Jerry Seinfeld e herdeiro brasileiro encerram briga por Porsche “falso”

Comediante teria vendido 356 A 1500 GS/GT Carrera Speedster 1958 supostamente falso a Carlos Monteverde; processo judicial aberto em 2019 foi encerrado com acordo entre as partes.

Rodrigo Mora
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(Gooding & Company)
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Porsche 356 A 1500 GS/GT Carrera Speedster 1958 de Jerry Seinfeld

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Tudo começou em março de 2016, quando Jerry Seinfeld reuniu 18 carros de sua coleção e incumbiu a Gooding & Company de leiloá-los durante o Amelia Island Auction. Fora uma Kombi Camper 1964 e um Fusca 1960, o resto era Porsche.

“O olhar aguçado de Jerry para Porsches importantes, o cuidado e orgulho que ele tem em manter sua coleção espetacular e seu entusiasmo e paixão pela marca fazem desta uma das nossas vendas mais emocionantes na história da nossa empresa”, declarou então David Gooding, presidente da Gooding & Company.

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Mas por que um tão assíduo e milionário fã da fabricante alemã venderia carros raros e especiais?

“Nunca comprei um carro como investimento. Eu nem me considero um colecionador. Eu simplesmente amo carros. E eu ainda amo esses carros. Mas é hora de enviar alguns deles de volta ao mundo, para que outra pessoa aproveite, como eu”, justificara o comediante.

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Apenas um protótipo do Carrera GT encalhou. Os outros 17 somaram à época US$ 22,2 milhões, valor consideravelmente aquém dos US$ 32,5 milhões avaliados na coleção.

Entre as raridades, foram embora um 911 Carrera 3.0 IROC RSR, um 597 Jagdwagen, um 550 Spyder e um 911 1966 com apenas 30 mil quilômetros.

Havia também uma das 56 unidades do 356 A 1500 GS/GT Carrera Speedster 1958 com carroceria em alumínio, avaliada entre US$ 2 milhões e US$ 2,5 milhões, mas no fim arrematada por US$ 1,54 milhão.

Quisera Seinfeld que este também tivesse encalhado.

(Gooding & Company)
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Entre 1955 e 1959, foram 151 unidades do Carrera Speedster, o que representa 3% da produção total dos Speedster

Falso ou verdadeiro, eis a questão

Oficialmente, o comprador do 356 A 1500 GS/GT Carrera Speedster é uma empresa sediada em Jersey, nos EUA, registrada como Fica Frio Limited. No entanto, por trás da companhia está Carlos Monteverde, filho de Alfredo João Monteverde, fundador da rede Ponto Frio e segundo marido de Lily Safra, bilionária viúva do banqueiro Edmond Safra.

Em março de 2017, Monteverde contratou a Maxted-Page, uma das mais prestigiadas comerciantes e restauradoras de Porsches no mundo, para executar uma inspeção no veículo – e começou aí a desconfiança de que aquela não seria uma das 56 unidades do 356 A 1500 GS/GT Carrera Speedster, mas sim um 356 regular.

A Gooding & Company se defendeu alegando que a European Collectibles – de quem Seinfled comprou o esportivo, em fevereiro de 2013, por US$ 1,2 milhão – havia executado no 356 uma restauração digna de concursos de elegância.

Bradley Brownell, um renomado fornecedor de peças para restauradores de Porsche nos EUA, afirmou em um artigo publicado no site americano Jalopnik  que “sendo (a European Collectibles) uma das oficinas mais conceituadas na restauração de Porsches, acho difícil acreditar que um GS/GT falsificado passaria por suas mãos sem que percebessem”, mas também observou que “determinar a autenticidade de carros que foram provavelmente usados como carros de corrida nos anos 1950 muitas vezes é mais difícil do que parece”.

Briga na Justiça

Acionado, Seinfeld chegou a telefonar para Monteverde, deixando na caixa postal do colecionador um pedido de desculpas e a promessa de que ele seria integralmente indenizado, caso se confirmasse a inautenticidade do carro.

Chegou a dizer que “adoraria saber como seus caras descobriram (que o carro era falso), porque é impressionante que os meus não tenham encontrado nada de errado”.

Contudo, em fevereiro de 2019 Monteverde abriu um processo contra Seinfeld, que na sequência também acionou juridicamente a European Collectibles, exigindo que a restauradora e comerciante sediada na Califórnia (EUA) resolvesse a questão diretamente com Monteverde.

“O senhor Seinfeld, que é um comediante de muito sucesso, não precisa complementar sua renda construindo e vendendo carros falsificados”, era uma das argumentações centrais do processo de defesa à época.

Orin Snyder, advogado de Seinfeld, alegou que o comediante se baseou no certificado de autenticidade expedido pela European Collectibles tanto para comprar, quanto para vender o carro, em março de 2016.

(Gooding & Company)
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Desses, menos de 90 receberam a especificação GS/GT; e dos 90, 56 saíram com partes da carroceria em alumínio, para aliviar peso. E apenas este na cor Auratium Green, de acordo com a Gooding & Company

Segundo a petição protocolada no tribunal distrital do sul de Nova York pelos advogados de Monteverde, a Maxted-Page demonstrou “preocupação com o conteúdo limitado do arquivo histórico do veículo, particularmente acerca da falta de evidência fotográfica do trabalho de restauração”.

Já Bruno Maia Rosa conta que a falcatrua foi descoberta quando a Maxted-Page encontrou vestígios de que a frente do carro, justamente onde se encontra a numeração do chassi, havia sido trocada.

“Chegou a mim a informação de que a frente devia ser original, mas “espetada” em um 356 normal. Talvez porque o original tenha sofrido uma colisão traseira”, explica Rosa, que além de colecionador especializado em 356 também comanda a Invest Collection, empresa de consultoria de investimento em clássicos.

Na última semana, Seinfeld e Monteverde entraram em um acordo; o comediante também se acertou com a European Collectibles.

Contudo, o teor do acordo é mantido em sigilo.

Forbes Motors entrou em contato com Brownell (hoje diretor do Crawford Auto Aviation Museum), que resumiu: “tenho certeza de que nunca saberemos a verdadeira resposta. Possivelmente Seinfeld nunca soube que o carro era falso. E não tenho certeza se alguém poderia provar isso definitivamente”.

A reportagem também tentou contato com Seinfeld, Maxted-Page, European Collectibles e Gooding & Company, mas não obteve resposta.

(Gooding & Company)
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De acordo com colecionadores, poucas unidades do esportivo sobreviveram

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