Por que nossos cérebros passam 50% do tempo divagando

Pesquisa da Universidade da Califórnia afirma que processo é saudável e estimula a criatividade.

Alison Escalante
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Reprodução/Forbes
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É bom para nós deixar nossas mentes vagar ou não? Uma nova pesquisa usa EEG para rastrear padrões de ondas cerebrais quando nossas mentes divagam

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Quando os Pixies lançaram o hit “Where Is My Mind”, em 1988, dificilmente poderiam saber que esse tópico se tornaria importante ou que a divagação mental poderia ser controversa.

Cientistas cognitivos estão atualmente em um debate sobre se divagar é bom para nós ou não. Até recentemente, evidências sugeriam que a divagação mental é realmente ruim para nós e nos torna infelizes. No entanto, é uma parte tão natural do funcionamento do cérebro que nossos pensamentos vagam cerca de metade do tempo. Desafia a lógica pensar que nosso cérebro estaria realmente gastando tanta energia em algo ruim para nós.

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Agora, uma nova pesquisa liderada pela Universidade da Califórnia Berkeley encontrou uma maneira de realmente rastrear nossos pensamentos e ver se eles estão focados ou vagando. Com base nas descobertas, os pesquisadores concluíram que divagar é um processo cognitivo importante. Em outras palavras, é bom para nós e pode nos levar a novas ideias ou inovações.

 

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Debate sobre divagação

O projeto “Track Your Happiness” (ou “Monitore sua Feliciade”, em tradução livre), de Matt Killingsworth, por outro lado, concluiu que divagar nos deixa infelizes. Seus dados mostraram que nossas mentes vagam 47% do tempo, mas que quase sempre vagam para pensamentos negativos e ficam presas na ruminação. Por exemplo, seus dados mostraram que os trabalhadores no caminho do trabalho ficam mais felizes ao se concentrarem em estar presos no trânsito do que ao deixarem suas mentes livres.

Isso surpreendeu criativos e inovadores que usam a divagação mental para resolver problemas difíceis ou gerar novas ideias. Zachary Irving argumenta que a divagação da mente funciona de maneira diferente do que pensamos. Professor assistente da Universidade da Virginia, Irving é um filósofo da ciência cognitiva. Ele propõe que a divagação da mente deve ser entendida como “atenção não guiada”.

Em um de seus artigos, Irving explica a diferença entre atenção guiada, atenção não guiada e ruminação. “Grosso modo”, escreve ele, “a atenção de alguém é guiada se ela se sentir puxada para trás, caso esteja distraída de seu foco atual”.

Em contraste, quando nossos pensamentos vagam, eles passam de um assunto para outro, portanto, não são guiados. A divagação mental pode parecer sem propósito, mas nossos pensamentos têm uma maneira surpreendente de ir na direção dos nossos objetivos. Irving chama isso de “Enigma do Andarilho Determinado”. Ele escreve: “Minha solução para o quebra-cabeça é esta: a divagação da mente não tem propósito de uma maneira –é não guiada– mas tem propósito de outra – é frequentemente causada e, portanto, motivada, por nossos objetivos.”

Irving acredita que isso é bem diferente da ruminação, durante a qual nos concentramos obsessivamente em nosso sofrimento. Ele sugere que a ruminação não é absolutamente divagação mental, mas um tipo de atenção guiada porque a mente resiste a ser distraída dela.

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Rastreando ondas cerebrais quando a mente divaga

Irving faz parte da equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia Berkeley que acaba de desenvolver uma maneira de rastrear quando a mente está divagando. Esta é a primeira vez que os pesquisadores foram capazes de distinguir os padrões de ondas cerebrais de assinatura para diferentes tipos de pensamento.

Primeiro, a equipe ensinou 39 adultos sobre quatro tipos diferentes de pensamento: relacionado à tarefa, movimento livre, restrição deliberada e restrição automática. Em seguida, eles atribuíram tarefas tediosas para realizar e mediram sua atividade cerebral com um eletroencefalograma, exame em as pessoas usam eletrodos na cabeça e a máquina registra suas ondas cerebrais.

