Medalha Tessenow, em 2016. Atualmente, eles estão debruçados sobre o desafio de transformar um hospital antigo em um prédio residencial de 138 apartamentos em Paris; e um outro projeto, em Toulouse, de um edifício que abrigará lojas e hotéis. Acompanhar o trabalho dessa dupla de mentes brilhantes é testemunhar estruturas do século passado ganhando vida nova neste milênio.

Getty Images

NIEMEYER: “O QUE ME ATRAI É A CURVA LIVRE E SENSUAL”

Ícone da arquitetura moderna no Brasil, Oscar Niemeyer (1907-2012) recebeu a honraria em 1988 e dividiu o prêmio com Gordon Bunshaft (1909-1990). O arquiteto de Brasília ganhou a confiança de Juscelino Kubitschek ao desenhar o conjunto da Lagoa da Pampulha (BH), quando JK foi prefeito da capital mineira. Niemeyer assina o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (foto) e outras diversas obras de vulto.

Reprodução

MENDES DA ROCHA: ÚNICO BRASILEIRO A LEVAR SOZINHO O PRITZKER

Natural de Vitória (ES), Paulo Mendes da Rocha, ganhou o Pritzker em 2006 – sem dividir o prêmio com ninguém. Em 2016, teve grande reconhecimento internacional graças a outros dois prêmios importantes: o Leão de Ouro, da Bienal de Veneza, pelo conjunto da obra; e o Prêmio Imperial do Japão. Entre as obras de destaque, o MAC/USP, o Club Athletico Paulistano (foto) e o Sesc 24 de Maio (SP).

Reportagem publicada na edição 85, lançada em março de 2021.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Siga Forbes Money no Telegram e tenha acesso a notícias do mercado financeiro em primeira mão

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).