Quando os participantes terminaram suas tarefas enfadonhas, eles avaliaram seus pensamentos em uma escala de 1 a 7, relatando se seus pensamentos eram sobre a tarefa, se moviam livremente, eram deliberadamente restringidos ou automaticamente restringidos. O pesquisador então comparou as respostas com as gravações da atividade cerebral.

É fácil de entender o pensamento restrito: é o que permanece focado em algo. Mas como são os pensamentos que se movem livremente? A principal autora do estudo, Julia Kam, professora assistente de psicologia na Universidade de Calgary, deu um exemplo em um comunicado à imprensa. “Uma aluna, em vez de estudar para um exame, se pegou pensando se havia recebido uma boa nota em uma tarefa, então percebeu que ainda não havia preparado o jantar e se perguntou se deveria se exercitar mais e acabou relembrando sobre suas últimas férias.”

O exame permitiu aos pesquisadores dizer se as mentes dos participantes estavam focadas ou vagando. Quando as pessoas estavam prestando atenção em suas tarefas, elas tinham ondas cerebrais do tipo P3 em seus lobos parietais (nas laterais do cérebro). Quando não estavam apenas prestando atenção, mas restringindo deliberadamente seus pensamentos, as pessoas tinham ondas P3 em seus lobos frontais (a área na frente do cérebro que é conhecida pelas funções executivas).

Enquanto isso, quando os pensamentos começaram a vagar, os participantes tiveram fortes ondas alfa nos lobos frontais. Os autores do estudo foram específicos sobre isso: para eles, divagar significava pensamentos sem relação com a tarefa, que se moviam livremente e sem restrições. E isso é interessante, porque as ondas alfa são ondas cerebrais lentas que funcionam em cerca de 8-12 Hz e aparecem na parte inicial do sono. As ondas alfa estão associadas ao relaxamento. Portanto, quando a mente vagueia pelos lobos frontais, que são responsáveis pelo foco e pelo planejamento, entre em um estado de relaxamento.

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Divagar é importante

Os autores do estudo ficaram entusiasmados. “Pela primeira vez, temos evidências neurofisiológicas que distinguem diferentes padrões de pensamento interno, permitindo-nos compreender as variedades de pensamento fundamentais para a cognição humana”, disse o autor-sênior do estudo, Robert Knight, professor de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia Berkeley .

Mas as descobertas são particularmente empolgantes para aqueles que sempre sonharam acordados na escola. “As mentes dos bebês e das crianças parecem vagar constantemente, e por isso nos perguntamos a quais funções podem servir”, disse Alison Gopnik, psicóloga do desenvolvimento da Universidade da Califórnia Berkeley e estudiosa de filosofia que também é coautora do estudo, no comunicado à imprensa. “Nosso artigo sugere que a divagação mental é uma característica tão positiva da cognição quanto uma peculiaridade e explica algo que todos nós experimentamos.”

Se a divagação mental é uma característica positiva da cognição, o que ela está fazendo por nós? Bem, para começar, as ondas alfa que aparecem quando nossas mentes estão divagando significam que estamos relaxando. E nosso cérebro não consegue manter o foco e a produtividade sem períodos regulares de relaxamento. Mas há outra coisa que a divagação mental faz por nós. Pode parecer contra-intuitivo, mas deixar nossos pensamentos vagarem pode na verdade nos ajudar a resolver problemas quando focar neles não funciona.

“Se você focar o tempo todo em seus objetivos, pode perder informações importantes. E, portanto, ter um processo de pensamento de associação livre que gera memórias e experiências imaginativas aleatoriamente pode levar você a novas ideias e percepções”, disse Irving.

Então, da próxima vez que você quiser resolver um problema ou criar algo novo, quem sabe seja uma possibilidade apenas deixar o cérebro vagar sozinho e aumentar as ondas alfa.

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